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Regras do Amor na Cidade Grande (lançamento)

Adaptação de best seller homônio se perde em roteiro piegas, cheio de clichês e caricatural....

Sumário

A Coreia do Sul é um celeiro de grandes obras cinematográficas, dos mais diversos gêneros, que, por vezes mimetizando Hollywood, outras trazendo cargas de originalidade, trouxeram ao mundo filmes que refletem angústias de nosso tempo, com características próprias que afligem a todos (as), independente se sul-coreanos (as) ou não. É um cinema que tem uma pegada tão global quanto local.

Diretores como Park Chan-wook, Bong Joon-ho e Yeon Sang-ho entregaram filmes tão díspares quanto marcantes: “Oldboy” (2003), “A Única Saída” (2025), “Memórias de um Assassino” (2003), “Parasita” (2019) e “Invasão Zumbi” (2016) trazem em suas narrativas, seja em forma de drama, comédia, horror ou ação, embalados muitas vezes em paródias ou sátiras, muitas das dores e medos da contemporaneidade, de um mundo que caminha para um ultraliberalismo, onde as formas de trabalho se transformam, diluem-se  ou até mesmo somem e as relações afetivas se pulverizam no imediatismo raso das redes sociais; deixando como legado o desamparo e incerteza de ser e se manter em um real etéreo e fluido.

“Regras do Amor na Cidade Grande” (Love in The Big City, Coreia do Sul, 2024), direção de Lee Eon-hee – conhecida como E.oni – e roteiro adaptado do best seller homônimo, escrito por Park Sang Young, também corroteirista, junto com Kim Na-deul; chega tardiamente no Brasil, direto para o serviço de streaming Filmelier+, em 24/09/26. 

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Traz em seu bojo muito da temática recorrente do cinema sul-coreano, tais como os desafios do mercado de trabalho, a questão da saúde mental dos jovens, às voltas com uma sociedade conservadora, homofóbica, machista e misógina; as implicações da vida adulta e o assentamento da maturidade frente às expectativas e demandas de um pensamento majoritariamente normativo e conservador.

O filme abandona a densidade do livro, que denuncia a solidão urbana que “condena” ao isolamento, a partir de seu conservadorismo asfixiante, os homossexuais na Coreia do Sul; e ainda mais quando traz o protagonista às voltas com o diagnóstico de HIV positivo e todo peso do preconceito que isto traz.

Assim, o roteiro aposta em uma narrativa “moderninha”, que pega carona em sucessos tais como “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas” (1985) e “As Vantagens de Ser Invisível” (2012); e  se apresenta como uma trama de amadurecimento, com ares de “comédia romântica”, exagerando no uso de câmera lenta, montagem paralela e uma trilha sonora que carrega no sentimentalismo, subindo e descendo em tons, conforme queira levar a audiência a se emocionar, a rir ou chorar.

Não há química entre os protagonistas. Noh Sang-hyun (também conhecido como Steve Sanghyun Noh) na pele de Heung-soo, o jovem gay que esconde sua identidade, e Kim Go-eun como Jae-hee, uma mulher de espírito livre e independente, não convencem em cena, seja como amigos, contracenando juntos ou em suas tramas individuais de amores exagerados e escondidos, regados ao consumo excessivo de álcool. 

Também é de se registrar uma tônica caricatural e exagerada na representação de alguns personagens e situações. O advogado/noivo, que lá pelas tantas se relaciona com Jae-hee, é apresentado de forma maniqueísta e simplista, sem nenhum atributo humano que não seja a grosseria e a estupidez. O escritório onde a mocinha vai trabalhar na “maturidade”, e a delegacia onde procura ajuda depois de passar por um episódio de violência doméstica são construídos e encenados de maneira extravagantemente histriônicas e irreais 

O que deveria ser uma reflexão sobre o que é ser jovem na Coreia do Sul, sobre a luta pelos direitos LGBTQIAPN+ naquele país, sobre a emancipação da mulher e uma crônica acerca da maturidade; perde-se em um filme que nunca alcança aquilo que pretende. 

Seja como denúncia, seja como um retrato desolador da juventude, ou mesmo um drama sobre os desafios da idade adulta, ou ainda comédia romântica,  “Regras do Amor na Cidade Grande” fica pela metade em todas suas intenções, esvaindo-se em uma obra medíocre e sem profundidade. Não faz jus à magnífica cinematografia sul-coreana.

Nota 5/10

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Marcio Souza
Sobre o autor Marcio Souza

Cinéfilo, antes de tudo! Fã de quadrinhos das antigas, amante das letras, psicólogo, bacharel em cinema e áudio visual, crítico de cinema, roteirista, ator, etc. Sou tantas coisas, mas nada me cabe, ou define.

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