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Você quer criar um game? Veja 6 decisões que vêm antes da primeira linha de código

Mais de 74% dos brasileiros jogam jogos eletrônicos, segundo dados citados pelo Ministério da Cultura, e a indústria brasileira de desenvolvimento de games já reúne 1.042 estúdios e 13.225 profissionais, de acordo com levantamento da Associação Brasileira das Empresas Desenvolvedoras...

Sumário

Mais de 74% dos brasileiros jogam jogos eletrônicos, segundo dados citados pelo Ministério da Cultura, e a indústria brasileira de desenvolvimento de games já reúne 1.042 estúdios e 13.225 profissionais, de acordo com levantamento da Associação Brasileira das Empresas Desenvolvedoras de Jogos (Abragames). Mas, para quem está do outro lado da tela, boa parte do trabalho necessário para transformar uma ideia em uma experiência jogável permanece invisível. Antes de personagens, cenários, trilhas sonoras e códigos, existem decisões sobre a experiência que se quer proporcionar, as mecânicas que vão sustentar o jogo, os desafios que serão apresentados ao jogador e até mesmo aquilo que pode precisar ser descartado ao longo do desenvolvimento.
 

“Não existe uma única forma de um jogo nascer”, explica Giovanna Saggiomo, professora e coordenadora do Bacharelado em Jogos Digitais do Senac. Segundo ela, um game pode começar pela experiência que se pretende criar, pelo tema ou pela narrativa, mas também pode nascer de uma mecânica específica. “Se eu começo dizendo ‘quero fazer um jogo em que o personagem tenha um pulo triplo’ e, a partir dessa mecânica, passo a decidir o tipo de cenário, os desafios, o personagem e até a temática do jogo, esse processo está mais próximo de um bottom-up”, exemplifica. No caminho inverso, o top-down parte de uma ideia mais ampla para chegar às mecânicas e aos sistemas que vão sustentá-la.
 

Para quem quer transformar uma ideia em um game, a especialista destaca seis pontos importantes:
 

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1. Antes de pensar no jogo, pense na experiência

A primeira pergunta não precisa ser “que jogo eu quero fazer?”, mas “o que quero que o jogador experimente?”. Um projeto pode buscar provocar relaxamento, tensão, curiosidade, competição, reflexão ou desafio. Essa intenção ajuda a orientar as decisões seguintes e a avaliar se os diferentes elementos do jogo estão trabalhando na mesma direção.
 

“Uma maneira interessante de pensar é perguntar: esse jogo consegue produzir a experiência que se propõe a criar?”, explica Giovanna. É a partir dessa definição que mecânicas, narrativa, personagens, dificuldade, ritmo, arte e áudio podem ser pensados de maneira coerente.
 

2. Comece pequeno, e termine o que começou

Para quem está entrando na área, uma ideia simples, que possa ser desenvolvida e finalizada, pode ser mais valiosa do que um projeto grandioso que nunca chega a uma versão jogável. Desenvolver um game do início ao fim permite entender as etapas do processo, identificar dificuldades e descobrir quais funções despertam maior interesse. “Fazer um jogo simples do início ao fim ensina muito sobre desenvolvimento e também ajuda a descobrir com qual área a pessoa mais se identifica”, afirma a professora.
 

O conselho também vale para quem pretende montar um portfólio. Mais do que listar ferramentas conhecidas, ter projetos efetivamente concluídos ajuda a demonstrar o que o profissional sabe criar, testar e aperfeiçoar.
 

3. Não confunda desenvolvimento de games com programação

Programação é apenas uma das especialidades envolvidas. Dependendo do projeto, podem participar game designers, artistas 2D e 3D, modeladores, animadores, roteiristas, profissionais de áudio, especialistas em UI/UX, produtores e equipes de QA, responsáveis por identificar bugs e inconsistências.
 

Essas áreas, porém, não funcionam como departamentos isolados. Uma mudança aparentemente simples, como alterar a velocidade de um personagem, pode exigir ajustes na programação, na animação, no level design e até no áudio. “O jogador não percebe programação, arte, animação ou som como partes separadas. Ele experimenta tudo isso como um único jogo”, destaca Giovanna.
 

4. Faça um protótipo antes de investir em tudo

Um protótipo não precisa ter gráficos sofisticados ou representar visualmente o produto final. Muitas vezes, ele existe para responder uma pergunta específica: essa mecânica funciona?
 

A lógica é testar uma hipótese antes de investir tempo e recursos na produção completa. Se uma mecânica não funciona como esperado, pode ser modificada ou descartada ainda no início do processo. “Podemos imaginar que uma mecânica será divertida, que uma interface será intuitiva ou que determinado desafio terá a dificuldade adequada, mas só conseguimos realmente verificar isso quando colocamos a ideia em funcionamento”, explica a professora.
 

O desenvolvimento passa, assim, por ciclos de criação, teste, avaliação e revisão. Um jogo pode mudar bastante entre a primeira versão e o produto final: mecânicas podem desaparecer, fases podem ser redesenhadas e até elementos considerados centrais no início podem ser abandonados.
 

5. Coloque alguém para jogar, e observe

Quem desenvolve um jogo já conhece suas regras, objetivos e interface. O jogador que experimenta o projeto pela primeira vez não tem nenhuma dessas informações, e justamente por isso pode revelar problemas que a equipe deixou de perceber.
 

Os playtests ajudam a avaliar se os controles são compreensíveis, se a dificuldade está adequada, se o jogador entende o que precisa fazer e se a experiência planejada está realmente acontecendo. “Quem desenvolve o jogo já conhece suas regras, objetivos e interface; um jogador que chega pela primeira vez não possui nenhuma dessas informações e, por isso, frequentemente revela problemas que a própria equipe já não consegue enxergar”, afirma Giovanna.
 

6. Use novas tecnologias, mas não terceirize seu conhecimento

Game Engine como Unity e Unreal já concentram ferramentas para desenvolver sistemas, física, iluminação, animação e outros elementos. A inteligência artificial também começa a ser incorporada a diferentes etapas, como programação, prototipagem, geração de elementos e automação de tarefas repetitivas.
 

Para a professora, porém, o avanço dessas ferramentas torna o conhecimento ainda mais importante. “Quanto mais poderosas ficam as ferramentas, mais importantes se tornam os fundamentos e a capacidade crítica. O profissional precisa saber utilizar novas tecnologias, mas também precisa saber quando confiar nelas, quando corrigir seus resultados e quando simplesmente não utilizá-las.”
 

Isso vale inclusive para quem está começando. Um código gerado por IA pode funcionar e ainda assim não ser adequado à arquitetura do projeto; uma imagem pode ser visualmente interessante e não respeitar a direção de arte; uma animação pode estar tecnicamente correta e não comunicar o comportamento esperado para o personagem.
 

Da ideia ao game

Entre a primeira ideia e o jogo que chega ao público existe um processo que envolve pré-produção, desenvolvimento, arte, programação, narrativa, áudio, testes, ajustes e lançamento. A própria estrutura do projeto pode mudar durante esse caminho, conforme a equipe descobre, por meio de protótipos e playtests, o que funciona, e o que precisa ser repensado.
 

Além da programação, portanto, o setor oferece oportunidades em diferentes áreas criativas e técnicas. Game design, arte, animação, narrativa, áudio, UI/UX, produção e QA são algumas das possibilidades para quem deseja trabalhar com jogos.
 

É esse caráter multidisciplinar que também faz parte da formação em Jogos Digitais do Senac. Em seus cursos, os estudantes têm contato com diferentes etapas do desenvolvimento e podem experimentar a criação de projetos em equipe, além de atividades como game jams e testes com jogadores.
 

A participação do Senac na BGS também amplia esse contato com o público e com o ecossistema de games. Para apresentar um projeto em um evento de grande circulação, explica Giovanna, não basta que o jogo seja tecnicamente bem desenvolvido. É preciso considerar a experiência de quem vai jogar: controles claros, estabilidade, facilidade de compreensão e um ciclo de gameplay que consiga funcionar mesmo em poucos minutos.
 

No fim, criar um game é menos sobre simplesmente colocar uma ideia na tela e mais sobre descobrir, por meio de decisões, protótipos, testes e colaboração, qual é a melhor maneira de fazer essa ideia funcionar para quem vai jogar.

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Marina Bueno
Sobre o autor Marina Bueno

Apaixonada por cultura pop, teatro e musicais. Fã de Wicked, da Supergirl e de histórias inspiradoras, encontrei nos palcos e nas telas minha maior fonte de entretenimento. Corinthiana de coração, valorizo a emoção das grandes apresentações, seja em um espetáculo musical ou em uma partida de futebol.

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