O avanço da tecnologia e os impactos da inteligência artificial ganham espaço no cinema brasileiro com a estreia de Futuro Futuro. Dirigido pelo cineasta gaúcho Davi Pretto (Continente), o longa chega às salas de cinema combinando a ficção científica distópica com um retrato cru da desigualdade social e da dependência tecnológica.

ESTÉTICA REALISTA E A GEOGRAFIA BRASILEIRA
Uma estética realista e tonalidade caseira são entregues pelo filme ao explorar cenários urbanos sem filtros. A produção de baixo orçamento caminha por distanciar-se do visual polido estrangeiro e escancara as marcas da parte empobrecida de uma chuvosa metrópole brasileira.
A escolha do diretor evidencia uma evolução significativa para o cinema nacional ao abordar temas futuristas sem perder a conexão com a nossa realidade. A divisão de classes é escancarada pelo contraste entre o cotidiano marginalizado do protagonista K — um homem de 40 anos sem memória acolhido por um clickworker — e as projeções estéreis dos condomínios de luxo no horizonte.
A DISTOPIA VIVIDA DENTRO E FORA DAS TELAS
Fatos reais transformaram completamente o rumo da produção. Gravado em Porto Alegre em apenas 16 dias, o longa teve suas filmagens interrompidas pela histórica enchente de maio de 2024. Diante da destruição das locações e dos recursos limitados, imagens geradas por inteligência artificial foram radicalmente incorporadas ao filme por Davi Pretto.
Essa escolha serviu tanto como solução prática de produção quanto como elemento narrativo distópico. O potencial poético e o absurdo das imagens geradas por IA são investigados provocativamente pelo enredo, refletindo os perigos cognitivos e políticos dessa tecnologia no trabalho e nas relações humanas.
CAMADAS DE CONFUSÃO E O DESAFIO DO ENREDO
Sob um olhar clínico sobre o enredo, a clareza das cenas nem sempre é transmitida para o espectador. Se o objetivo primário de Pretto era provocar incertezas, mistério e confusão inicial, o tiro foi certeiro. No entanto, o peso da desconexão por vezes ultrapassa o limite da proposta temática.
Em uma narrativa distópica sobre perda de memória, avanço tecnológico e síndromes neurológicas, respostas fundamentais são omitidas da audiência. Embora a ficção abra margem para o abstrato, um compilado de acontecimentos cria momentos em que o sentido da trama é colocado em cheque: O “porquê” dos acontecimentos: Faltam amarras narrativas para explicar a origem e as consequências dos males que afetam o protagonista; Desconexão excessiva: A fantasia por vezes perde a força por não sustentar a lógica interna do seu próprio universo.
VALE O INGRESSO?
Apesar do tom por vezes hermético, Futuro Futuro se consolida como um experimento corajoso e necessário. O desafio do cinema independente brasileiro é exposto com honestidade por uma obra que precisou enfrentar uma catástrofe real para existir. É um convite incômodo, mas válido, para refletirmos sobre o que ainda é real em um mundo dominado por telas e algoritmos.
O longa chega em 23 de Julho nos cinemas.
