Cinema e literatura têm um laço umbilical, inclusive porque um filme para existir foi antes um texto literário, um roteiro. Ademais, quando não original, muitas vezes aqueles scripts são adaptações de livros para o cinema. É o caso deste Cuidado Com o Que Deseja (La Silla, Espanha, 2026, direção de Ángel de la Cruz), adaptado do livro La Silla, do escritor aragonês David Jasso, e em cartaz, a partir de 22/10, no serviço de streaming Adrenalina+.
Entretanto, para além dessa gênese literária, há quase um subgênero do suspense/horror que tem por base a narrativa de um escritor de sucesso que, muitas vezes no afã de se inspirar para se superar, e levado pela ambição e pela vaidade, impõe-se condições especiais para se inspirar na escrita.

As principais referências neste campo, mas não as únicas, são O Iluminado (The Shining, EUA/Reino Unido, 1980, direção de Stanley Kubrick) e 1408 (EUA, 2007, direção de Mikael Håfström), ambos adaptados de obras de Stephen King.
La Silla, filme e livro, bebem dessa fonte ao narrar a história de um escritor de livros de terror, Daniel Linces (Jaime Lorente, o Denver de La Casa de Papel, presente também em Elite), que, buscando sentir a mesma sensação de uma personagem de um livro que está escrevendo — que é sequestrada e amarrada a uma cadeira —, pede a sua esposa Irene (Christina Ochoa) que o amarre àquele móvel de uma forma que seja impossível soltar-se, para que experiencie o que é aquilo e se inspire na sua escrita. A esposa, mesmo reticente, atende ao pedido e, a partir daí, uma série de eventos irá ocorrer, levando o jovem escritor à dor e ao pânico.

O roteiro também referencia e reverencia Hitchcock, não só com a clara analogia com Janela Indiscreta (Rear Window, EUA, 1954) em razão da imobilidade de um observador em uma cadeira (aqui, amarrado; em Hitchcock, em uma cadeira de rodas), mas também a vários easter eggs em cena, como livros, pôsteres e sombras projetadas.
Thriller psicológico com fortes elementos de terror de flagelação física, o filme, apesar de sua curta duração, é uma descida ao inferno, marcada pela agonia, pelo sofrimento físico, pela angústia, pelo desespero e pela claustrofobia. A ambientação reduzida do cenário (cômodos da casa de Linces), sua limitação motora (preso a uma cadeira) e um design de som impecável — em que um choro constante de criança ao fundo leva a audiência a uma agonia constante e ao mesmo sentimento de impotência e pavor do protagonista — fazem de Cuidado com o que Deseja uma experiência atroz e cruciante.

Apesar de suas grandes virtudes no que se propõe e da estupenda atuação de Lorente, a película sofre de alguns equívocos (talvez em razão de um orçamento reduzido?). O roteiro e a duração enxuta do filme — talvez mais uns 15 minutos de tela fossem necessários — não permitem o aprofundamento de alguns aspectos dos personagens e levam a uma resolução rápida no final. Também é visível, no que diz respeito aos “efeitos especiais”, que falta algo. Nesse sentido, a sequência da queda de uma personagem, revelada lá pelo fim, é incrivelmente risível e truncada, tais quais filmes antigos que aceleravam a imagem nos momentos de ação. Por vezes, nesse sentido, o filme parece uma produção amadora.
De resto, apesar das ressalvas, o diretor Ángel de la Cruz consegue êxito em seu trabalho, e, assim como seu personagem principal, deixa o espectador grudado na cadeira, sem fôlego e num estado permanente de tensão e aflição.
Nota 7/10
