Pimenta Nerd

A sua dose certa de Nerdice

Crítica – Narciso

Narciso viu alguém na água e se apaixonou. Era a criatura mais fascinante que havia visto. Ficou transtornado porque não era adorado por ela. E definhou até a morte sem saber que contemplava seu próprio reflexo. De retratos de arte...

Sumário

Narciso viu alguém na água e se apaixonou. Era a criatura mais fascinante que havia visto. Ficou transtornado porque não era adorado por ela. E definhou até a morte sem saber que contemplava seu próprio reflexo. De retratos de arte à figura constante da psicanálise, ele se tornou a personificação da exaltação excessiva do próprio eu. Mas, aqui, uso uma fala da psicanalista Beatriz Kuhn, em uma participação no programa “Sem Censura” da TV Brasil; que foge dessa simbologia para apresentar um outro Narciso. “Narciso ia todas as tardes encontrar com o lago, não porque ele era vaidoso, mas porque ele queria saber quem ele [próprio] era”.

Narciso do cineasta Jeferson De vive em um lar temporário de um casal de irmãos, Joaquim e Carmem; interpretados, carinhosamente, por Ju Colombo e Bukassa Kabengele. Acaba de ser devolvido pelos pais adotivos brancos. O resultado dessa rejeição é o silêncio. O malquerer não cabe em palavras. Narciso não grita, não chora. Por isso, o personagem não tem diálogos iniciais. Um dia,  ganha uma bola de basquete de um amigo. Se ele acertar três vezes a cesta, algo mágico vai acontecer e ele poderá realizar desejos. Mesmo cético, ele acerta. E um gênio aparece – interpretado por Seu Jorge com uma versão afro-abrasileirada do mitológico gênio da lâmpada –  é negro, veste roupas verdes e comumente usadas por jogadores de basquete. A composição foi inspirada no orixá Oxóssi. Ele é símbolo de prosperidade, sua cor é verde e utiliza uma flecha para caçar. Acompanhe o trailer:

Narciso faz seu primeiro pedido. Uma família – mas não qualquer família – um pai e mãe brancos e ricos. “Se os ricos são brancos, eu também quero ser.” É a consciência “treinada” de um menino negro sobre como o mundo funciona. E que vê no espelho uma imagem que não lhe agrada. E é excluído de privilégios que são sempre atrelados a uma cor –  e que não é a dele. Ter uma família amorosa, ser escolhido e poder escolher. Mas ele ainda quer ser reconhecido pela família que o acolhe no lar temporário. Carmem, Joaquim e outras crianças, mesmo que não o sejam de forma tradicional, são seus primeiros afetos. 

Publicidade

Para os brancos, Narciso será visto como branco. Para os pretos, Narciso será visto como preto. Mas, se Narciso seu reflexo olhar, o encanto irá se acabar – diz o gênio.

créditos: divulgação

Com uma fotografia lindíssima em preto e branco da diretora Lílis Soares, as cenas seguintes jogam luz sobre o pedido de Narciso. Para ele, seu desejo é simples, a vida deveria ser assim. Acordar em uma casa confortável com pais que o amam. Porém, algumas situações vão lembrar o menino de sua antiga casa. A mãe dos desejos, ao pentear seu cabelo, pede um pente a Josefa, a empregada, que é negra. Ela traz dois e um deles é um pente garfo. Os pais brancos lhe prometem o mundo em troca de atenção. Ele ganha presentes, mas vive cercado por muros e só convive com os empregados.

Acredito que Jeferson De não queira promover um debate longo sobre racismo estrutural de forma documental. A história é curta e suas figuras centrais lidam, sim, com questões existenciais. Mas a parte lúdica quando são usadas as mitologias simplificam a complexidade delas. A interação entre o motorista, a funcionária e Narciso são esclarecedoras para a trama e é minha favorita. Indico a quem tenha interesse por identidade racial ou quem esteja ajudando alguém a construir ela. Narciso é a criança negra que, talvez, espere uma vida toda por uma família. Ele rejeita a si mesmo antes de ter a chance de descobrir o que a beleza lhe parece. O mito de Narciso é usado de maneira contrária como referência para contar a realidade de outros Narcisos [do filme e fora da tela] que acham feio tudo que é espelho. Mas, quando Josefa lhe presenteia um espelho, e diz que ele deve usar quando quiser se lembrar quem é; vem na minha cabeça a versão da Beatriz Kuhn. Quando ele vê seu reflexo, Narciso se reconhece e o mundo volta a ter todas as outras cores.

Buda Filmes e Elo Studios trazem o filme “Narciso” para os cinemas. Procure na sua cidade. Já está em cartaz.


Compartilhe em suas redes sociais

Flávia Piauí
Sobre o autor Flávia Piauí

A imaginação e a esperança me mantêm viva. E através de uma tela eu aprendi a sonhar. Mas nem tudo cabe em uma imagem. Às vezes faltam palavras, falta uma legenda. Instagram: fasuez

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pimenta Nerd Recomenda