A solidão de Nova York
Entre os filmes exibidos na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, temos O Último Batedor de Cartas, novo longa de Noah Segan, que integra a programação da seção Novos Diretores. Estrelado por John Turturro, o filme é uma grata surpresa que mistura o cinema policial clássico com uma reflexão sobre o tempo, a solidão e a dificuldade de aceitar que o mundo está mudando.
Noah Segan talvez tenha entregado um dos filmes visualmente mais bonitos desta temporada. Ao lado de Tigre de Papel, de James Gray, a produção apresenta uma das estéticas que mais me chamaram a atenção neste ano. Existe um carinho evidente pelo cinema policial, especialmente aquele produzido nos anos 1970, e uma compreensão muito particular de como a imagem pode ajudar a contar a história de um personagem.
Sinopse: A trama acompanha Harry Lehman (John Turturro), um experiente batedor de carteiras que tenta sobreviver em uma Nova York profundamente transformada pela tecnologia. Em um mundo no qual as carteiras cheias de dinheiro foram substituídas por cartões de crédito facilmente canceláveis, as coisas se complicam quando ele rouba acidentalmente um valioso pen drive. O objeto dá início a uma perseguição labiríntica envolvendo uma perigosa família de criminosos, enquanto Harry tenta encontrar uma maneira de devolvê-lo.
Noah Segan e o charme do cinema policial
Uma das grandes qualidades de O Último Batedor de Cartas está na maneira como Noah Segan constrói sua identidade visual. O diretor demonstra domínio da linguagem do cinema policial e parece ter um carinho especial por produções dos anos 1970, algo que aparece na atmosfera, nos enquadramentos e na maneira como a cidade é retratada.
Nova York não funciona apenas como cenário para a história de Harry. A cidade parece carregar suas próprias contradições, acompanhando as transformações de um mundo que já não tem espaço para determinados tipos de pessoas. A modernização muda a maneira como os crimes acontecem e, consequentemente, coloca em risco a própria profissão do protagonista.
Existe uma ironia interessante nessa premissa: Harry é um homem que construiu sua vida em torno de uma habilidade que, pouco a pouco, deixa de fazer sentido. O dinheiro físico perde espaço, a tecnologia transforma as relações cotidianas e aquilo que antes exigia experiência passa a depender de circunstâncias completamente diferentes.
O filme encontra beleza justamente nesse contraste entre o passado e o presente. Sua estética remete a outro momento do cinema, mas sua história fala sobre alguém que não consegue acompanhar o próprio tempo.
Uma Nova York que parece ter esquecido seu protagonista
A fotografia é um dos aspectos mais impressionantes da produção. Noah Segan demonstra saber exatamente como enquadrar seus personagens e utilizar os espaços para reforçar a sensação de isolamento que acompanha Harry.
A cidade continua movimentada, cheia de pessoas e possibilidades, mas o protagonista parece cada vez mais deslocado dentro dela. Enquanto tudo ao seu redor muda, ele insiste em preservar os costumes que conhece, como se continuar fazendo as coisas da mesma maneira fosse suficiente para impedir que o mundo o deixasse para trás.
Essa escolha visual conversa diretamente com o tema central do longa. Não se trata apenas de acompanhar um ladrão tentando sobreviver, mas de observar um homem que se recusa a aceitar que sua época está chegando ao fim.
A solidão de um homem que não aceita o tempo
Por trás da trama policial, O Último Batedor de Cartas apresenta uma história sobre orgulho, envelhecimento e solidão. Harry não é necessariamente um homem extraordinário. Pelo contrário: é alguém simples, que encontrou uma maneira de viver e passou a construir sua identidade em torno dela.
Ele se orgulha de ser um dos últimos a fazer aquilo que faz. Existe uma dignidade particular nessa insistência, mas também uma dificuldade evidente em reconhecer que o mundo não vai parar para que ele continue vivendo da mesma maneira.
É justamente aí que o filme encontra sua força. A resistência de Harry à modernidade não é tratada apenas como uma característica curiosa de um personagem excêntrico. Ela também revela o medo de perder aquilo que lhe dá propósito.
O protagonista parece acreditar que abandonar seus velhos costumes significaria abandonar a si mesmo. E, conforme a história avança, essa relação entre identidade e orgulho se torna cada vez mais importante.
Quando o orgulho se transforma em prisão
Harry não quer simplesmente continuar trabalhando. Ele quer provar que ainda é capaz de fazer aquilo que sempre fez, mesmo quando as circunstâncias deixam claro que sua profissão já não ocupa o mesmo lugar no mundo.
Essa teimosia torna o personagem interessante porque não o transforma em um herói perfeito. Suas escolhas podem ser questionáveis, mas são compreensíveis dentro da lógica de alguém que não sabe muito bem quem seria sem aquilo que aprendeu a fazer.
O filme consegue trabalhar essa questão sem precisar transformar seu protagonista em uma figura grandiosa. Harry é um homem comum, com suas limitações, seu orgulho e sua necessidade de encontrar algum sentido na própria existência.
É uma abordagem que torna a história mais humana e que ajuda a explicar por que, mesmo com uma trama policial envolvendo criminosos e um objeto valioso, o verdadeiro interesse do longa está no próprio protagonista.

John Turturro entrega uma atuação memorável
Talvez este seja um dos melhores trabalhos da carreira de John Turturro. O ator encontra o equilíbrio necessário para interpretar um homem que pode parecer ultrapassado aos olhos do mundo, mas que ainda enxerga valor naquilo que faz.
Sua atuação não depende de grandes demonstrações emocionais. Pelo contrário, Turturro constrói Harry a partir de pequenos gestos, expressões e interações, fazendo com que o personagem pareça alguém que poderíamos encontrar andando pelas ruas de Nova York.
Há algo de muito sincero em sua interpretação. Harry não precisa ser o homem mais inteligente da sala ou o personagem mais habilidoso de uma trama policial. Sua humanidade está justamente em suas imperfeições e na maneira como tenta preservar uma vida que já não funciona como antes.
O protagonista também me lembrou o personagem interpretado por Josh O’Connor em The Mastermind. São figuras que, cada uma à sua maneira, ajudam a demonstrar como o cinema pode encontrar personagens profundamente humanos em pessoas comuns, sem precisar transformá-las em grandes heróis ou vilões.
Assim como naquele filme, existe aqui uma atenção especial aos pequenos detalhes e às contradições de alguém que tenta conduzir a própria vida enquanto as coisas ao redor parecem escapar de seu controle.
A amizade com Steve Buscemi é um dos destaques
Outro ponto alto está nas interações entre Harry e o personagem de Steve Buscemi, que interpreta seu amigo. A relação entre os dois está entre as coisas mais sinceras e encantadoras do filme.
As conversas ajudam a revelar diferentes aspectos da personalidade de Harry e oferecem momentos nos quais a narrativa consegue respirar sem perder sua conexão com o protagonista. Existe uma naturalidade nessas cenas que faz com que a amizade pareça construída ao longo de muitos anos, em vez de existir apenas para cumprir uma função no roteiro.
É nessas pequenas interações que O Último Batedor de Cartas demonstra sua maior sensibilidade. Por trás do suspense e da perseguição, há pessoas tentando encontrar algum tipo de conexão em uma cidade que parece cada vez mais indiferente.
Quando os outros personagens não têm o mesmo peso
Apesar de todas as qualidades do protagonista, o filme perde um pouco de sua força quando precisa dividir a atenção com os demais personagens.
Giancarlo Esposito, Tatiana Maslany, Jamie Lee Curtis e Will Price integram o elenco de apoio, mas seus personagens não alcançam a mesma profundidade ou o mesmo impacto de Harry. Enquanto o protagonista é construído com cuidado, as figuras que movimentam o conflito ao seu redor acabam parecendo redundantes em determinados momentos.
Isso não significa que a trama policial seja desinteressante. O roubo do pen drive e a perseguição que se desenvolve a partir dele oferecem um motor narrativo eficiente, capaz de manter a história em movimento. O problema é que nem todos os personagens envolvidos nesse conflito recebem o mesmo cuidado que torna Harry tão interessante.
Quando o filme se afasta de seu protagonista para acompanhar essas figuras, a narrativa perde parte de sua singularidade. As relações e os conflitos secundários não apresentam o mesmo peso emocional, e fica evidente que o longa funciona melhor quando está concentrado na solidão e nas contradições de seu personagem principal.
Ainda assim, essas limitações não chegam a comprometer completamente a experiência. A presença de Turturro e o domínio visual de Noah Segan conseguem manter o interesse, mesmo quando o roteiro não aproveita todo o potencial de seu elenco.
Conclusão: um filme charmoso e surpreendente
O Último Batedor de Cartas foi uma grata surpresa na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Com uma estética belíssima, uma atmosfera que remete ao cinema policial dos anos 1970 e uma história que encontra humanidade em um personagem aparentemente comum, Noah Segan entrega um filme charmoso e extremamente encantador.
O longa não é perfeito. Os personagens secundários nem sempre têm o mesmo peso do protagonista, e a trama policial poderia aproveitar melhor algumas de suas possibilidades. Entretanto, esses problemas não apagam as qualidades de uma produção que sabe muito bem onde está sua força.
John Turturro é o grande destaque, entregando uma atuação que transforma Harry Lehman em uma figura humana, contraditória e fácil de acompanhar. Sua interpretação dá sentido à história de um homem que tenta preservar seu lugar em um mundo que já não precisa tanto dele.
No fim, O Último Batedor de Cartas é um filme que merece seu tempo. É uma obra visualmente linda, simples na medida certa e capaz de prender a atenção durante seus 88 minutos. Mais do que uma história de crime, é um retrato melancólico de alguém que se recusa a deixar o passado para trás.
E, para mim, é justamente essa mistura de solidão, orgulho e beleza que faz do longa uma das boas surpresas desta edição da Mostra.
