O thriller de espionagem/ação é um gênero de filme que está na margem entre o factual e o ficcional. Muitas vezes embasado em teorias da conspiração, mantém um pé na realidade. Como, via de regra, seus protagonistas estão vinculados a alguma agência governamental ou serviço de inteligência, este tipo de roteiro alimenta também pontos de vista políticos ou simpáticos a uma ideologia qualquer. Da mesma forma, busca referendar ações de diferentes países.
James Bond, criação literária de Ian Fleming, depois eternizado em várias versões na tela grande como o Agente 007, a serviço da Coroa Britânica, e Ethan Hunt, à frente de sua equipe de agentes da Impossible Mission Force, que realiza operações secretas e tecnológicas, são referências em espionagem. Missão Impossível começou como série televisiva nos anos 60 e foi imortalizada por Tom Cruise no cinema. Ambos são ícones e fundamentos no gênero, não por acaso, refletindo o antigo imperialismo inglês, e os interesses dos EUA no contemporâneo.

Frequência Explosiva (Israel, 2026, direção de Danny A. Abeckaser), entrando no catálogo do Adrenalina Pura+ no último dia 05/11, usa e abusa dos clichês do gênero de uma maneira muito ruim. No embalo fronteiriço entre o ficcional e o real, a produção tem como pano de fundo o ataque do Hamas, grupo terrorista palestino, a uma rave próxima à Faixa de Gaza em 07 de outubro de 2023, que resultou em centenas de mortos e dezenas de reféns israelenses. Traz também o ataque do igualmente terrorista Hezbollah, em 08 de outubro de 2023, situado no Líbano, que lançou foguetes contra o norte de Israel em solidariedade ao Hamas. A trama acompanha a ação do Mossad, serviço secreto israelense, contra os líderes do Hezbollah. Essa operação resultou na morte de seus membros e líderes em 17 de setembro de 2024, ao explodirem, de forma remota, os pagers que o grupo utilizava para se comunicar. A investida ocorreu após o Estado Judeu descobrir que o Hezbollah trocou os celulares por parges, por saberem que Israel monitorava os telefones, para atacar os líderes do Hamas quando estes estivessem em suas casas.
O filme de Abeckaser utiliza de forma totalmente trôpega a fórmula do thriller de espionagem, resultando em uma obra fraca e que funciona meio que como uma paródia dos blockbusters do gênero. Por ser mal dirigido, quase não há virtudes ali, do roteiro à fotografia, passando pela trilha sonora e interpretação. Nesse sentido, o quarteto de agentes do Mossad protagonistas — dois homens e duas mulheres — parece atuar numa comédia do tipo de algum filme da trilogia Johnny English, com Rowan Atkinson. A diferença fundamental é que o eterno Mr. Bean é um dos grandes mestres do humor, enquanto o elenco de Frequência Explosiva, incluindo os vilões, espécies de Gargamel dos smurfs, é apenas incompetente, mal dirigido, canastrão e ridículo. A piada, então, torna-se involuntária.

Há algo de indigno e nauseabundo nesta película, se pensarmos que recentemente dois grandes filmes apresentaram perspectivas de denúncia das ações de Israel: A Voz de Hind Rajab (2025) e Gaza (2026). Nestas duas obras, temos denúncias de crimes contra a humanidade, apresentadas em forma de ficção (mas com a voz real da criança em off) e de documentário. Nelas, são escancaradas as estratégias de Israel em responder às agressões palestinas com o assassinato em massa de crianças e civis em Gaza.
Panfletário, espécie de peça de propaganda do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Frequência Explosiva é definitivamente, com o perdão do trocadilho, uma bomba. Para os fãs de espionagem e ação, restam apenas ecos distantes, e cômicos, de clássicos do gênero.
Nota: 2/10
