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Crítica: Tudo Pode Ser Visto (2026)

E no final, a louca sou eu O grande filme de encerramento da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi Tudo Pode Ser Visto, novo longa-metragem de Nathan Fielder e Lance Oppenheim, que coloca em xeque uma pergunta...

Sumário

E no final, a louca sou eu

O grande filme de encerramento da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi Tudo Pode Ser Visto, novo longa-metragem de Nathan Fielder e Lance Oppenheim, que coloca em xeque uma pergunta bastante curiosa: afinal, quem está manipulando quem?

Sinopse: Trinta e quatro dias antes de ser presa, a famosa fundadora do Vale do Silício, Elizabeth Holmes, convida uma equipe de filmagem cética para documentar cada um de seus passos. O que começa como um retrato íntimo de uma criminosa enigmática transforma-se em uma jornada alucinante de três anos rumo ao abismo. Dos ousados diretores Nathan Fielder e Lance Oppenheim, chega Tudo Pode Ser Visto.

Se você entrar na sessão de Tudo Pode Ser Visto sem ter qualquer experiência anterior com o tipo de humor de Nathan Fielder ou com a maneira como ele constrói seus projetos, prepare-se para um verdadeiro choque cultural. A forma como o cineasta conduz suas produções pode causar estranhamento e até mesmo um certo susto em quem não está acostumado com seu estilo. Durante a minha sessão, inclusive, pude perceber a reação de uma mulher sentada ao meu lado, que parecia não saber muito bem como interpretar aquilo que estava acontecendo na tela.

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Mas é justamente aí que está o grande pulo do gato. Diferentemente de outros projetos de Fielder, como Nathan for You, O Ensaio e The Curse, aqui o cineasta parece assumir uma posição um pouco diferente: ele também se torna uma espécie de telespectador do próprio humor e das situações que está ajudando a construir. Afinal, quando temos uma figura como Elizabeth Holmes diante das câmeras, a realidade já parece suficientemente absurda por conta própria.

Elizabeth Holmes: uma figura impossível de ignorar

Elizabeth Holmes talvez seja uma das figuras mais inusitadas e assustadoras que encontramos no cinema deste ano. Sua presença é, por si só, capaz de transformar qualquer situação em algo desconfortável. Existe uma curiosidade quase hipnótica em observar a maneira como ela se comporta diante da equipe, como responde às perguntas e como tenta conduzir a narrativa sobre a própria vida.

A direção de Lance Oppenheim e Nathan Fielder é um dos grandes destaques do documentário. A escolha por enquadramentos extremamente fechados, com a câmera praticamente grudada no rosto das pessoas, cria uma sensação constante de invasão e desconforto. É como se o espectador estivesse perto demais dos acontecimentos, sem ter qualquer possibilidade de escapar daquela situação.

Essa proximidade funciona especialmente bem porque o documentário vai mudando de forma conforme sua história avança. Aquilo que inicialmente parece ser apenas um registro da rotina de uma mulher envolvida em um dos casos mais conhecidos do Vale do Silício começa a adquirir contornos cada vez mais estranhos. A câmera não está apenas registrando os acontecimentos: ela também passa a fazer parte de um jogo psicológico no qual ninguém parece estar completamente no controle.

Um jogo de gato e rato

A dinâmica entre Nathan Fielder, Elizabeth Holmes e Billy Evans, marido de Elizabeth, é um verdadeiro jogo de gato e rato. Você não sabe exatamente em quem confiar, muito menos quais são as intenções de cada pessoa envolvida naquela produção.

Existe uma certeza da qual o espectador parte: Elizabeth Holmes foi condenada por seus crimes. Entretanto, isso não significa que tudo o que vemos diante das câmeras seja simples de interpretar. Assim como Nathan Fielder, ficamos constantemente tentando descobrir até que ponto existe sinceridade nas falas, nas atitudes e nas situações apresentadas pelos dois lados dessa relação.

E é justamente essa incerteza que torna o filme tão fascinante. Em diversos momentos, você começa a questionar não apenas Elizabeth e Billy, mas também o próprio Nathan. Afinal, até onde vai a intenção de documentar os acontecimentos? Em que momento a equipe deixa de ser apenas observadora e passa a participar ativamente daquela dinâmica?

O resultado é uma experiência em que as posições de vítima, manipulador, observador e participante parecem mudar o tempo inteiro. Ninguém está completamente confortável, e o espectador também não recebe respostas fáceis. A sensação é de estar acompanhando uma disputa na qual as regras nunca foram apresentadas e na qual cada pessoa parece acreditar que está um passo à frente das outras.

Um documentário que não deixa o espectador respirar

Outro grande mérito de Tudo Pode Ser Visto está em seu ritmo. Mesmo com uma proposta que poderia facilmente se tornar repetitiva, o documentário consegue construir uma narrativa envolvente, que não fica entediante ou cansativa em nenhum momento.

A maneira como a produção trabalha os 34 dias anteriores à prisão de Elizabeth e os acontecimentos posteriores é particularmente interessante. Existe uma progressão muito bem construída, na qual cada nova situação acrescenta outra camada de estranhamento à história. O filme sabe quando prolongar um momento desconfortável, quando deixar o silêncio falar e quando apresentar uma informação capaz de mudar completamente a nossa percepção sobre o que estamos assistindo.

Além disso, existe uma surpresa narrativa que faz o longa crescer ainda mais. Sem entrar em detalhes que possam estragar a experiência, é um daqueles momentos que fazem você repensar boa parte do que acabou de assistir. Em determinados trechos, a tensão é tão bem construída que fica difícil não se sentir na ponta da cadeira.

E talvez esse seja o maior triunfo da direção: transformar uma história que já parece absurda por natureza em uma experiência cinematográfica ainda mais imprevisível. O humor, o constrangimento e a tensão caminham juntos, sem que o filme precise escolher apenas um desses caminhos.

E no final, quem venceu?

Tudo Pode Ser Visto é, sem dúvidas, um dos melhores filmes que assisti neste ano e uma das experiências cinematográficas mais marcantes da década. É aquele tipo de produção que termina e faz você precisar de alguns segundos para processar tudo o que acabou de presenciar.

O filme continua martelando na cabeça mesmo depois que os créditos começam a subir. Você fica repassando as situações, questionando as intenções de cada pessoa e tentando encontrar uma resposta para uma pergunta que parece acompanhar toda a narrativa: quem exatamente venceu esse jogo de gato e rato?

Mais do que apresentar um retrato de Elizabeth Holmes, o documentário constrói uma experiência sobre manipulação, percepção e a dificuldade de distinguir o que é espontâneo daquilo que está sendo cuidadosamente encenado. E, quando Nathan Fielder está envolvido, essa fronteira fica ainda mais interessante.

Tudo Pode Ser Visto é uma experiência potente, provocadora e desconcertante, que merece ser assistida ao menos uma vez. Mesmo que você nunca tenha ouvido falar de Elizabeth Holmes antes de entrar na sala de cinema, dificilmente sairá sem formar alguma opinião sobre ela ou, pelo menos, sem começar a questionar os próprios princípios e certezas.

E, no final das contas, talvez a pergunta mais importante não seja quem estava manipulando quem, mas por que, depois de tudo, ainda estamos tentando descobrir quem era a pessoa mais louca daquela sala.

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Marina Bueno
Sobre o autor Marina Bueno

Apaixonada por cultura pop, teatro e musicais. Fã de Wicked, da Supergirl e de histórias inspiradoras, encontrei nos palcos e nas telas minha maior fonte de entretenimento. Corinthiana de coração, valorizo a emoção das grandes apresentações, seja em um espetáculo musical ou em uma partida de futebol.

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