sinopse
O corpo de uma mulher não identificada é descoberto em uma pequena vila na Virgínia. Eventos inexplicáveis começam a atormentar os donos do necrotério e os responsáveis por fazer a autópsia no cadáver.
Atenção: contém spoilers

A Atmosfera Claustrofóbica do Necrotério
Para mim, o verdadeiro terror de uma sala de autópsia não é apenas a morte, mas a angústia de pensar que a sua consciência sumiu e o seu corpo virou um objeto na mão de estranhos, sendo cortado e invadido sem nenhuma privacidade. Foi com esse incômodo em mente que comecei a assistir a The Autopsy of Jane Doe.
Praticamente todo ambientado dentro de um necrotério subterrâneo e envelhecido, A Autópsia de Jane Doe transforma o desconforto da morte em uma experiência claustrofóbica. O filme faz aquele ambiente se tornar tão estranho que, em muitos momentos, causa mais angústia do que os próprios sustos. A direção de fotografia de Roman Osin é excelente, e André Øvredal demonstra bastante competência na criação do mistério.
Antes de falar da história em si, preciso reconhecer o quanto Olwen Kelly é excelente no papel de Jane Doe. É estranho falar isso porque ela praticamente não faz nada, mas, ao mesmo tempo, faz muito. Jane não tem a aparência que esperamos de um cadáver: mesmo imóvel, ela parece estranhamente viva. A iluminação é fundamental para isso, com o contraste entre as cores frias do necrotério e a forma como ela é iluminada, fazendo com que se destaque do resto do ambiente. E existe algo desconfortável no olhar de Olwen Kelly, que cria uma espécie de vale da estranheza: ela parece presente demais para alguém que deveria estar morta
Isso faz a autópsia parecer muito mais desconfortável do que já é no início. Antes de Jane, existe a autópsia de um cadáver queimado enquanto toca um rock, criando uma distância entre nós e aquela situação horrível. Já com Jane, essa distância começa a desaparecer: existe uma sensação de invasão do corpo de alguém que ainda parece estar ali. As cenas de autópsia são fenomenais. O filme consegue fazer do próprio procedimento uma fonte de tensão, e os efeitos práticos são excelentes, tornando cada etapa da autópsia muito angustiante.

O Voyeurismo e a Curiosidade Mórbida
Esse desconforto é introduzido logo no início, quando Emma, a namorada de Austin, demonstra curiosidade em olhar um cadáver real. Além de servir como artifício para explicar os sinos dos cadáveres que serão usados mais tarde, a cena estabelece algo importante: tanto ela quanto nós, espectadores, temos uma curiosidade mórbida diante da morte.
Sentimos o incômodo moral daquela invasão, mas queremos continuar olhando. O filme reforça essa postura voyeurística visualmente, forçando nosso olhar para Jane a todo momento. Queremos cada vez mais que ela seja aberta — e aqui isso é literal. Queremos descobrir o que aconteceu com ela, transformando nossa repulsa inicial em uma busca inevitável por respostas.

Quando o Filme Força o Terror
O diretor consegue criar de maneira muito competente um desconforto mórbido e claustrofóbico, mas, na parte final, em vez de continuar explorando a presença de Jane e o som ambiente, o filme prefere recorrer a uma linguagem mais genérica: jump scares previsíveis e a ideia de que som alto é sinônimo de susto.
Isso fica ainda mais frustrante na cena do cadáver se aproximando pelo corredor. O sino já era suficiente para criar tensão; nós ouvimos aquele som e sabemos que alguma coisa está vindo. É uma das situações em que o filme encontra uma maneira muito mais eficiente de assustar sem precisar mostrar praticamente nada. Por isso, a entrada da trilha sonora no momento do ataque acaba abafando parte do impacto que o próprio sino havia construído. O filme tinha encontrado uma das suas melhores ferramentas de terror e, justamente quando poderia confiar nela, sente necessidade de enfatizar o susto.
A morte dos protagonistas também reforça um problema que já vinha aparecendo. As atuações de Emile Hirsch e Brian Cox são boas, mas o roteiro não conseguiu fazer com que eu me importasse realmente com os dois. Quando o filme finalmente tenta aprofundar a relação entre eles e transformar aquilo em um drama emocional, já não existe envolvimento suficiente para que isso funcione. Por isso, quando os dois morrem, não senti o impacto que o filme claramente esperava provocar. O mesmo acontece com Emma: sua morte funciona muito mais como um artifício para atingir Austin do que como a conclusão de uma personagem que o filme realmente desenvolveu.
E então chegamos ao epílogo. Jane é levada embora, tudo parece ter acabado e, de repente, seu dedo se move e o sino toca. É tão clichê e tão cafona que eu ri alto. E ainda fico me perguntando se esse era justamente o objetivo, porque, depois de um filme que passou tanto tempo construindo desconforto através do silêncio, da espera e da sugestão, terminar com o tradicional “ela vai voltar” soa quase como uma paródia do próprio gênero.
Conclusão
No fim das contas, A Autópsia de Jane Doe entrega uma excelente primeira metade, sustentada pelo mistério bizarro do corpo e pela total falta de controle dos legistas diante daquela invasão. O problema é que o roteiro não sustenta a própria coragem, trocando o horror psicológico do silêncio por sustos barulhentos e desfechos previsíveis. Felizmente, por ser um filme curto, esses erros do 2º e 3º ato não chegam a incomodar tanto ou estragar a experiência completa. Vale a pena pela tensão inicial e pela brilhante construção técnica do cadáver, terminando como um feijão com arroz que diverte sem exigir muito.
2,5/5 🌶
