Soft Reboot mistura simplicidade com pretensão
X-Men é uma franquia confusa que aparentemente já nasceu cansada. Surfando na onda de heróis de roupa preta como Matrix, o primeiro filme tentou reunir a fantasia dos super-poderes com o ar soturno de uma trama um pouco mais sombria.
Porém, o conceito somado principalmente à performance de Hugh Jackman conferiu à saga uma fama ímpar, dando mais aderência entre os filmes de herói e o público.
Conforme as continuações vinham apresentando uma qualidade duvidosa, a FOX decidiu voltar a história no tempo e contar as origens dos personagens já estabelecidos. Principalmente no que tange a Professor Xavier e Magneto, os rivais centrais de todo o universo dos X-Men. Pretendendo, assim, dar frescor à franquia e, ao ter atores mais jovens, garantir uma franquia vindoura. Mas como tinham atores de peso em personagens marcantes, não tiveram a ousadia de rebootar a história por completo e seguir no seguro.
X-Men: Primeira Classe mistura, com certa harmonia, o contexto da Guerra Fria com a participação cada vez mais organizada dos mutantes no conflito. Essa participação aparece como revés aos planos de Sebastian Shaw (Kevin Bacon) de fomentar a guerra para causar a autodestruição dos humanos e assim os mutantes governarem num mundo novo.
É um plano infantil já que eles não teriam o que governar num mundo destruído por bombas nucleares. E até mesmo a maior parte dos mutantes provavelmente morreriam no conflito.
Aliás, infantilidade domina boa parte do roteiro. Todas as respostas ou são fáceis ou injustificáveis. Por exemplo, quando Charles Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender) tem acesso ao Cérebro, que é na verdade um simples projeto qualquer do Fera (Nicholas Hoult) para o governo, eles podem escolher mutantes do mundo todo para integrar sua equipe.
Mas eles escolhem, em sua maioria, os mutantes mais jovens, inexperientes ou com os poderes mais instáveis para formar o grupo. (Exceto talvez por uma participação especial bem-vinda). Não há resolução prática ou lógica para a escolha.
E isso nos leva à cena de “treinamento” da equipe. Em apenas uma semana e sem qualquer preparo prévio, Xavier deve treinar o time para enfrentar vilões mais poderosos e experientes num período de tempo extremamente curto para que se possa ter algum proveito.
E toda essa imaturidade de storytelling gera momentos constrangedores e caricatos. Tudo isso é muito mais culpa da direção/roteiro do que dos próprios atores, que fazem o que podem com o que tem acesso. Isso é notável no que tange ao trio de vilões, que mais parece sair de um filme infantil dada as próprias caricaturas. A Emma Frost de January Jones parece sempre pouco à vontade na própria pele e a atriz parece ter vergonha de tudo que envolve sua personagem. Já Kevin Bacon parece se divertir na pele de Sebastian Shaw, cuja atuação orbita entre o bobo e o “um pouco ameaçador”.
O destaque vai para Michael Fassbender, cuja performance como Magneto – de forma emocional e dura – mostra o núcleo mais sombrio do filme e é uma antítese muito adequada à atuação racional e bem intencionada do Xavier de James McAvoy. Ambos personagens mostram uma adequada camaradagem acima das próprias diferenças.
Como alicerce das relações futuras que marcariam o universo, X-Men: Primeira Classe é um bom início, mas que ao se concentrar no todo ou no que seria marcante mais à frente, acaba sendo convencional em muitos momentos.
Por exemplo, a certa hora vemos uma gigante simplificação no modo como Fera aumenta seus poderes, enquanto em outra Magneto levanta um questionamento bastante fundamentado sobre a relação que ela faz entre os poderes e a própria auto-estima. Quando estas subtramas se encontram, é na forma de um diálogo apressado e simplório.
X-Men: Primeira Classe parece não saber se é uma trama séria e política entre mutantes e humanos em guerra, uma aventura de adolescentes com poderes especiais ou uma missão de dois seres super-poderosos que decidem recrutar seus iguais.
Ao bater tudo isso no liquidificador, todas as camadas de tom do roteiro ficam descompassadas e ao final do filme temos apenas uma sensação de: “Ok”, no que tinha o potencial para ser brilhante.
