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Crítica: Papel Coadjuvante (2026)

Até onde vai o seu ego? Entre os filmes exibidos durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está Papel Coadjuvante, segundo longa-metragem da roteirista e diretora Ana Urushadze, que nos leva aos bastidores da vida de um...

Sumário

Até onde vai o seu ego?

Entre os filmes exibidos durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está Papel Coadjuvante, segundo longa-metragem da roteirista e diretora Ana Urushadze, que nos leva aos bastidores da vida de um ator georgiano em decadência. Com uma atmosfera melancólica e situações tragicômicas, o filme apresenta um personagem que precisa lidar com a perda de seu antigo prestígio e com a possibilidade de que talvez não seja mais o protagonista que sempre acreditou ser.

Mas até onde vai o ego de alguém que passou a vida inteira sendo admirado? E o que acontece quando essa pessoa precisa aceitar que o mundo já não a enxerga da mesma maneira?

Sinopse

Um famoso ator aposentado do cinema georgiano, acostumado a interpretar protagonistas heroicos, inicia uma jornada catártica após participar de um teste com uma jovem diretora, que lhe oferece um papel coadjuvante como um personagem excêntrico e antipático em seu filme de estreia.

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Uma atmosfera decadente que nos transporta para Tbilisi

Uma das coisas que mais dá para admirar em Papel Coadjuvante é, sem dúvidas, sua atmosfera. Ana Urushadze consegue transportar o espectador para uma cidade decadente, construindo um retrato melancólico de Tbilisi e de uma vida marcada pela tristeza, pela solidão e pela sensação de que as coisas já não são como costumavam ser.

Existe algo de muito particular na maneira como a diretora apresenta esse universo. A cidade não funciona apenas como cenário para a história de Niaz, mas também como uma extensão de seu estado emocional. O ambiente parece carregar o mesmo desgaste do protagonista, reforçando a sensação de que estamos acompanhando alguém que já não consegue encontrar seu lugar no mundo.

Essa atmosfera ajuda a estabelecer o tom da narrativa, que transita entre o drama e situações tragicômicas. O filme consegue encontrar humor em momentos desconfortáveis sem deixar de lado a melancolia que acompanha o personagem.

É uma combinação interessante, principalmente porque a diretora não precisa explicar constantemente o que Niaz está sentindo. A construção do ambiente, os diálogos e as situações em que ele se envolve ajudam a revelar suas frustrações e a maneira como sua personalidade interfere em suas relações.

Para um segundo longa-metragem, Ana Urushadze demonstra uma maturidade considerável na construção desse universo. Existe uma intenção muito clara na maneira como ela conduz a história e cria situações que, mesmo quando provocam risadas, também deixam uma sensação de desconforto.

Niaz: um homem que não consegue abandonar o protagonismo

Interpretado por Dato Bakhtadze, Niaz é um dos personagens mais interessantes do cinema neste ano. Trata-se de alguém que passou boa parte da vida ocupando o centro das atenções e interpretando heróis, mas que agora precisa lidar com a realidade de receber papéis menores.

Essa mudança parece muito mais difícil do que simplesmente aceitar uma nova oportunidade profissional. Para Niaz, a perda de protagonismo representa também uma ameaça à imagem que construiu de si mesmo. Afinal, quem ele é quando deixa de ser a pessoa mais importante da história?

O personagem vive em conflito com o mundo ao seu redor e, principalmente, consigo mesmo. Em diversos momentos, é possível compreender suas frustrações e até sentir certa empatia por ele. Ao mesmo tempo, suas atitudes provocam repulsa, especialmente quando percebemos como seu ego interfere na maneira como trata as outras pessoas.

E é justamente aí que a atuação de Dato Bakhtadze se destaca.

Uma atuação que provoca sentimentos contraditórios

Confesso que tive sentimentos bastante conflitantes em relação à interpretação de Dato Bakhtadze. Em alguns momentos, adorava o que ele estava fazendo; em outros, sentia uma repulsa enorme pelo personagem. E acredito que essa seja uma das maiores qualidades de sua atuação.

O ator consegue transmitir a raiva e a frustração de alguém que já foi uma grande figura do cinema georgiano e agora precisa aceitar trabalhos menores. Mas essa dor não transforma Niaz automaticamente em uma pessoa agradável ou fácil de compreender.

Pelo contrário, quanto mais acompanhamos sua trajetória, mais percebemos como ele próprio contribuiu para chegar àquela situação. Existe uma dificuldade evidente em se relacionar com outras pessoas, em permanecer em um mesmo lugar e em aceitar que nem tudo precisa girar ao seu redor.

Niaz é o tipo de personagem que conseguimos entender sem necessariamente concordar com ele. Sua decadência desperta alguma compaixão, mas suas atitudes também revelam por que tantas relações parecem terminar em conflito.

Essa ambiguidade torna o protagonista muito mais interessante do que um simples retrato de um artista esquecido. Ele não é apenas uma vítima de um sistema que deixou de valorizá-lo: é também alguém que precisa confrontar suas próprias limitações.

Os diálogos e a força das situações tragicômicas

Outro ponto forte de Papel Coadjuvante está em seus diálogos. Ana Urushadze utiliza as conversas entre os personagens para levantar questões sobre o ego, o reconhecimento e a necessidade de ser importante aos olhos dos outros.

As falas não servem apenas para fazer a história avançar. Muitas vezes, elas criam situações de tensão nas quais conseguimos perceber as inseguranças dos personagens e os conflitos que tentam esconder.

O resultado são momentos tragicômicos que funcionam justamente porque o humor surge de situações desconfortáveis. É possível rir de determinadas atitudes de Niaz e, logo em seguida, perceber a tristeza que existe por trás delas.

Essa abordagem também ajuda a mostrar como o protagonista tem dificuldade em lidar com pessoas que não compartilham de sua visão de mundo. Ele parece preso a uma época em que era admirado e respeitado, sem conseguir compreender completamente que as relações profissionais e pessoais mudaram.

A diretora demonstra habilidade ao construir essas situações, permitindo que os diálogos revelem as contradições de Niaz sem transformar o filme em uma sucessão de explicações sobre sua personalidade.

É uma escrita que exige atenção, principalmente porque boa parte do conflito está nas pequenas interações e na maneira como os personagens reagem uns aos outros.

Quem é realmente importante em um set de filmagem?

A proposta do filme também abre espaço para uma crítica interessante à indústria cinematográfica e à hierarquia existente nos sets de filmagem.

O próprio título, Papel Coadjuvante, dialoga diretamente com a situação de Niaz. Acostumado a interpretar protagonistas heroicos, ele precisa aceitar um personagem excêntrico e antipático em um filme dirigido por uma jovem cineasta. A mudança de posição não representa apenas uma alteração em sua carreira, mas também um confronto com a maneira como enxerga sua própria importância.

Afinal, quem é mais importante em um set? O ator que já foi uma estrela ou a diretora que está começando sua carreira? O protagonista que recebe toda a atenção ou os profissionais que contribuem para que uma produção exista?

O filme usa o conflito de Niaz para explorar essas questões e mostrar como a necessidade de reconhecimento pode transformar o ambiente profissional em um espaço de disputa.

A crítica não se limita à carreira do protagonista. Ela também se conecta à maneira como as pessoas constroem sua identidade a partir do olhar dos outros. Quando o reconhecimento desaparece, o que resta? E será que alguém consegue aceitar uma posição secundária depois de passar a vida inteira acreditando que nasceu para ocupar o centro do palco?

São questões que tornam Papel Coadjuvante muito mais interessante do que uma simples história sobre um ator em decadência.

Entretanto, existe um problema: o filme trabalha essas ideias de maneira bastante lenta. Ao longo de suas duas horas de duração, algumas situações parecem se prolongar mais do que o necessário, tornando a experiência cansativa em determinados momentos.

Ainda assim, mesmo com esse ritmo, a narrativa consegue manter a atenção do espectador. Existe uma curiosidade constante sobre o que Niaz fará em seguida e até onde sua incapacidade de aceitar a própria realidade poderá levá-lo.

Um final que não acompanha a força da jornada

Apesar de todas as qualidades, Papel Coadjuvante acaba tropeçando em seu desfecho.

Depois de construir cuidadosamente a personalidade de Niaz e desenvolver os conflitos relacionados ao seu ego, à sua carreira e à maneira como se relaciona com as pessoas, o filme apresenta um final que me pareceu pouco coerente com o restante da narrativa.

A resolução surge de maneira abrupta, como se uma ideia tivesse sido acrescentada nos momentos finais sem receber o desenvolvimento necessário ao longo da história. O resultado é um encerramento que não parece acompanhar a trajetória que estávamos observando até então.

É uma pena, porque a construção do personagem é justamente um dos maiores méritos do longa. Depois de acompanhar tantas contradições e perceber as consequências das atitudes de Niaz, fica a sensação de que o desfecho poderia ser mais bem trabalhado e conectado ao que o filme vinha desenvolvendo.

Não é um problema capaz de apagar todas as qualidades da produção, mas é algo que pesa na experiência. Quando uma história investe tanto tempo na construção de seu protagonista, esperamos que a conclusão consiga dar um sentido mais consistente ao caminho percorrido.

Conclusão: uma das grandes surpresas do ano

Papel Coadjuvante é uma das melhores surpresas da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e, para mim, um dos grandes filmes do ano.

Ana Urushadze constrói uma atmosfera marcante, utiliza diálogos para provocar reflexões e apresenta um protagonista que desperta sentimentos contraditórios. Dato Bakhtadze entrega uma atuação que consegue transmitir tanto a frustração de um ator em decadência quanto as características desagradáveis que contribuíram para seu isolamento.

O filme também se destaca pelas críticas à necessidade de reconhecimento e às hierarquias da indústria cinematográfica. A partir da trajetória de Niaz, somos convidados a pensar sobre o ego e sobre a dificuldade de aceitar que, em determinadas situações, talvez não sejamos tão importantes quanto imaginamos.

É verdade que o ritmo poderia ser mais enxuto e que o final não alcança a mesma força do restante da narrativa. Ainda assim, essas limitações não impedem que o longa construa uma experiência cinematográfica bastante particular.

No fim, Papel Coadjuvante deixa uma pergunta incômoda: será que o nosso maior problema é perder o protagonismo ou perceber que nunca fomos tão indispensáveis quanto acreditávamos?

Uma obra tragicômica, melancólica e provocadora que merece ser descoberta.

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Marina Bueno
Sobre o autor Marina Bueno

Apaixonada por cultura pop, teatro e musicais. Fã de Wicked, da Supergirl e de histórias inspiradoras, encontrei nos palcos e nas telas minha maior fonte de entretenimento. Corinthiana de coração, valorizo a emoção das grandes apresentações, seja em um espetáculo musical ou em uma partida de futebol.

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