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Crítica: Não Estamos Sonhando (2026)

O pole dance como forma de protesto Entre os filmes exibidos durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, temos Não Estamos Sonhando, uma produção que utiliza o pole dance como forma de expressão artística e resistência para...

Sumário

O pole dance como forma de protesto

Entre os filmes exibidos durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, temos Não Estamos Sonhando, uma produção que utiliza o pole dance como forma de expressão artística e resistência para retratar uma sociedade que frequentemente abandona aqueles que mais precisam de apoio. Com uma narrativa que aborda desigualdade social, dificuldades financeiras e a luta pela sobrevivência, o longa transforma o corpo em uma ferramenta de protesto e questiona as estruturas que determinam quem tem o direito de sonhar com um futuro melhor.

Sinopse

Ciro vive uma intensa rotina como estudante de medicina e professor de pole dance para seus amigos, estudantes de cursos da área da saúde. Com a universidade em crise e as bolsas de estudos atrasadas, ele e todo o grupo passam por dificuldades. Quando repentinamente precisa deixar a casa em que mora de favor, Ciro encontra abrigo no apartamento de Antônio, o DJ que mora no prédio ao lado.

Um Anora brasileiro sobre desigualdade e resistência

Não Estamos Sonhando é uma espécie de Anora brasileiro: um filme que utiliza a trajetória de seu protagonista para construir uma crítica à sociedade, à cultura do consumismo e às desigualdades que atravessam a vida daqueles que precisam lutar diariamente para sobreviver.

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Dirigido por Ulisses Arthur, o longa acompanha personagens que tentam encontrar seu lugar em um mundo que parece cada vez menos disposto a oferecer oportunidades. Ciro precisa conciliar os estudos, o trabalho e as dificuldades financeiras, enquanto tenta manter alguma estabilidade em meio a uma realidade que não facilita sua vida.

O filme encontra força justamente nessa contradição. Ao mesmo tempo que a sociedade exige que esses jovens estudem, trabalhem e construam um futuro, ela não oferece necessariamente as condições para que consigam fazer tudo isso. O atraso das bolsas de estudo, a instabilidade da moradia e as dificuldades enfrentadas pelos estudantes deixam evidente como a falta de apoio pode transformar um projeto de vida em uma luta constante pela sobrevivência.

É nesse contexto que o pole dance ganha importância. A prática não aparece apenas como uma atividade física ou uma forma de expressão artística, mas como parte essencial da identidade de Ciro e de seus amigos. O corpo passa a ocupar um espaço político, tornando-se uma maneira de expressar resistência diante de uma sociedade que frequentemente tenta limitar as possibilidades desses indivíduos.

O corpo como instrumento de resistência

Um dos maiores méritos de Não Estamos Sonhando está na maneira como Ulisses Arthur filma as cenas de pole dance. Existe uma força visual nessas sequências que demonstra um domínio impressionante da linguagem cinematográfica.

O diretor consegue apresentar as habilidades de Ciro sem reduzir a prática a um espetáculo visual. Pelo contrário, as cenas carregam um sentido que vai além da técnica: elas representam a luta, a persistência e a necessidade de encontrar algum espaço de liberdade em meio às dificuldades cotidianas.

Há algo de ancestral na maneira como essas sequências são construídas. O movimento dos corpos, a relação com o espaço e a intensidade da performance fazem com que o pole dance adquira uma dimensão quase ritualística. O resultado é uma experiência que transmite força e vulnerabilidade ao mesmo tempo.

Essa abordagem também se conecta à representação do corpo negro e do corpo jovem como formas de resistência. Em vez de tratar os protagonistas apenas como vítimas das circunstâncias, o filme encontra na expressão corporal uma maneira de afirmar sua existência e sua capacidade de criar algo próprio, mesmo quando as condições ao redor parecem trabalhar contra eles.

É justamente nessas cenas que a direção demonstra maior segurança. A câmera parece compreender a importância dos movimentos e consegue transformar a performance em parte fundamental do discurso do longa. O pole dance não interrompe a narrativa para oferecer um momento de beleza isolado: ele dialoga diretamente com aquilo que os personagens estão vivendo.

Pedro Leão e Luciano Pedro Jr. dão vida à história

A dupla formada por Pedro Leão e Luciano Pedro Jr., que interpretam Ciro e Antônio, respectivamente, é outro dos pontos positivos da produção.

Os dois atores entregam performances envolventes e ajudam a construir a relação entre os protagonistas de maneira natural. Existe uma proximidade interessante entre seus personagens, que encontram um no outro uma possibilidade de acolhimento em meio a uma rotina marcada pela instabilidade.

Quando Ciro precisa deixar a casa em que estava morando e encontra abrigo no apartamento de Antônio, a narrativa abre espaço para explorar essa convivência e a maneira como as relações pessoais podem se tornar fundamentais em momentos de dificuldade.

A conexão entre os protagonistas contribui para que o filme não se limite a apresentar uma coleção de problemas sociais. Por trás das questões econômicas e das críticas às estruturas de poder, existem pessoas tentando construir vínculos, encontrar alguma segurança e continuar seguindo em frente.

Pedro Leão e Luciano Pedro Jr. sustentam essa dimensão humana, tornando a trajetória dos personagens mais próxima do espectador. Mesmo quando a narrativa se dispersa, a presença dos dois ajuda a manter o interesse pela história.

Quando a universidade perde o ritmo

Apesar dos acertos, Não Estamos Sonhando apresenta alguns problemas quando desloca sua atenção para as cenas ambientadas na universidade.

É nesses momentos que parece haver uma perda de controle por parte do diretor. A narrativa, que encontra no pole dance uma linguagem visual poderosa e uma forma bastante particular de desenvolver sua crítica social, começa a perder o ritmo e, em determinados trechos, parece não saber exatamente como transmitir todas as ideias que deseja abordar.

A universidade é um espaço importante para compreender a realidade dos personagens. É ali que as dificuldades financeiras, os atrasos das bolsas e a precariedade das condições de estudo ganham uma dimensão coletiva. Entretanto, a maneira como essas questões são incorporadas à narrativa nem sempre funciona com a mesma precisão encontrada nas cenas de dança.

Em alguns momentos, o filme parece querer abraçar tantas questões que acaba perdendo parte de sua força. O ritmo se torna irregular e certas passagens deixam a impressão de que poderiam ser mais bem desenvolvidas.

Ainda assim, existe algo importante na maneira como o elenco ocupa esse espaço. Quando os personagens estão na universidade, a narrativa ganha uma dimensão coletiva extraordinária. Deixamos de acompanhar apenas a trajetória individual de Ciro e passamos a compreender melhor a experiência daqueles que compartilham suas dificuldades.

O elenco ajuda a dar peso a essas situações, revelando diferentes maneiras de enfrentar uma realidade que parece oferecer poucas garantias. São jovens que estudam, trabalham e tentam construir um futuro, mas que precisam lidar com obstáculos que não dependem apenas de seus esforços individuais.

Essa dimensão coletiva é essencial para a proposta do filme. Afinal, a precariedade não afeta somente uma pessoa, e a possibilidade de resistir também pode nascer da união entre aqueles que enfrentam problemas semelhantes.

Um filme que não tem medo de suas próprias ideias

O que torna Não Estamos Sonhando uma produção interessante é sua disposição para assumir a força dos temas que aborda. O longa tem orgulho de sua identidade e não parece interessado em suavizar sua crítica para tornar a experiência mais confortável.

Ulisses Arthur utiliza o contraste entre a sujeira da realidade social e a potência visual do pole dance para construir uma narrativa sobre sobrevivência e resistência. De um lado, temos a precariedade, a instabilidade financeira e a falta de apoio institucional. Do outro, encontramos corpos que continuam se movimentando, criando e encontrando maneiras de existir apesar das dificuldades.

Essa oposição é uma das ideias mais fortes do filme. A arte não resolve os problemas materiais dos protagonistas, mas oferece uma linguagem para expressar aquilo que muitas vezes não encontra espaço no discurso tradicional.

O longa também acerta ao não transformar seus personagens em figuras abstratas de uma discussão social. Suas dificuldades fazem parte de suas vidas, mas não são tudo o que eles representam. Há desejo, amizade, talento e vontade de continuar, mesmo quando o futuro parece incerto.

Embora o roteiro perca o ritmo em alguns momentos, a produção consegue transmitir a importância da união entre aquelas pessoas e a força que existe em seus corpos e experiências. É essa combinação de crítica social e expressão artística que faz o filme se destacar entre as produções da Mostra.

Conclusão: dançar também é resistir

Não Estamos Sonhando é um filme potente, que utiliza o pole dance para discutir desigualdade, consumismo e as dificuldades enfrentadas por jovens que tentam construir um futuro em uma sociedade que nem sempre oferece condições para isso.

A direção de Ulisses Arthur encontra suas melhores soluções nas cenas de dança, filmadas com intensidade e sensibilidade. Pedro Leão e Luciano Pedro Jr. também contribuem para a força da produção, construindo uma relação que mantém a história conectada à experiência humana de seus protagonistas.

Apesar dos problemas de ritmo nas sequências ambientadas na universidade, o longa consegue transmitir a força da coletividade e a importância de encontrar apoio em outras pessoas quando as estruturas ao redor falham.

No fim, Não Estamos Sonhando é uma produção que tem orgulho de si e bate no peito para retratar temas potentes. Um filme que mistura a sujeira da sociedade com a beleza do pole dance enquanto acompanha dois garotos tentando sobreviver em um mundo que parece exigir tudo deles, mas oferecer muito pouco em troca.

Porque, em uma realidade na qual até mesmo o direito de sonhar parece depender das condições financeiras de cada um, continuar dançando, criando e resistindo também pode ser uma forma de protesto.

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Marina Bueno
Sobre o autor Marina Bueno

Apaixonada por cultura pop, teatro e musicais. Fã de Wicked, da Supergirl e de histórias inspiradoras, encontrei nos palcos e nas telas minha maior fonte de entretenimento. Corinthiana de coração, valorizo a emoção das grandes apresentações, seja em um espetáculo musical ou em uma partida de futebol.

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