Um ditado antigo diz que “o hábito faz o monge”. Isto significa que nossas rotinas, ou experiências, nos definem, ou nos moldam, naquilo que fazemos, ou naquilo que esperamos. No campo do cinema, na perspectiva da audiência, quando criamos o hábito de assistirmos a filmes, de ir ao cinema, vamos construindo um entendimento, independentemente da teoria do cinema, de suas linguagens e de noções de montagem fílmica, sobre os meandros das amarras de um roteiro, dos caminhos e labirintos que conduzem a narrativa e a diegese, num processo de imersão no filme. Tudo isso, claro, quando falamos de cinema clássico, e de estruturas convencionais e padronizadas de roteiro, muitas vezes (ou quase sempre) balizadas na Jornada do Herói.

Este preâmbulo sinaliza que quando o espectador médio se depara com obras que fogem do clássico, que dialogam com um cinema surrealista, ou mesmo experimental, longe do comercial, é evidente que um desconforto se instala. Ficamos diante de algo indigerível, ou quase. Por mais que queiramos ligar as pontas, ou achar um chão para seguir aquele filme, nos deparamos com o intangível. Encontramos a falta de solo para pisar, a ausência de sentido, ou um vazio, a ser preenchido a partir do olhar de cada um.
“Backrooms” (EUA, 2026) é um exemplo recente. Mostra que mesmo Hollywood, e sua infinidade de blockbusters e filmes “fast-food”, de quando em quando bebe da água do surrealismo e entrega obras que beiram o precipício da falta de sentido absoluto. Deixa à imaginação da plateia, e ao inconsciente de cada um, a incumbência de dar norte ao caos imagético e narrativo.

Vencedor do Kikito de Melhor Filme do Festival de Gramado 2026, “Nosso Segredo” (Brasil, 2026, direção e roteiro Grace Passô) tem fortes elementos dessa subjetividade. É algo que desconforta olhos habituados a um cinema confortavelmente clássico.
Adaptado da peça teatral “Amores Surdos”, da mesma Grace Passô, “Nosso Segredo” tem como personagens uma família negra da periferia de Belo Horizonte, que lida com o luto e alguns silêncios que se instalaram naquela casa.
O filme trata de perdas, saudade, infância, negritude. Traz para a tela grande aspectos e características de famílias periféricas e negras, que poderiam ser de Belo Horizonte, São Paulo, Recife, ou de qualquer outro lugar do Brasil. Mescla elementos de realismo, poesia e o fantástico, constituindo-se em incomum e insólito; tratando de uma espécie de elefante na sala (ou de outros bichos esdrúxulos em cômodos de uma casa) do audiovisual brasileiro.

É algo tão evidente, e incômodo, quanto o racismo estrutural, a morte, a violência, a representação de uma estética específica. Tudo tá ali, na nossa cara, na cara da sociedade e das famílias. Mas que muitas vezes não queremos, ou fingimos não ver, quase que ignorando a presença grotesca e evidente de um bicho enorme na sala de estar.
O filme usa planos fechados, adentrando a intimidade dos personagens; paleta de cores serenas e opacas.
Com elementos do suspense, horror e drama, características as quais adota e logo descarta, deixa-nos no limbo da inapreensão daquilo que vimos.
“Nosso Segredo” revela um cinema feito a partir da vivência de um Brasil que efervesce nos subúrbios e favelas das grandes cidades. E composto também de um caráter onírico e abstrato que compõe o ser indivíduo negro nesses lugares.
Nota 7
