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O aniversário de Saddam Hussein está chegando, e Lamia é a escolhida para levar um bolo pra escola em comemoração. Farinha, ovos e açúcar. É tudo que ela precisa pra fazer. E é tudo que ela não tem. Em 1991, o Iraque sofre com sanções comerciais de órgãos internacionais e de outros países; Saddam está comemorando mais um ano de vida e uma das guerras mais impactantes do Oriente Médio, a Guerra do Golfo. O país que já estava devastado e endividado, não tem mais o apoio político dos EUA; e está levando milhares de pessoas a viverem com escassez de alimentos básicos.

Lamia tem 9 anos e mora com sua avó, Bibi, em uma área afastada de Bagdá – uma casa de junco flutuante sob um rio. O único meio de chegar à escola é de barco. Crianças como ela navegam pelas águas desde cedo. Faltam dois dias para os 50 anos de Saddam Hussein; e seu professor vai sortear qual dos alunos levará suco, frutas frescas e um bolo para todos da sala comerem. Os alunos estão agitados e iniciam as aulas com o grito matinal: “ Nos sacrificamos por você, Saddam”. Lamia tenta ir ao banheiro para distrair o professor, um truque ensinado por Bibi. Como iria fazer um bolo suficiente pra uma sala inteira se uma maçã será seu único alimento durante todo o dia? 

A câmera para diversas vezes na menina – um rosto tensionado e sem esperanças. O professor deixa claro: aquele que não obedecer será denunciado às autoridades por ele. As orações que ela fez foram poucas? Seu melhor amigo, Saeed, terá que levar as frutas, e ela, o bolo. Acompanhe o trailer:

Partem Lamia e Bibi para Bagdá no dia seguinte, com Hindi, o galo de estimação e companheiro da menina. Ruas cheias de gente negociando todo tipo de objeto. Bibi troca um rádio e míseros trocados por um uniforme infantil escolar. Assim, Lamia ficará mais apresentável para uma “nova família”. Uma falha de comunicação entre as duas as separam e é o desenrolar da história do diretor Hasan Hadi, que vasculhou lembranças de 35 anos atrás, e colocou na caminhada da menina: o truque de tentar fugir do sorteio, a falta de comida e medicamentos, a precariedade de vidas que iniciavam e acabavam da mesma forma. Gente que aprendia a enganar e mentir assim como respirar; e que vendia, segundo ele, o que tinha para poder celebrar o dia do presidente em uma obrigação patriótica.

Como se Lamia e Saeed estivessem conduzindo a câmera, o filme mistura o cômico de situações absurdas e a crueza da natureza humana pelos olhos de crianças. Somos levados pelos dois por becos estreitos da cidade, uma confeitaria, uma delegacia, um hospital e um matadouro de aves atrás dos ingredientes do bolo. Lamia encara a missão com um fervoroso comprometimento. Com a receita de Bibi em mente: os ovos são para a fertilidade, a farinha é para a vida e o açúcar para uma vida doce.

Saeed é uma criança que não entende o porquê, mas sabe o que fazer em situações adversas, e Lamia encara a hostilidade de adultos que ignoram códigos morais quando a fome é a sina. Hasan presenteia a audiência com imagens das aldeias dos pântanos do Iraque, entre o Rio Tigre e Eufrates, morada dos povos mesopotâmicos há milhares de anos. Avó e neta remando à noite em companhia do sussurro do rio é uma das cenas mais lindas do filme. Bibi me emociona toda vez que aparece, uma força soprando a brutalidade do mundo. Hasan conta que tem um ditado no seu país: “toda vez que um galo canta, é porque ele viu um anjo ou um demônio”. Ouvimos Hindi várias vezes no filme. Talvez esse bolo tenha saído caro demais.

Distribuído pela Kajá Filmes e Sony Pictures Classics, estreia dia 4 de junho nos cinemas.

🌶️ 9/10

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