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Crítica: Londres (2026)

Um road movie casual Entre os filmes exibidos na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, temos Londres, de Sebastian Brameshuber, uma produção que mostra como, muitas vezes, a simplicidade pode valer a pena. Misturando documentário e ficção, o...

Sumário

Um road movie casual

Entre os filmes exibidos na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, temos Londres, de Sebastian Brameshuber, uma produção que mostra como, muitas vezes, a simplicidade pode valer a pena. Misturando documentário e ficção, o longa acompanha encontros casuais durante viagens de carro e transforma conversas aparentemente banais em um retrato curioso da sociedade europeia contemporânea.

Quando entramos em uma sessão da Mostra, nunca sabemos exatamente que tipo de experiência vamos encontrar. Cada filme pode nos levar para um lugar completamente diferente, e talvez essa seja uma das maiores graças de acompanhar um festival de cinema. Entre as produções que assisti nesses primeiros dias, Londres foi, sem dúvidas, uma das experiências mais curiosas.

Sinopse: Bobby está sempre em seu carro, indo e vindo pela rodovia que liga Viena a Salzburgo. Como outras pessoas viajam pela mesma rota, ele oferece carona para economizar dinheiro com a gasolina e aproveita para conversar com seus passageiros durante o trajeto. Entre eles estão um soldado que questiona o significado de lutar, um funcionário de supermercado ainda em período de treinamento que está indo visitar a família, um acadêmico que estuda a história da rodovia e uma mulher queer prestes a se casar. São caminhos diferentes, sotaques diferentes e histórias diferentes, muitas delas verdadeiras.

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Bobby escuta, mas também fala sobre si mesmo, sua juventude, o envelhecimento e seu amigo em coma em Salzburgo, o verdadeiro motivo de tantas viagens. Enquanto montanhas e florestas passam pela janela, intercaladas por cruzamentos, barreiras e pontes, a luz muda de acordo com as estações. Nem documentário nem inteiramente ficção, Londres é um retrato político e sutil da Europa atual, construído a partir de seus espaços de transição e daqueles que passam por eles.

Uma viagem sem destino cinematográfico tradicional

Confesso que, quando entrei na sessão, sem ter lido a sinopse com muita atenção, imaginei inicialmente que o filme teria alguma relação direta com a cidade de Londres. Não demorou muito para perceber que a proposta era outra: acompanhamos Bobby Sommer em suas viagens de aproximadamente 350 quilômetros entre Viena e Salzburgo.

Essa descoberta acabou tornando a experiência ainda mais curiosa. Em vez de uma narrativa tradicional, com começo, meio e fim claramente definidos, somos convidados a entrar no carro de Bobby e conhecer as pessoas que cruzam seu caminho.

O filme não parece interessado em construir grandes acontecimentos ou em conduzir o espectador por uma trama cheia de reviravoltas. Sua proposta é muito mais simples: observar as conversas, conhecer um pouco da vida de desconhecidos e descobrir o que pode surgir quando duas pessoas compartilham algumas horas de viagem.

É um formato que pode não funcionar para todo mundo, especialmente para quem espera uma história com conflitos bem definidos e um desenvolvimento narrativo convencional. Entretanto, existe algo bastante interessante nessa liberdade. Como os passageiros mudam ao longo do percurso, cada conversa oferece uma nova possibilidade, e nunca sabemos exatamente o que vamos encontrar na próxima parada.

Bobby Sommer, o homem por trás do volante

Bobby Sommer é, sem dúvidas, uma das figuras mais interessantes do filme. Um guarda aposentado que passa boa parte do tempo dirigindo entre duas cidades, ele transforma seu carro em uma espécie de espaço de convivência temporário.

Cada passageiro que entra no veículo traz consigo uma história, uma opinião ou uma maneira diferente de enxergar o mundo. Alguns estão apenas tentando chegar ao seu destino; outros parecem dispostos a compartilhar experiências pessoais com alguém que talvez nunca mais encontrem.

Bobby escuta essas pessoas, conversa com elas e, aos poucos, também revela aspectos de sua própria vida. A juventude, o envelhecimento e a preocupação com o amigo hospitalizado aparecem em meio a assuntos cotidianos, sem que o filme precise transformar essas revelações em grandes momentos dramáticos.

É justamente essa naturalidade que torna o personagem tão interessante. Ele não precisa ser um protagonista extraordinário para despertar nossa curiosidade. Sua rotina, aparentemente repetitiva, acaba se tornando uma oportunidade para observar diferentes pessoas e as pequenas conexões que surgem entre elas.

Histórias diferentes, encontros inesperados

Uma das maiores qualidades de Londres está na variedade de pessoas que passam pelo carro de Bobby. O filme reúne indivíduos com experiências, opiniões e preocupações distintas, criando um mosaico de histórias que ajuda a construir um retrato da Europa contemporânea.

Temos o soldado que questiona o significado de lutar, o funcionário de supermercado que está aprendendo a exercer sua profissão e deseja visitar a família, o acadêmico interessado na história da própria rodovia e a mulher queer que está prestes a se casar.

São personagens que poderiam facilmente protagonizar filmes completamente diferentes. Aqui, porém, suas trajetórias se cruzam por alguns quilômetros, em conversas que podem começar com assuntos banais e terminar em reflexões sobre a vida, a sociedade e o futuro.

O interessante é que nem todas essas histórias têm o mesmo impacto. Algumas conversas são mais envolventes, enquanto outras podem parecer longas ou pouco interessantes. E essa irregularidade faz parte da experiência: assim como acontece na vida real, nem todo encontro resulta em uma conversa memorável.

Um retrato político construído a partir do cotidiano

Apesar da simplicidade da proposta, o filme também encontra espaço para abordar questões políticas e sociais. Ao reunir pessoas com diferentes perspectivas e experiências, Londres mostra uma sociedade composta por indivíduos que nem sempre compartilham as mesmas preocupações ou enxergam o mundo da mesma maneira.

A política não precisa aparecer por meio de discursos grandiosos ou debates formais. Em muitos momentos, ela está presente nas dúvidas de um soldado, nas condições de trabalho de um funcionário, nas relações pessoais e na maneira como cada indivíduo se posiciona diante da realidade.

A própria rodovia se transforma em um elemento simbólico. Ela conecta cidades, atravessa paisagens e permite que pessoas que provavelmente nunca se conheceriam compartilhem um espaço por algum tempo.

Existe algo de muito humano nessa ideia. Em uma época marcada por tantas divisões, o filme encontra nas conversas cotidianas uma possibilidade de aproximação entre desconhecidos. Não significa que todas as diferenças desapareçam, mas que, por alguns instantes, pessoas com histórias distintas conseguem dividir o mesmo espaço e ouvir umas às outras.

Um filme sem uma história tradicional

Talvez o maior desafio de Londres seja justamente a ausência de uma narrativa convencional. O longa não apresenta uma trama que se desenvolve de maneira progressiva, com conflitos que precisam ser resolvidos ou acontecimentos que conduzem a uma conclusão específica.

Em vez disso, acompanhamos uma sucessão de encontros. A cada nova carona, uma história diferente aparece, e o filme segue adiante, sem necessariamente retomar todos os assuntos apresentados anteriormente.

Por isso, o ritmo pode oscilar bastante. Algumas conversas despertam interesse imediato, enquanto outras acabam se tornando cansativas. Em determinados momentos, senti que certas histórias poderiam ser mais curtas ou que o filme poderia encontrar uma maneira mais envolvente de conduzir alguns desses encontros.

Ainda assim, existe uma honestidade admirável na forma como Sebastian Brameshuber apresenta sua proposta. O diretor não parece tentar transformar cada passageiro em um personagem extraordinário nem forçar todas as conversas a terem um significado profundo.

A vida não funciona dessa maneira, e o filme parece compreender isso. Algumas pessoas nos contam histórias incríveis; outras falam sobre coisas que não despertam tanto interesse. Às vezes, uma conversa fica na memória por muito tempo. Em outras ocasiões, ela simplesmente termina quando chegamos ao nosso destino.

É essa mistura de momentos que torna a experiência tão particular.

Uma grande playlist sobre a vida

Para mim, Londres é como uma grande playlist que você coloca para tocar durante uma viagem de carro. Existem músicas de que você gosta imediatamente, outras que não despertam tanto interesse e algumas que talvez só façam sentido dependendo do seu humor naquele momento.

O mesmo acontece com as histórias apresentadas pelo filme. Nem todas são igualmente interessantes, e o ritmo pode oscilar, mas existe algo agradável em simplesmente acompanhar o percurso e descobrir quem será a próxima pessoa a entrar no carro.

A comparação também funciona porque não precisamos gostar de todas as músicas de uma playlist para apreciar a experiência como um todo. Da mesma forma, não é necessário que cada conversa de Londres seja fascinante para que o filme encontre seu próprio encanto.

A produção nos convida a desacelerar, observar e ouvir. Em vez de exigir atenção por meio de grandes acontecimentos, ela aposta na curiosidade que sentimos diante das experiências alheias.

E, quando o filme termina, fica a sensação de que acompanhamos algo muito simples, mas também muito próximo da vida real: uma viagem compartilhada, algumas conversas e histórias que talvez nunca mais se cruzem.

Conclusão: a simplicidade pode valer a pena

Londres, de Sebastian Brameshuber, foi uma das experiências mais curiosas que tive durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É um filme tranquilo, simples e que não tem medo de seguir um caminho diferente daquele esperado de uma narrativa cinematográfica tradicional.

Apesar de algumas histórias menos interessantes e de um ritmo que oscila ao longo da duração, o longa consegue ser honesto em sua proposta. Acompanhamos Bobby Sommer e seus passageiros sem a necessidade de grandes acontecimentos, descobrindo aos poucos como conversas casuais podem revelar muito sobre as pessoas e o mundo em que vivem.

No fim, Londres funciona como uma viagem compartilhada com desconhecidos. Nem todas as conversas serão memoráveis, mas cada uma delas contribui para a experiência de alguma maneira.

É como uma playlist que você escuta no carro até chegar ao seu destino: há músicas de que você gosta e outras de que não gosta tanto, mas, no final, o conjunto acaba sendo agradável.

E talvez essa seja a maior qualidade do filme. Em meio a tantas produções que tentam impressionar a qualquer custo, Londres mostra que, às vezes, basta observar a vida acontecendo para encontrar uma história que vale a pena acompanhar.

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Marina Bueno
Sobre o autor Marina Bueno

Apaixonada por cultura pop, teatro e musicais. Fã de Wicked, da Supergirl e de histórias inspiradoras, encontrei nos palcos e nas telas minha maior fonte de entretenimento. Corinthiana de coração, valorizo a emoção das grandes apresentações, seja em um espetáculo musical ou em uma partida de futebol.

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