Uma investigação tensa sobre a paternidade
Entre os filmes exibidos durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, temos O Ser Querido, novo longa de Rodrigo Sorogoyen, que explora a fragilidade e as tensões de um relacionamento entre pai e filha. Com uma narrativa que mistura conflitos familiares, ego artístico e feridas que nunca cicatrizaram, o filme constrói uma experiência desconfortável e bastante curiosa sobre as relações humanas.
Sinopse
O aclamado cineasta Esteban Martínez é uma lenda tanto por seus filmes quanto por um passado de violência e excessos. Em seu novo projeto, ele oferece um papel à filha, Emilia, sob o pretexto de tentar salvar sua carreira estagnada como atriz. A convivência no set os reaproxima após anos de afastamento, mas inevitavelmente reabre velhas feridas que nunca cicatrizaram.
Um filme sobre artistas que não sabem separar a vida pessoal da profissional
O Ser Querido foi um dos filmes exibidos em Cannes e que também estiveram presentes na Mostra de São Paulo. A produção apresenta um tipo de narrativa que talvez não seja tão interessante para o público geral: histórias sobre artistas considerados geniais, mas que, na vida pessoal, estão longe de serem boas pessoas.
É uma temática que pode parecer familiar, especialmente quando pensamos em quantas produções já exploraram a relação entre a genialidade artística e os comportamentos problemáticos de seus criadores. Entretanto, Rodrigo Sorogoyen encontra uma maneira bastante particular de trabalhar esse assunto, utilizando a relação entre Esteban e Emilia como ponto central de uma investigação sobre paternidade, ressentimento e responsabilidade.
Neste ano, tivemos também Valor Sentimental, de Joachim Trier, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, que apresenta uma temática semelhante ao discutir como artistas podem colocar suas relações pessoais em segundo plano em nome de suas ambições profissionais. Diria que os dois filmes possuem propostas e trabalhos de qualidade bastante próximos, ainda que sigam caminhos diferentes.
Enquanto Joachim Trier aposta em uma abordagem mais sentimental e emocional, Sorogoyen constrói uma experiência muito mais tensa. Aqui, a convivência entre pai e filha está longe de ser confortável, e cada encontro parece carregar o peso de tudo aquilo que os personagens nunca conseguiram resolver.
Javier Bardem entrega um personagem desprezível
Um dos grandes responsáveis pela tensão de O Ser Querido é Esteban Martínez, interpretado por Javier Bardem. O personagem é um homem extremamente estressado, difícil de lidar e que parece transformar completamente o ambiente por onde passa.
É impressionante como sua presença altera a energia de cada cena. Quando Esteban chega a algum lugar, parece que toda a tranquilidade desaparece. Existe uma tensão constante em suas interações, como se qualquer conversa pudesse se transformar em mais um conflito.
Bardem entrega um dos personagens mais desprezíveis do ano, justamente porque consegue construir alguém que incomoda o espectador sem precisar recorrer a grandes exageros. Esteban é o tipo de pessoa que parece sugar toda a energia de quem está ao seu redor, e o ator entende perfeitamente como transmitir esse comportamento.
Talvez seja uma das interpretações mais interessantes de sua carreira recente, especialmente pela maneira como o filme trabalha a relação entre o personagem e sua própria imagem pública. Afinal, estamos acompanhando um cineasta reconhecido por sua genialidade, mas que, fora das câmeras, demonstra uma personalidade muito mais complicada.
É justamente essa contradição que torna Esteban tão interessante: como alguém capaz de criar obras admiradas por tantas pessoas pode ser tão destrutivo em suas relações pessoais?
Uma relação entre pai e filha marcada por feridas antigas
Se Javier Bardem é um dos grandes destaques, Victoria Luengo também merece atenção como Emilia. A atriz consegue construir uma personagem que carrega anos de afastamento e ressentimento, mas que ainda precisa lidar com a presença de um pai que continua exercendo influência sobre sua vida.
A dinâmica entre os dois é um dos pontos mais fortes do longa. Existe uma dificuldade de comunicação que ultrapassa os diálogos, como se cada conversa fosse acompanhada por tudo aquilo que aconteceu antes e que nenhum dos dois consegue deixar para trás.
Uma das cenas mais interessantes do ano é justamente o encontro entre Esteban e Emilia. A tensão construída pelos atores transforma um momento aparentemente simples em algo extremamente desconfortável. É possível perceber o peso daquela relação em cada olhar, pausa e tentativa de aproximação.
Sorogoyen demonstra bastante habilidade ao trabalhar essa dinâmica. O filme não precisa explicar constantemente o que aconteceu entre os personagens para que o público compreenda que existe uma história dolorosa por trás daquela convivência. Aos poucos, vamos percebendo que a tentativa de reaproximação também pode ser uma nova oportunidade para que velhas feridas sejam abertas.
Um elenco que entende o jogo do filme dentro do filme
Além de Bardem e Victoria Luengo, o elenco conta com nomes como Melina Matthews, Via Malena, Mourad Quarni e Pepa Garcia, que contribuem para a construção desse universo.
Um dos aspectos mais curiosos da produção é justamente a maneira como trabalha a ideia de um filme dentro de outro filme. Os personagens não estão apenas interpretando pessoas em uma história: eles também precisam lidar com situações que acontecem dentro da própria produção cinematográfica.
Essa estrutura cria uma camada interessante para as atuações, pois existe uma espécie de jogo entre a realidade dos personagens e aquilo que está sendo construído diante das câmeras. O resultado é uma experiência que brinca com a percepção do espectador e amplia as discussões sobre a relação entre arte e vida pessoal.
É um recurso que combina muito bem com a temática central, principalmente quando pensamos em Esteban e na maneira como ele utiliza o próprio trabalho para se aproximar da filha.

Uma conclusão que deixa perguntas no ar
Outro grande mérito de O Ser Querido está na maneira como sua narrativa vai escalonando os acontecimentos. O filme começa apresentando uma relação familiar complicada, mas, conforme avançamos, percebemos que existe muito mais acontecendo do que aquilo que é mostrado inicialmente.
A tensão cresce gradualmente, e Sorogoyen consegue conduzir o espectador até uma conclusão que deixa diversas perguntas na cabeça. Mesmo que exista uma interpretação aparentemente óbvia para aquilo que aconteceu, o longa permite que o público continue refletindo sobre os acontecimentos depois que os créditos sobem.
Essa ambiguidade funciona justamente porque a produção não entrega todas as respostas de maneira imediata. Existe uma sensação de desconforto que permanece, fazendo com que o espectador tente organizar as peças e compreender até que ponto conhece verdadeiramente aqueles personagens.
É uma escolha interessante, especialmente para um filme que fala tanto sobre relações humanas, memórias e a maneira como cada pessoa constrói sua própria versão dos acontecimentos.
Vale a pena assistir a O Ser Querido?
O Ser Querido é um dos filmes mais curiosos e interessantes do ano. Rodrigo Sorogoyen entrega um estudo bastante provocativo sobre pessoas, relações familiares e a dificuldade de separar nossas ambições profissionais das responsabilidades afetivas.
Javier Bardem constrói um personagem extremamente desagradável, enquanto Victoria Luengo consegue acompanhar essa intensidade e entregar uma Emilia marcada por conflitos que vão muito além de sua relação com o pai. Juntos, os dois sustentam uma narrativa que cresce em tensão e encontra sua força justamente nos momentos de confronto.
Pode não ser um filme que agrade a todos os públicos, especialmente por sua abordagem mais lenta e concentrada nos conflitos psicológicos dos personagens. Entretanto, para quem gosta de histórias que investigam a complexidade das relações humanas, é uma produção que merece atenção.
No fim, O Ser Querido deixa uma pergunta importante: até que ponto a genialidade de alguém pode justificar a maneira como essa pessoa trata aqueles que estão ao seu redor? E, principalmente, será que o reconhecimento profissional consegue compensar tudo aquilo que foi destruído na vida pessoal?
