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Crítica: Terra do Meu Pai (2026)

A solidão de uma guerra Entre os filmes exibidos na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está Terra do Meu Pai, novo longa de Pawel Pawlikowski, diretor conhecido por obras como Ida e Guerra Fria. O cineasta chega...

Sumário

A solidão de uma guerra

Entre os filmes exibidos na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está Terra do Meu Pai, novo longa de Pawel Pawlikowski, diretor conhecido por obras como Ida e Guerra Fria. O cineasta chega com mais um trabalho marcado por suas escolhas estéticas características, em uma produção que conquistou o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes. Mas será que o reconhecimento é suficiente para sustentar um filme que, ao menos para mim, acaba se tornando uma experiência bastante cansativa?

Sinopse: No verão de 1949, no ápice da Guerra Fria, o escritor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura Thomas Mann (Hanns Zischler) retorna à Alemanha após passar 16 anos exilado nos Estados Unidos.

Pawel Pawlikowski e um estilo que divide opiniões

O cinema de Pawel Pawlikowski é aquele tipo de experiência que parece funcionar na base do ame ou odeie. Particularmente, gosto bastante de Ida, um dos trabalhos mais marcantes de sua filmografia. Já Guerra Fria me parece tão cansativo quanto este novo longa. Uma coisa, porém, não podemos negar: Pawlikowski tem uma identidade visual e narrativa muito própria, algo que faz com que seus filmes sejam facilmente reconhecíveis.

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Em Terra do Meu Pai, o diretor volta a apostar na fotografia em preto e branco e na proporção de tela 4:3, escolhas estéticas que ajudam a construir uma atmosfera intimista, melancólica e sufocante. Com duração de aproximadamente 1h20, o filme poderia se beneficiar de uma narrativa mais concentrada, sem tempo para se tornar cansativo. Infelizmente, não é o que acontece.

Mesmo com uma duração relativamente curta, a produção parece se arrastar durante boa parte de sua exibição. O ritmo lento, que poderia funcionar como uma ferramenta para aprofundar os sentimentos dos personagens e o contexto histórico, acaba se transformando em um dos principais problemas do longa.

Uma estética que não consegue sustentar a narrativa

O preto e branco e o formato 4:3 combinam com a proposta de um filme que aborda as consequências da guerra, a solidão e as marcas deixadas pela história. Existe uma intenção clara de construir uma obra contemplativa, na qual os silêncios e os enquadramentos tenham tanta importância quanto os diálogos.

O problema é que a estética, por mais bonita e coerente que seja, não consegue compensar a sensação de que a narrativa pouco avança. Em determinados momentos, parece que o filme está tão preocupado em sustentar sua própria atmosfera que acaba se esquecendo de envolver o espectador no que está contando.

A contemplação pode ser uma ferramenta poderosa no cinema, mas, para funcionar, precisa despertar alguma coisa em quem assiste. Aqui, infelizmente, a experiência frequentemente se aproxima mais do tédio do que da reflexão.

O peso histórico de uma Alemanha dividida

Um dos aspectos mais interessantes de Terra do Meu Pai está justamente em seu contexto histórico. Ambientado em 1949, poucos anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o filme acompanha um período marcado pelas consequências do conflito e pelo início de uma nova disputa ideológica: a Guerra Fria.

A Alemanha daquele momento carregava as cicatrizes de uma guerra devastadora e se encontrava diante de um futuro incerto. O retorno de Thomas Mann, depois de 16 anos de exílio nos Estados Unidos, abre espaço para discutir o sentimento de pertencimento, a relação com a própria terra e a dificuldade de reencontrar um país que já não é exatamente aquele que se deixou para trás.

É uma premissa bastante interessante, principalmente quando pensamos na relação entre identidade, memória e política. O que significa voltar para casa depois de tantos anos? E o que acontece quando esse lugar, além de ter mudado, também carrega as consequências de escolhas históricas difíceis?

São questões que poderiam render um filme muito mais envolvente. Entretanto, apesar da força do contexto, a narrativa nem sempre consegue transformar essas possibilidades em uma experiência cinematográfica que prenda a atenção.

Sandra Hüller e Hanns Zischler são os destaques

Se existe algo que ajuda Terra do Meu Pai a se manter de pé, são as atuações de seu elenco, especialmente Sandra Hüller e Hanns Zischler.

Sandra Hüller, como sempre, está belíssima em cena e entrega uma atuação de muita força. A atriz tem uma presença marcante, capaz de transmitir sentimentos mesmo quando o roteiro parece não oferecer tantas oportunidades para que seus personagens se desenvolvam. Em um filme tão dependente de sutilezas, sua interpretação se torna um dos elementos mais interessantes da produção.

Hanns Zischler também merece destaque ao interpretar Thomas Mann. Sua presença funciona como um contraponto importante à personagem de Hüller, especialmente na relação entre pai e filha. Existe uma dinâmica interessante entre os dois, que ajuda a trazer alguma humanidade para uma narrativa tão marcada pela melancolia e pela distância emocional.

Quando as atuações são melhores do que o filme

O trabalho dos atores demonstra como o longa poderia alcançar resultados mais impactantes. Mesmo quando a narrativa parece estagnada, há momentos em que a presença dos intérpretes consegue despertar curiosidade e emoção.

Sandra Hüller, em particular, acaba sendo uma das principais responsáveis por manter o interesse durante a sessão. Sua atuação oferece camadas a uma história que, em outros aspectos, parece excessivamente preocupada com a própria construção estética.

Ainda assim, por melhores que sejam as performances, elas não conseguem resolver todos os problemas do roteiro. Em diversos momentos, fica a sensação de que os atores estão trabalhando para dar vida a uma história que não encontra o ritmo necessário para envolver o público.

Um filme que parece não sair do lugar

Meu maior problema com Terra do Meu Pai é o quanto a experiência se torna cansativa. Durante a sessão, houve momentos em que acabei cochilando ou simplesmente me peguei pensando no que faria depois do filme. E, para uma produção que parte de um contexto histórico tão rico, essa é uma sensação bastante frustrante.

O longa parece estar sempre prestes a desenvolver alguma coisa, mas raramente chega a um ponto em que a narrativa realmente ganha força. As cenas se sucedem, a atmosfera melancólica permanece e os conflitos estão ali, mas tudo parece avançar muito pouco.

É claro que nem todo filme precisa ter grandes acontecimentos ou uma narrativa acelerada. Existem obras contemplativas que encontram justamente no silêncio, na lentidão e na ausência de respostas sua maior força. O problema é que, neste caso, a lentidão não me parece suficientemente recompensadora.

Em vez de fazer com que o espectador mergulhe na solidão dos personagens e no peso daquele período histórico, o filme frequentemente provoca uma sensação de distanciamento. É difícil se envolver emocionalmente quando a história parece permanecer no mesmo lugar durante boa parte de sua duração.

O filme mais fraco da trilogia?

Considerando Ida e Guerra Fria como referências para entender a filmografia recente de Pawlikowski, Terra do Meu Pai me parece talvez o trabalho mais fraco dessa sequência de filmes.

Também é, sem dúvidas, um de seus trabalhos mais depressivos e tristes. A melancolia está presente em praticamente toda a experiência, mas nem sempre encontra uma forma de se transformar em algo verdadeiramente marcante. Em muitos momentos, a tristeza parece ser menos uma consequência natural da história e mais uma característica que o filme insiste em manter do início ao fim.

Além disso, existe uma sensação de que a produção reúne todos os elementos que costumam chamar a atenção das premiações: fotografia em preto e branco, enquadramentos cuidadosamente construídos, uma história ambientada em um momento histórico importante e atuações intensas. Tudo parece preparado para conquistar indicações e até uma possível corrida ao Oscar.

Mas, para mim, existe uma diferença entre um filme que apresenta características associadas ao cinema de prestígio e um filme que realmente consegue emocionar, provocar ou permanecer na memória. Terra do Meu Pai parece muito mais interessado na primeira possibilidade do que em construir uma experiência que funcione de maneira consistente para o espectador.

Conclusão: uma das grandes decepções da Mostra

Terra do Meu Pai é, sem dúvidas, um dos filmes mais decepcionantes que assisti na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Com um diretor que já entregou trabalhos como Ida, um contexto histórico cheio de possibilidades e atuações fortes, especialmente a de Sandra Hüller, eu esperava muito mais.

A produção tem qualidades visuais evidentes e parte de questões interessantes sobre a Alemanha do pós-guerra, o exílio e a solidão. Entretanto, o ritmo excessivamente lento e a dificuldade de desenvolver sua narrativa transformam o filme em uma experiência cansativa e sonolenta.

No fim, fica a impressão de que Pawel Pawlikowski tinha todos os ingredientes para construir algo muito mais impactante, mas acabou se perdendo na própria proposta. Mesmo com a força de seu elenco e a beleza de sua composição visual, o longa não consegue sustentar o interesse ao longo de sua duração.

Para mim, é uma obra que fica muito aquém do que esperava de um diretor que já demonstrou tanta capacidade de contar histórias. E talvez essa seja a maior frustração: Terra do Meu Pai não é decepcionante por falta de potencial, mas justamente porque deixa a sensação constante de que poderia ter sido muito mais.

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Marina Bueno
Sobre o autor Marina Bueno

Apaixonada por cultura pop, teatro e musicais. Fã de Wicked, da Supergirl e de histórias inspiradoras, encontrei nos palcos e nas telas minha maior fonte de entretenimento. Corinthiana de coração, valorizo a emoção das grandes apresentações, seja em um espetáculo musical ou em uma partida de futebol.

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