Pimenta Nerd

A sua dose certa de Nerdice

Critica: Rose (2026)

Festival do Rio Texto: Lucas Valença Sandra Hüller domina o silêncio em mais um grande trabalho de sua carreira Existem atuações que dependem de grandes discursos para conquistar o espectador. Outras fazem justamente o contrário: encontram força no silêncio, nos...

Sumário

Festival do Rio

Texto: Lucas Valença

Sandra Hüller domina o silêncio em mais um grande trabalho de sua carreira

Existem atuações que dependem de grandes discursos para conquistar o espectador. Outras fazem justamente o contrário: encontram força no silêncio, nos olhares e nos pequenos movimentos. Rose pertence à segunda categoria e coloca Sandra Hüller no centro de uma narrativa em que quase tudo é dito através de expressões, gestos e silêncios.

Ambientado em plena Guerra dos Trinta Anos, o filme acompanha um soldado que chega a um vilarejo protestante alemão afirmando ser o herdeiro de uma fazenda abandonada. Mas existe um segredo por trás dessa identidade: trata-se de uma mulher misteriosa que se passa por homem para conseguir viver com uma liberdade que a sociedade daquele período não permitia às mulheres.

Dirigido pelo austríaco Markus Schleinzer, Rose estreou na competição do Festival de Berlim 2026 e rendeu a Sandra Hüller o Urso de Prata de Melhor Atuação Principal. E basta acompanhar alguns minutos do longa para entender por que sua presença é tão importante para a construção da história.

Publicidade

Um filme que parece ser apenas conceito

Preto e branco, poucas falas e uma ambientação de época

De início, Rose pode parecer um daqueles filmes construídos principalmente em torno de seu próprio conceito.

Temos uma ambientação histórica, uma fotografia completamente em preto e branco e pouquíssimas falas. É uma escolha estética bastante específica e que poderia facilmente transformar o longa em uma experiência excessivamente distante ou contemplativa.

Mas o filme encontra seu ritmo justamente ao compreender que não precisa explicar tudo.

A história começa de maneira bastante contida e vai ganhando corpo conforme novos personagens entram em cena. Cada nova presença torna a situação da protagonista mais complicada e aumenta a possibilidade de que sua verdadeira identidade seja descoberta.

E, aos poucos, aquilo que poderia ser apenas um exercício formal se transforma em um suspense silencioso.

Até onde Rose conseguirá sustentar a farsa?

Uma tensão construída sem precisar exagerar

Uma das coisas mais interessantes do filme é como ele consegue criar tensão sem recorrer constantemente a grandes acontecimentos.

O espectador sabe que existe um segredo que pode destruir toda a vida da protagonista. E, conforme novas pessoas passam a fazer parte daquele ambiente, a sensação de perigo aumenta.

Começamos então a acompanhar não apenas o que Rose está fazendo, mas também tentando imaginar por quanto tempo ela conseguirá sustentar aquela identidade.

E existe algo curioso nessa experiência: você acaba torcendo para que ela não seja descoberta.

Mesmo quando a narrativa permanece aparentemente tranquila, existe uma tensão constante por baixo da superfície. Um olhar pode significar alguma coisa. Uma conversa pode representar um risco. A entrada de uma nova pessoa naquele espaço pode mudar completamente o equilíbrio da situação.

O filme entende que, nesse caso, o perigo está justamente na possibilidade de alguém perceber aquilo que não deveria.

Sandra Hüller transforma o silêncio em atuação

Uma personagem construída através dos gestos

Se Rose funciona tão bem, grande parte disso acontece por causa de Sandra Hüller.

A atriz transforma o silêncio em uma ferramenta narrativa. Em muitos momentos, não precisamos que Rose diga o que está pensando porque conseguimos entender através de seu rosto, de sua postura ou da maneira como reage ao que acontece ao seu redor.

É uma atuação extremamente física.

Hüller parece estar constantemente calculando seus movimentos, observando as pessoas e tentando entender o ambiente em que está inserida. Existe uma tensão permanente em seu corpo, mesmo quando aparentemente nada está acontecendo.

E é justamente essa contenção que torna sua atuação tão poderosa.

O espectador passa a procurar respostas nos mínimos detalhes. Um olhar mais demorado, uma mudança de expressão ou uma reação aparentemente pequena pode revelar muito mais do que um diálogo inteiro.

O corpo como linguagem

O filme trabalha muito com a ideia de que os personagens podem ser lidos através de seus corpos.

Os olhares e as expressões corporais são, na maior parte do tempo, a principal forma de compreender aquilo que eles estão sentindo.

E Hüller faz disso o centro de sua interpretação.

Rose não precisa explicar constantemente sua situação. Seu próprio comportamento revela o esforço necessário para manter aquela farsa funcionando.

É uma personagem que está sempre observando e sendo observada.

Essa relação cria uma tensão muito particular porque o espectador também acaba entrando nesse jogo. Nós observamos Rose tentando entender os outros enquanto também tentamos entendê-la.

Uma câmera que observa de longe

O que acontece fora do centro da imagem também importa

A direção de Markus Schleinzer também merece destaque.

Em muitos momentos, a câmera permanece à distância, estabelecendo um ponto principal dentro do enquadramento enquanto outras situações acontecem ao fundo.

Essa escolha é bastante interessante porque obriga o espectador a prestar atenção não apenas no que está diretamente diante de seus olhos.

Existe uma composição cuidadosa dos espaços, e frequentemente alguma coisa pode estar acontecendo no fundo enquanto acompanhamos outra ação em primeiro plano.

Isso reforça a sensação de que Rose nunca está completamente sozinha.

Mesmo quando não existe uma ameaça evidente, sempre existe a possibilidade de alguma coisa acontecer ao redor dela.

A câmera não precisa correr atrás dos acontecimentos. Ela simplesmente observa, permitindo que o espectador descubra os detalhes por conta própria.

O silêncio também conta uma história

O desenho de som aumenta a tensão

Se o filme utiliza poucas falas, isso não significa que seja silencioso.

O desenho de som tem um papel fundamental na construção da atmosfera.

Os ruídos da natureza, dos ambientes e das próprias movimentações dos personagens ajudam a preencher os espaços deixados pelo diálogo. O som passa a ser uma extensão da narrativa e contribui diretamente para a tensão.

Em vez de utilizar música ou diálogos constantemente para dizer ao espectador como ele deve se sentir, Rose permite que o próprio ambiente faça esse trabalho.

Um ruído pode chamar atenção. Um silêncio prolongado pode causar desconforto. Um movimento ao fundo pode fazer com que você imediatamente fique alerta.

É uma construção bastante delicada, mas extremamente eficiente.

Uma história sobre liberdade e sobrevivência

O papel da mulher no século XVII

Por trás de toda a tensão criada pela identidade de Rose, existe também uma discussão bastante importante sobre a posição da mulher naquela sociedade.

Para viver com um nível de liberdade que lhe seria negado simplesmente por ser mulher, a protagonista precisa assumir uma identidade masculina.

Isso diz muito sobre o mundo em que ela está inserida.

A questão não é apenas sobre esconder quem você é. É sobre precisar deixar de ser reconhecida como mulher para ter acesso a possibilidades básicas de autonomia.

O filme não precisa transformar essa discussão em grandes discursos para que ela fique evidente. A própria existência da protagonista naquela situação já funciona como uma reflexão sobre as limitações impostas às mulheres.

E, mesmo sendo uma história ambientada no século XVII, essa discussão não parece distante.

Um filme de época que conversa com o presente

Quando o passado ainda parece familiar

Talvez um dos pontos mais interessantes de Rose seja justamente sua capacidade de falar sobre o passado sem parecer preso a ele.

A história se passa séculos atrás, mas as questões envolvendo liberdade, identidade, expectativas sociais e o papel da mulher continuam encontrando ecos no presente.

O filme não precisa transformar sua narrativa em uma alegoria óbvia. Basta apresentar as circunstâncias em que Rose precisa viver para que o espectador faça suas próprias conexões.

E isso torna a obra ainda mais interessante.

Ao acompanhar uma mulher que precisa esconder sua verdadeira identidade para conquistar uma liberdade que deveria ser natural, o filme mostra como determinadas estruturas sociais podem limitar indivíduos de maneiras profundas.

Conclusão

Rose é um filme que encontra sua força justamente na contenção.

Markus Schleinzer constrói uma narrativa de época minimalista, em preto e branco e com poucos diálogos, mas consegue transformar essa aparente simplicidade em uma experiência de tensão constante.

A câmera distante, os enquadramentos que permitem que acontecimentos ocorram ao fundo, o desenho de som e os ruídos dos ambientes trabalham juntos para criar uma atmosfera em que qualquer pequeno detalhe pode ganhar importância.

Mas é Sandra Hüller quem sustenta o filme.

Sua atuação transforma olhares, expressões e movimentos em uma verdadeira linguagem. Ela faz de Rose uma personagem que podemos compreender mesmo quando permanece em silêncio, e é justamente essa contenção que torna sua presença tão marcante.

O resultado é uma reflexão sobre liberdade e sobre o papel da mulher no século XVII que, apesar da distância histórica, consegue dialogar diretamente com questões do presente.

Rose mostra que nem sempre é preciso falar muito para dizer algo importante. Às vezes, basta um olhar.

Compartilhe em suas redes sociais

Marina Bueno
Sobre o autor Marina Bueno

Apaixonada por cultura pop, teatro e musicais. Fã de Wicked, da Supergirl e de histórias inspiradoras, encontrei nos palcos e nas telas minha maior fonte de entretenimento. Corinthiana de coração, valorizo a emoção das grandes apresentações, seja em um espetáculo musical ou em uma partida de futebol.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pimenta Nerd Recomenda