Uberto Pasolini nos mostra uma visão diferente de Odisseu
Esqueça deuses, ciclopes, sereias e toda a fantasmagoria mítica, o que Pasolini nos entrega é um drama realista sobre trauma de guerra.

A trama se concentra no final da Odisseia: após vinte anos longe de seu trono, Odisseu chega nu e irreconhecível às praias de Ítaca. Sua esposa, Penélope, é prisioneira no próprio palácio, cercada por pretendentes que se interessam apenas pelo trono. Enquanto seu filho Telêmaco não possui poder algum.
Ralph Fiennes entrega um Odisseu cansado, musculoso e quase mudo. Ou seja, seu corpo é responsavel por revelar que seu exílio e as várias lutas travadas durante sua vida pesam profundamente no psicológico do personagem. Porém, Juliette Binoche rouba a tela, apesar do pouco texto, constrói uma Penélope regal, estratégica e emocionalmente esgotada, suas expressões falando mais do que muitos monólogos. Por fim, Charlie Plummer completa o triângulo com a raiva justa de um filho que cresceu órfão de seu pai ausente.
O filme aposta em um visual duro, pedras, mar e close-up nos persongens. Isso passa a todo momento a sensação de desgaste, refletindo o estado de espírito de Odisseu. O ritmo é lento, e demora para engatar, mas quando explode o contraste com as duas horas anteriores é forte, e revela que a caminhada até ali foi seca demais para quem esperava a grandiosidade de Homero.
Não é um épico, é um drama de família disfuncional ambientado na Grécia antiga, com grandes atores carregando o peso de um mito despido. Para quem busca monstros e aventura marítima, a decepção é garantida. Para quem topa um retorno mais amargo, humano e lento, o filme entrega exatamente o que promete: um rei que retorna e descobre que voltar pode doer mais do que partir.
NOTA: 7/10
