O amor que atravessa guerras
Entre os filmes exibidos durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está Eu Raramente Acordo Sonhando, uma produção que apresenta um retrato cru sobre o amor, a identidade de gênero e a luta pela sobrevivência em meio à guerra na Ucrânia. Dirigido por Isabelle Stever, o longa aborda questões profundamente humanas e atuais, mostrando como manter a própria individualidade e preservar um relacionamento pode se tornar ainda mais difícil quando a vida é atravessada por um conflito armado.
Talvez esse seja um dos temas mais importantes da década: como amar, existir e compreender a própria identidade quando o mundo ao redor parece desmoronar? Ao unir a experiência de um casal queer às consequências da invasão russa, o filme constrói uma narrativa sensível, dolorosa e extremamente necessária.
Sinopse
O amor de Olya e Oleh, um jovem casal queer ucraniano, é posto à prova quando o processo de transição de gênero de um deles colide com a invasão em larga escala da Rússia. Enquanto a guerra se aproxima e desafia as fronteiras da masculinidade e da feminilidade, os dois lutam para preservar o vínculo entre si e sua individualidade. O que significa ser homem em um país que luta pela sua identidade e sobrevivência?
Um retrato da guerra que vai além do conflito
Relatar a realidade da Ucrânia após a invasão russa sem transformar o filme em uma narrativa excessivamente expositiva já seria um desafio. Abordar essa realidade enquanto se discute a experiência de pessoas LGBTQIAPN+ torna a proposta ainda mais complexa.
É justamente nesse ponto que Isabelle Stever encontra a força de Eu Raramente Acordo Sonhando. Em vez de tratar a guerra apenas como um acontecimento histórico ou político, a diretora nos coloca diante da experiência íntima de pessoas que precisam continuar vivendo enquanto enfrentam uma situação que ameaça sua segurança, seus planos e sua própria existência.
A produção alemã, filmada na Ucrânia, acompanha Olga, interpretada por Tânia Myronyshena, e Oleh, vivido por Markus Bright. A partir da trajetória dos dois, entendemos como a guerra modifica a maneira de enxergar o futuro e como até as decisões mais pessoais passam a ser influenciadas por circunstâncias que fogem completamente ao controle dos personagens.
O longa não precisa recorrer a grandes discursos para transmitir a dimensão do que está acontecendo. Muitas vezes, são as pequenas situações que revelam a gravidade da realidade: o medo diante de uma decisão, a insegurança sobre o que acontecerá no dia seguinte e a necessidade de abandonar coisas importantes para conseguir sobreviver.
É um olhar que torna a experiência especialmente envolvente, porque nos aproxima de pessoas que não podem simplesmente interromper suas vidas até que o conflito termine. Elas precisam tomar decisões, preservar seus vínculos e tentar manter alguma noção de identidade mesmo quando tudo ao redor parece ameaçar essas possibilidades.
Identidade de gênero e amor em tempos de guerra
Um dos aspectos mais interessantes do filme é a maneira como a questão LGBTQIAPN+ se conecta à realidade da Ucrânia em guerra. A narrativa não trata a identidade de gênero como um elemento separado dos acontecimentos políticos, mas como parte fundamental da experiência dos protagonistas.
O processo de transição de gênero e as questões relacionadas à masculinidade e à feminilidade ganham novos significados em um contexto no qual a própria identidade nacional está sendo colocada à prova. A pergunta sobre o que significa ser homem em um país que luta pela própria sobrevivência atravessa tanto a dimensão individual quanto a coletiva.
Essa conexão é uma das ideias mais fortes da obra. Afinal, a identidade não existe isolada do mundo: ela também é atravessada pelas expectativas sociais, pelas relações afetivas e pelas circunstâncias em que cada pessoa vive.
Ao acompanhar Olga e Oleh, o filme nos convida a refletir sobre como alguém pode preservar sua individualidade em meio a uma situação que exige escolhas difíceis. O que acontece com os desejos pessoais quando a sobrevivência passa a ser a prioridade? Como manter um relacionamento quando o futuro se torna incerto? E como continuar reconhecendo a si mesmo quando as condições externas parecem determinar quem você deve ser?
Essas questões dão profundidade à história e impedem que ela se limite a um relato convencional sobre a guerra. O conflito é parte central da narrativa, mas a experiência dos protagonistas também fala sobre liberdade, pertencimento e o direito de existir sem abrir mão de quem se é.
É nesse encontro entre o íntimo e o coletivo que Eu Raramente Acordo Sonhando se torna tão cativante.
O medo que atravessa a tela
A direção de Isabelle Stever também merece destaque pela maneira como constrói a tensão. O filme não nos poupa do medo e do pavor que acompanham os personagens, especialmente quando eles precisam enfrentar os guardas na fronteira.
Em uma das cenas mais marcantes, filmada em plano-sequência, acompanhamos a tensão desse momento sem que a narrativa ofereça alívio fácil. A escolha estética aproxima o espectador da situação vivida pelos protagonistas, fazendo com que a espera, a incerteza e o risco pareçam se prolongar diante dos nossos olhos.
É uma sequência em que o medo dos personagens se torna quase palpável. A sensação de não saber o que vai acontecer, de não ter certeza sobre como as pessoas ao redor irão reagir e de precisar seguir em frente apesar do pânico constrói uma experiência angustiante.
O mais interessante é perceber como a tensão muda à medida que a situação avança. O medo que sentimos enquanto espectadores não é exatamente igual ao dos protagonistas, porque estamos acompanhando a história de fora. Para eles, porém, cada decisão tem consequências concretas, e o alívio de conseguir atravessar aquela situação não significa que todos os problemas tenham acabado.
Essa diferença de perspectiva é essencial para a força da cena. O filme nos permite acompanhar a experiência de Olga e Oleh sem transformar seu sofrimento em algo distante ou meramente ilustrativo.
A guerra deixa de ser uma imagem que vemos nos noticiários e passa a ser uma realidade que interfere diretamente nos corpos, nos relacionamentos e nas decisões de pessoas que só querem encontrar uma maneira de continuar vivendo.

A força dos pequenos detalhes
Outro grande mérito de Eu Raramente Acordo Sonhando está na atenção aos pequenos detalhes. A diretora compreende que uma história sobre fugir de uma guerra não precisa ser construída apenas a partir de grandes acontecimentos para transmitir sua dimensão emocional.
A necessidade de abandonar coisas, abrir mão de planos e tomar decisões difíceis revela o peso de uma situação em que a liberdade de escolha se torna cada vez mais limitada. O que poderia parecer insignificante em uma vida comum ganha outra dimensão quando os personagens precisam decidir o que levar consigo e o que deixar para trás.
Essa abordagem torna o filme ainda mais humano. Em vez de transformar a fuga em uma sequência de acontecimentos grandiosos, a narrativa se preocupa com o custo emocional de cada escolha e com aquilo que os protagonistas precisam sacrificar para continuar juntos.
A fotografia também contribui para essa experiência, acompanhando o tom da história e ajudando a construir a atmosfera de insegurança que atravessa o longa. Junto ao roteiro, ela reforça a sensação de que a realidade dos personagens está sempre prestes a mudar.
É uma combinação de escolhas narrativas e visuais que demonstra cuidado com o tema. O filme não tenta transformar a dor em espetáculo: procura mostrar como ela se manifesta nas experiências cotidianas, nas relações e nos momentos em que as palavras parecem insuficientes para expressar o que está acontecendo.
Conclusão: um filme que permanece na memória
Eu Raramente Acordo Sonhando foi uma das grandes surpresas cinematográficas do ano para mim. Atual, sensível e doloroso, o longa de Isabelle Stever encontra uma maneira muito particular de abordar a guerra na Ucrânia a partir da experiência de um casal queer que luta para preservar seu relacionamento e sua individualidade.
A combinação entre o contexto político, as questões de identidade de gênero e a dimensão íntima da história torna a produção especialmente relevante. A direção consegue construir momentos de tensão genuína, enquanto a fotografia e o roteiro contribuem para um retrato que valoriza tanto os grandes acontecimentos quanto os pequenos detalhes da experiência humana.
Mais do que mostrar os efeitos de uma guerra, o filme nos faz pensar sobre o que significa continuar existindo quando a realidade ao redor ameaça tudo aquilo que conhecemos. O amor, nesse contexto, não aparece como uma solução mágica para os problemas, mas como um vínculo que os personagens tentam preservar apesar das dificuldades.
No fim, Eu Raramente Acordo Sonhando é uma obra que merece ser lembrada justamente por sua capacidade de conectar uma realidade política devastadora a sentimentos profundamente humanos. É um filme que provoca reflexão, desperta empatia e nos faz olhar para além das imagens que chegam até nós.
Uma das experiências mais surpreendentes da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e, sem dúvidas, um daqueles filmes que continuam na memória muito depois de a sessão terminar.
