Tecnologia abraça um dos clássicos da literatura mundial, mas não é suficiente para convencer no épico de Christopher Nolan.
Quando falamos de Christopher Nolan, é inegável o talento do renomado diretor em incorporar às suas obras alguns dos mais significativos recursos tecnológicos que o cinema pode oferecer. Seus longas se tornam, assim, um prato cheio para os apreciadores da sétima arte e seus fãs mais antigos. Porém, seria o elemento técnico suficiente para sustentar uma obra tão grandiosa e atemporal quanto A Odisseia?
O espetáculo técnico de Christopher Nolan
Respondendo a essa pergunta, é fácil ser impactado pela fotografia impecável do Mediterrâneo. A paisagem sonora também é impressionantemente marcante, acompanhando desde os momentos mais solenes do filme até seus grandes pontos de tensão.
Quando avaliamos a trama como adaptação, entretanto, a situação muda. O peso da tecnologia e dos avanços técnicos de Nolan não é suficiente para ignorar aquilo que fica pelo caminho.
O que se perde de Homero a Nolan
Aqui temos uma releitura original, mas bastante específica. O diretor parece retirar da obra de Homero somente aquilo que lhe convém encaixar em sua própria interpretação desse universo. Elementos e aparições mitológicas são cortados, deixando um vazio na profundidade do material original.
Mais significativa ainda é a alteração daquela que talvez seja a principal característica de Odisseu: sua métis. Nolan abandona o herói definido pela astúcia e pela inteligência estratégica para privilegiar a figura de um guerreiro quase impecável.
Um elenco entre destaques e personagens apagados
Outro ponto fraco está na forma como o diretor conduz parte de seu elenco e escreve alguns de seus personagens. Matt Damon (Odisseu), John Leguizamo (Eumeu) e Himesh Patel (Euríloco) entregam ótimas performances. Em contrapartida, repete-se a pouca atenção de Nolan às suas figuras femininas.
Anne Hathaway (Penélope) e Zendaya (Atena) acabam apagadas em um ambiente no qual poderiam entregar muito mais. Atena torna-se quase um assombro de Odisseu, deixando de lado a importância da deusa na formação e orientação do herói. Penélope, por sua vez, tem seu papel reduzido ao de uma quase viúva entregue às lamentações.
Já Tom Holland (Telêmaco) e Robert Pattinson (Antínoo) deixam a sensação de que poderíamos ter visto mais. Em diversas cenas, ambos acabam ofuscados por seus respectivos colegas. Como resultado, suas presenças são menos marcantes quando comparadas às demais.
Por fim, The Odyssey aproxima-se muito mais de uma releitura particular de Nolan do que de uma adaptação verdadeiramente aliada à obra de Homero. O diretor continua trabalhando com a grandiosidade que já se tornou sua assinatura. No entanto, tenta explicar e conferir realismo ao que é, por natureza, mágico.
Nesse processo, desmembra do herói grego justamente aquilo que mais o distinguia dos demais: a inteligência acima da força.
No fim das contas, Nolan se perde ao tentar transformar a epopeia em um filme de ação. E isso acontece mesmo diante de um espetáculo tecnicamente irrepreensível, com fotografia deslumbrante e desenho de som monumental.
