Até onde uma mãe é responsável por um filho?
Entre os filmes exibidos durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, temos Vicentina Pede Desculpas, um longa de Gabriel Martins que nos coloca diante de uma das perguntas mais difíceis quando falamos sobre maternidade, luto e responsabilidade: até que ponto uma mãe pode ser responsabilizada pelas atitudes de seu filho?
Com uma história que aborda a dor da perda, a culpa e a necessidade de encontrar respostas para acontecimentos que parecem impossíveis de compreender, o filme constrói um retrato profundamente humano de uma mulher que tenta seguir em frente depois de uma tragédia. É uma produção que entende como o luto pode transformar a maneira como enxergamos as pessoas que amamos e como, diante de uma perda, até mesmo as certezas mais fundamentais podem desmoronar.
Sinopse: Um olhar sobre o luto e a força de uma mulher para superar o que parece ser impossível. No que parecia ser uma manhã normal, o motorista de ônibus Wesley (Renato Novaes) perde o controle da direção. A polícia acredita que o acidente, na verdade, foi uma tentativa de suicídio. Vicentina (Rejane Faria), mãe de Wesley, vê as manchetes nos jornais e fica cada vez mais arrasada, até que decide procurar as famílias das vítimas para pedir desculpas e tentar seguir em frente.
Um filme que toca diretamente na alma
Vicentina Pede Desculpas é aquele tipo de filme que consegue tocar em feridas muito profundas, principalmente para quem já precisou lidar com a difícil experiência do luto. Gabriel Martins constrói uma história que não trata a dor como algo simples de superar, nem tenta oferecer respostas fáceis para uma situação tão complexa.
O que vemos é uma mãe tentando entender o que aconteceu com seu filho e, principalmente, tentando descobrir quem ele realmente era. A tragédia não representa apenas a perda de Wesley, mas também o surgimento de uma série de dúvidas que passam a acompanhar Vicentina. Como uma mãe pode conviver com a possibilidade de não ter conhecido completamente o próprio filho? Como seguir em frente quando aquilo que aconteceu parece não fazer sentido?
É justamente nesse ponto que o longa encontra sua força. Vicentina não está apenas tentando lidar com a ausência de Wesley. Ela também precisa enfrentar a culpa, a confusão e a necessidade de encontrar algum tipo de significado para uma tragédia que afetou tantas vidas.
A decisão de procurar as famílias das vítimas torna esse percurso ainda mais doloroso. Em vez de se afastar do acontecimento, a protagonista escolhe se aproximar das pessoas que também foram atingidas por ele, mesmo sem saber exatamente o que encontrará nesses encontros.
É uma atitude que diz muito sobre sua personalidade e sobre a maneira como ela tenta lidar com a própria dor. Vicentina busca pedir desculpas, mas também parece procurar alguma forma de compreender o que aconteceu e encontrar um caminho para continuar vivendo.

Rejane Faria entrega uma das atuações mais humanas do ano
Se existe um elemento que transforma Vicentina Pede Desculpas em uma experiência tão marcante, é a atuação de Rejane Faria. Para mim, ela entrega uma das personagens mais humanas do cinema brasileiro neste ano, construindo uma interpretação sincera, delicada e profundamente emocionante.
Existe uma naturalidade impressionante em sua maneira de interpretar Vicentina. A atriz não parece estar tentando demonstrar constantemente a dor da personagem. Em vez disso, ela permite que o sofrimento apareça nos pequenos gestos, nos olhares e nas reações diante de situações que a protagonista ainda não consegue compreender completamente.
Você acredita naquela mãe. Acredita em sua necessidade de encontrar respostas, na sinceridade de suas tentativas de se aproximar das famílias das vítimas e na dificuldade de aceitar que talvez não conhecesse o próprio filho tão bem quanto imaginava.
Essa é uma das grandes qualidades da interpretação de Rejane: ela consegue transmitir a dor de alguém que está tentando reorganizar toda a própria vida enquanto ainda precisa compreender aquilo que perdeu.
A dor de descobrir que não conhecemos completamente quem amamos
Um dos aspectos mais dolorosos do filme está justamente na possibilidade de Vicentina descobrir que não conhecia todas as partes de Wesley. Como mãe, ela carrega lembranças, afetos e uma história compartilhada com o filho, mas também precisa lidar com a existência de aspectos de sua vida que talvez tenham permanecido distantes de seu olhar.
Essa descoberta torna o luto ainda mais complicado. Afinal, perder alguém já significa aprender a conviver com sua ausência. Mas como lidar com essa ausência quando ela vem acompanhada de perguntas que talvez nunca sejam respondidas?
Rejane Faria consegue expressar essa contradição com muita sensibilidade. Sua personagem não é apresentada como uma mãe perfeita, capaz de compreender tudo o que acontece ao redor, mas como uma mulher comum que está tentando encontrar algum sentido em uma situação devastadora.
É impossível não se envolver com essa jornada. A atuação não exige que o espectador concorde com todas as escolhas de Vicentina, mas convida a compreender de onde vem sua necessidade de pedir desculpas e por que ela sente que precisa fazer alguma coisa diante de tudo o que aconteceu.
A amizade entre Vicentina e Joanna é o coração do filme
A relação entre Vicentina, interpretada por Rejane Faria, e Joanna, vivida por Maíra Azevedo, é, sem dúvidas, um dos maiores destaques do longa.
Em meio a uma narrativa marcada pela dor e pela dificuldade de encontrar respostas, a amizade entre as duas oferece um espaço de acolhimento. A relação se desenvolve de uma maneira muito bonita, mostrando como o afeto pode surgir em circunstâncias inesperadas e como a presença de outra pessoa pode fazer diferença quando tudo parece difícil demais.
Maíra Azevedo também merece destaque por trazer um pouco de humor à história. Sua personagem ajuda a aliviar parte do peso emocional do filme sem diminuir a importância dos acontecimentos. Pelo contrário: esses momentos tornam a experiência mais próxima da vida real, em que a tristeza e o riso nem sempre estão separados por uma fronteira tão clara.
A interação entre as duas atrizes funciona de maneira especialmente sincera. Existe uma preocupação genuína de Joanna com Vicentina, e acompanhar a construção dessa relação é uma das experiências mais bonitas da produção.
O afeto que surge quando mais precisamos dele
O que torna essa amizade tão especial é a maneira como ela se constrói a partir da vulnerabilidade. Vicentina está em um momento no qual precisa encontrar algum tipo de apoio, mesmo que nem sempre saiba como pedir ajuda. Joanna, por sua vez, demonstra uma sensibilidade que faz com que a relação entre as duas vá além de uma simples companhia.
Existe uma delicadeza na forma como Joanna se preocupa com Vicentina, especialmente quando compreendemos melhor o motivo pelo qual essa amizade se torna tão importante.
Sem precisar transformar cada interação em uma grande cena dramática, o filme encontra nesses momentos uma maneira de mostrar que o cuidado também pode ser uma forma de amor. Às vezes, não temos respostas para oferecer a alguém que está sofrendo. O que podemos fazer é estar presentes, ouvir e demonstrar que aquela pessoa não precisa enfrentar tudo sozinha.
Para mim, é justamente essa relação que ajuda a equilibrar a tristeza da narrativa e torna a jornada de Vicentina ainda mais emocionante.
Renato Novaes e o peso de quem precisa continuar cuidando
Renato Novaes também tem um papel importante na construção emocional do longa, interpretando Wesley e Bruno, o outro filho de Vicentina.
Embora sua presença seja mais limitada, o ator contribui para uma das questões centrais da história: como a dor de uma família se transforma e afeta cada pessoa de maneira diferente.
Bruno representa outro lado dessa experiência. Além de lidar com o que aconteceu com o irmão, ele precisa se preocupar com a própria mãe e encontrar maneiras de cuidar dela durante um momento extremamente difícil. A distância física não elimina a responsabilidade afetiva, e o personagem precisa enfrentar a dificuldade de conciliar a própria dor com a necessidade de estar presente para Vicentina.
Esse aspecto acrescenta uma camada importante à narrativa. Enquanto a protagonista tenta compreender o passado e encontrar respostas, Bruno precisa lidar com as exigências do presente. Ele também está sofrendo, mas precisa encontrar forças para cuidar de alguém que talvez esteja ainda mais fragilizado.
É um retrato muito humano de como as responsabilidades familiares não desaparecem quando uma tragédia acontece. Muitas vezes, mesmo quando estamos tentando entender a própria dor, precisamos continuar oferecendo apoio a quem amamos.
A interpretação de Renato Novaes ajuda a dar peso a essa dinâmica, mostrando que o luto não pertence exclusivamente a quem está no centro da história. Ele se espalha pela família e modifica a maneira como todos se relacionam.

Luto, depressão, amor e o peso da ausência
Vicentina Pede Desculpas trabalha com diversos temas delicados, entre eles a depressão, o afeto, o cuidado e as diferentes maneiras de lidar com o luto.
O filme entende que a perda não acontece apenas no momento em que alguém deixa de fazer parte da nossa vida. Ela também aparece nas lembranças, nas perguntas que ficam sem resposta e na necessidade de reconstruir uma rotina que já não será a mesma.
A história de Vicentina demonstra como uma tragédia pode modificar a maneira como enxergamos o passado. Situações que antes pareciam comuns podem ganhar novos significados, enquanto pequenas lembranças passam a carregar um peso emocional completamente diferente.
A produção também nos convida a refletir sobre como interpretamos as atitudes das pessoas ao nosso redor. Nem sempre conhecemos tudo o que alguém está enfrentando, e nem sempre somos capazes de perceber o que acontece na vida de quem amamos.
Essa reflexão é especialmente importante quando pensamos na pergunta que acompanha o filme: até que ponto uma mãe é responsável pelas atitudes de seu filho?
A maternidade costuma ser cercada por expectativas muito rígidas. Existe uma ideia de que uma mãe deveria ser capaz de perceber tudo, compreender todos os sinais e impedir que algo ruim aconteça com seus filhos. Mas a realidade é muito mais complexa do que essa expectativa permite reconhecer.
Amar alguém não significa ter controle sobre todas as suas escolhas. Da mesma forma, não compreender completamente uma pessoa não significa necessariamente que não houve amor ou cuidado.
O longa não precisa transformar essa discussão em um julgamento para demonstrar seu peso. A própria jornada de Vicentina é suficiente para mostrar como a culpa pode se tornar uma presença constante na vida de quem fica.
Gabriel Martins encontra beleza na simplicidade
A direção de Gabriel Martins é outro ponto que merece destaque. O cineasta conduz a narrativa com sensibilidade e demonstra compreender que uma história como essa não precisa recorrer a grandes exageros para provocar emoção.
O filme encontra sua força nas relações entre os personagens, nos momentos de silêncio e nas pequenas situações que revelam o que eles estão sentindo. Em vez de transformar a dor em um espetáculo, Gabriel permite que ela apareça de maneira gradual, respeitando o tempo necessário para que o espectador se conecte com Vicentina.
Essa escolha torna a experiência ainda mais envolvente. A emoção não surge apenas dos acontecimentos da trama, mas também da maneira como eles são apresentados e das relações que se desenvolvem ao longo da história.
E isso fica especialmente evidente no final.
Um final simples que diz muito
O desfecho de Vicentina Pede Desculpas é um dos momentos mais bonitos do filme justamente por não precisar explicar tudo. Gabriel Martins utiliza o som de maneira muito expressiva, construindo uma conclusão que transmite sentimentos e ideias sem depender de longos diálogos.
É uma escolha que demonstra confiança na própria história e na capacidade do público de compreender aquilo que está sendo comunicado. Depois de acompanhar a jornada de Vicentina, o espectador já conhece o peso de suas dúvidas, a intensidade de sua dor e a importância das relações que ela construiu ao longo do caminho.
Por isso, a simplicidade do final funciona tão bem. Ele não precisa resolver todas as questões ou oferecer uma resposta definitiva para o sofrimento da protagonista. Basta encontrar uma maneira sensível de encerrar essa jornada, deixando que as emoções construídas durante o filme permaneçam com quem está assistindo.
Confesso que, em alguns momentos, precisei segurar as lágrimas. Em outros, não consegui evitar soluçar durante a sessão. É um daqueles filmes que encontram uma maneira de tocar em feridas muito pessoais e que, justamente por isso, podem permanecer conosco depois que os créditos terminam.
Conclusão: um dos filmes mais bonitos do ano
Vicentina Pede Desculpas é um dos filmes mais bonitos que assisti neste ano. Caloroso, delicado e extremamente emocionante, o longa de Gabriel Martins constrói um retrato sensível de uma mãe que tenta compreender uma tragédia enquanto aprende a conviver com a ausência do filho.
Rejane Faria entrega uma atuação extraordinária, trazendo uma humanidade impressionante à protagonista. Maíra Azevedo, por sua vez, constrói com ela uma relação cheia de afeto, humor e cuidado, enquanto Renato Novaes ajuda a mostrar como a dor se manifesta de maneiras diferentes dentro de uma mesma família.
O filme também se destaca pela forma como aborda o luto, a depressão e a culpa sem transformar essas questões em respostas fáceis. Em vez disso, ele nos convida a pensar sobre os limites da responsabilidade materna, a complexidade das relações familiares e a dificuldade de compreender completamente as pessoas que amamos.
E talvez sua maior qualidade esteja justamente nisso: reconhecer que nem sempre conseguimos encontrar explicações para tudo o que acontece, mas que ainda podemos buscar formas de seguir em frente.
Vicentina Pede Desculpas merece ser assistido com carinho e com o coração aberto. É uma história sobre dor, mas também sobre afeto, cuidado e a possibilidade de encontrar algum acolhimento mesmo quando tudo parece impossível.
Sem dúvidas, é um filme que merece seu tempo e que mostra, mais uma vez, como Gabriel Martins sabe encontrar histórias profundamente humanas nas experiências mais dolorosas da vida.
