Sinopse
No dia do seu casamento, Rachel conhece a florista Luce e sente uma forte atração por ela. Ao se reencontrarem, a amizade entre as duas cresce tanto quanto as dúvidas de Rachel em relação ao marido. Ao saber que Luce é gay, sua vida vira do avesso.

Uma comédia romântica como qualquer outra
Minha primeira experiência com Imagine Eu & Você foi bem estranha. Anos atrás, vi apenas a cena final do filme passando na televisão, sem som. Eu não sabia qual era a obra, quem eram aquelas personagens ou o que tinha acontecido para elas chegarem até aquele momento. Agora, finalmente assistindo ao longa inteiro, reconheci aquela cena e descobri a história por trás dela.
Dirigido e escrito por Ol Parker, Imagine Eu & Você é uma comédia romântica simples e convencional, e isso não é um problema. Rachel (Piper Perabo) conhece Luce (Lena Headey) durante seu casamento com Heck (Matthew Goode), e uma atração começa a surgir entre as duas. A partir daí, a história trabalha com elementos extremamente conhecidos do gênero: amor à primeira vista, casamento, paixão pela pessoa errada e todas as complicações que vêm junto disso.
É um filme curto, que passa muito rápido e transmite uma enorme sensação de conforto. Encontro esse mesmo tipo de experiência em várias comédias românticas com Julia Roberts: personagens carismáticos, conflitos relativamente leves e uma cidade bonita servindo de cenário. É praticamente o filme perfeito para assistir em um dia de chuva.

Rachel, Luce e Heck
Apesar da simplicidade, gosto da maturidade com que o filme trata seu triângulo amoroso. Rachel e Luce entendem que existe uma terceira pessoa que pode ser machucada por aquela relação. O sentimento entre as duas não faz o roteiro simplesmente ignorar Heck ou transformá-lo em um obstáculo descartável.
Heck também não precisa ser um marido horrível para justificar o romance entre Rachel e Luce. Ele é tratado como uma pessoa com sentimentos e desejos próprios, inclusive sonhos que não consegue realizar dentro da vida que está levando. Isso torna o conflito mais interessante porque o roteiro não precisa escolher um vilão para determinar por quem devemos torcer.
Até Cooper (Darren Boyd), que passa boa parte do filme acreditando de maneira ridícula que pode ser uma espécie de “cura” para uma lésbica, nunca tem essa fantasia validada pelo roteiro. Aos poucos, ele também precisa confrontar a própria incapacidade de construir um relacionamento mais maduro. Ainda gostaria que ele tivesse levado um soco, mas o roteiro prefere ser misericordioso.

Londres, música e cinema de conforto
A fotografia de Ben Davis transforma Londres e seu clima frio em um lugar acolhedor, combinando perfeitamente com a sensação de conforto do filme. Tecnicamente funcional, a direção de Ol Parker não busca grandes invenções visuais, assim como a montagem não possui nada que tenha chamado especialmente minha atenção. Isso não é necessariamente algo ruim, já que tudo funciona dentro da proposta.
O ritmo funciona muito bem e faz os aproximadamente 90 minutos passarem rapidamente. A trilha sonora se destaca mais para mim, especialmente pela sensação quase mágica que cria durante os primeiros momentos doces e românticos entre Rachel e Luce. A música ajuda a transformar aquela aproximação em algo idealizado e combina perfeitamente com o romantismo assumido da obra.

O direito a “Happy Together”
Não acredito que a arte sozinha seja uma solução para a homofobia. Seria simplificar demais um problema muito maior. Mesmo assim, existe um poder importante em colocar alguém em contato com uma experiência diferente da sua. Esses dias, vi no Twitter o relato de um homem gay contando que sua mãe passou a acolhê-lo depois de assistir a um personagem gay sofrendo homofobia em uma novela. Não significa que uma novela vai acabar com o preconceito, mas mostra que essas histórias também podem alcançar quem está fora daquela realidade.
E é aí que começo a pensar em como tratamos filmes como Imagine Eu & Você. Por que uma comédia romântica com duas mulheres ainda parece precisar de um público específico? Pessoas LGBT cresceram assistindo a incontáveis romances heterossexuais sem que ninguém questionasse se aquelas histórias também eram para elas. Por que o contrário parece tão mais difícil?
Durante muito tempo, personagens LGBT tiveram sua existência na mídia frequentemente associada à tragédia, ao preconceito, à violência ou ao sexo. Essas histórias têm seu valor e devem continuar existindo. O problema aparece quando parece difícil permitir que esses mesmos personagens simplesmente vivam as fantasias românticas mais banais que o cinema sempre ofereceu aos personagens heterossexuais.
É justamente por isso que gosto de Imagine Eu & Você ser uma comédia romântica tão convencional. Existe algo significativo em permitir que duas mulheres recebam os mesmos clichês românticos, momentos bobos e sonhos que incontáveis casais heterossexuais receberam no cinema. Não deveria ser estranho imaginar um filme assim sendo consumido pelo mesmo público que assiste a qualquer outra comédia romântica
Felizmente, isso está mudando, mas ainda existe uma barreira que faz romances LGBT serem tratados como um nicho separado, enquanto uma comédia romântica heterossexual igualmente despretensiosa pode ser apenas uma comédia romântica. Personagens LGBT também merecem sonhar com um mundo em que podem parar o trânsito, gritar que amam alguém e se beijar ao som de “Happy Together”.
4/5 🌶
