Até onde o acolhimento vai?
Entre os filmes exibidos durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, temos Elefantes na Névoa, uma coprodução entre Nepal, Brasil, França, Alemanha e Noruega que apresenta uma história sobre pertencimento, afeto e sobrevivência. O longa mostra como, muitas vezes, o acolhimento pode ser apenas uma aparência e como o respeito e o apoio de uma comunidade podem desaparecer quando alguém deixa de oferecer aquilo que esperam dela.
Sinopse
Em uma vila nepalesa cercada por uma floresta onde elefantes selvagens ameaçam constantemente os moradores, Pirati lidera uma família de mulheres trans unidas por laços de afeto e sobrevivência. Respeitada dentro de sua comunidade Kinnar, ela vive secretamente um relacionamento proibido com o Mestre dos Tambores, sonhando em abandonar tudo para construir uma vida diferente. Mas, quando Apsara, a mais jovem do grupo, desaparece durante uma vigília noturna contra os elefantes, Pirati passa a ser acusada de negligenciar sua família em nome de seus desejos pessoais. Consumida pela culpa e pressionada pela hostilidade da vila e pela desconfiança dentro de casa, ela inicia uma busca que a forçará a escolher entre o amor e a responsabilidade, enquanto enfrenta os limites de pertencimento impostos àqueles que vivem à margem da sociedade.
Uma imersão na cultura nepalesa
Elefantes na Névoa é aquele tipo de filme que vai conquistando o espectador aos poucos. Um dos seus maiores méritos está na maneira como apresenta a cultura do Nepal e permite que, ao longo da narrativa, conheçamos melhor os costumes, as relações e as particularidades daquela comunidade.
Não é uma produção que entrega todas as informações imediatamente. Existe um processo de descoberta, no qual vamos compreendendo o funcionamento daquele universo e a posição que Pirati ocupa dentro dele. É justamente essa construção gradual que torna a experiência tão interessante.
O filme também consegue utilizar seu cenário para criar uma identidade muito própria. A vila, a floresta e a presença constante dos elefantes não funcionam apenas como elementos de ambientação, mas fazem parte da realidade dos personagens. Existe uma relação entre a comunidade e o ambiente ao seu redor que ajuda a compreender as dificuldades enfrentadas por aquelas mulheres.
É uma construção de mundo bastante rica, que faz com que o espectador se sinta cada vez mais inserido naquela realidade.
O acolhimento que depende daquilo que você pode oferecer
Um dos temas mais fortes de Elefantes na Névoa está na maneira como retrata o pertencimento e o apoio dentro de uma comunidade.
O longa apresenta uma reflexão bastante incômoda sobre como, muitas vezes, o acolhimento oferecido à comunidade LGBT pode estar condicionado ao valor que determinada pessoa representa para os outros. Enquanto alguém consegue cumprir uma função, oferecer algo ou atender às expectativas de seu grupo, existe respeito e apoio. Mas o que acontece quando essa pessoa decide seguir um caminho diferente?
É justamente essa contradição que acompanha Pirati. Apesar de ocupar uma posição respeitada dentro de sua comunidade, ela também precisa lidar com cobranças e julgamentos quando seus desejos pessoais entram em conflito com aquilo que esperam dela.
O filme questiona até que ponto esse acolhimento é realmente incondicional. Afinal, se o respeito desaparece quando alguém deixa de corresponder às expectativas dos outros, será que estamos falando de aceitação verdadeira?
Essa discussão é especialmente interessante porque não transforma os conflitos em algo simples. Pirati não está apenas tentando encontrar felicidade para si mesma, mas também precisa lidar com as responsabilidades que assumiu e com as pessoas que dependem dela.
Prupsha Thing Lama entrega uma das atuações mais potentes do ano
Um dos grandes destaques da produção é Prupsha Thing Lama, que interpreta Pirati e entrega uma das atuações mais potentes do ano.
O mais interessante em sua interpretação é a maneira como utiliza o olhar para transmitir aquilo que muitas vezes não precisa ser dito. Existe uma força muito particular na construção da personagem, uma mulher firme, que demonstra segurança diante de sua comunidade, mas que também carrega dúvidas, desejos e sentimentos que nem sempre consegue expressar.
Pirati está dividida entre o dever e o próprio coração. Ela deseja construir uma vida diferente, mas também sabe que existem pessoas que dependem dela. Conforme os acontecimentos avançam e o desespero pela ausência de Apsara aumenta, percebemos como suas certezas começam a se transformar.
É uma interpretação que cresce justamente nos pequenos gestos. Podemos acompanhar a personagem tentando manter sua postura, mesmo quando tudo ao seu redor parece estar desmoronando. E, aos poucos, aquela mulher que parecia ter controle sobre a própria vida começa a perceber a realidade que existe diante dela.
Prupsha Thing Lama consegue transmitir essa transformação com muita sensibilidade, fazendo de Pirati o grande coração emocional do filme.
Uma família construída pelo cuidado mútuo
Deepika Yadava e Jasmin Bishowokarma também merecem destaque ao interpretar as outras duas filhas de Pirati.
A interação entre as três é um dos aspectos mais interessantes da narrativa. Existe uma relação de cuidado e apoio mútuo que aparece mesmo quando não temos todas as informações sobre o passado ou sobre aquilo que aconteceu entre elas.
O filme não precisa explicar cada detalhe para que compreendamos a importância daquela família. Em diversos momentos, basta observar a maneira como uma está presente para a outra para perceber que existe um vínculo verdadeiro.
Essa dinâmica ajuda a reforçar uma das ideias centrais da produção: família não precisa ser definida exclusivamente pelos laços de sangue. Ela também pode ser construída por meio do afeto, da convivência e da escolha de permanecer ao lado de alguém.
É justamente por isso que os conflitos envolvendo Pirati e suas filhas funcionam tão bem. Existe carinho entre elas, mas também existem cobranças, desentendimentos e expectativas que tornam aquela relação muito mais humana.
Uma atuação que não acompanha o restante do elenco
Entretanto, nem todas as interpretações funcionam da mesma maneira. Aliz Ghimire, que interpreta Apsara, acaba sendo um dos pontos mais fracos do elenco.
Sua atuação não consegue transmitir a mesma naturalidade encontrada nas demais personagens. Em diversos momentos, a interpretação parece exagerada e pouco convincente, como se faltasse uma conexão mais genuína com aquilo que a personagem está vivendo.
Apsara acaba sendo apresentada de uma maneira que pode transmitir mais a imagem de uma criança mimada e irritante do que a complexidade de uma pessoa inserida naquele contexto. Isso prejudica um pouco o envolvimento emocional com a personagem, especialmente porque seu desaparecimento é um dos principais motores da narrativa.
É uma pena, pois o restante do elenco consegue construir relações muito interessantes, e essa diferença de intensidade acaba chamando a atenção.
Um ritmo lento que nem sempre funciona
Apesar de suas qualidades, Elefantes na Névoa também apresenta alguns problemas. O principal deles está no ritmo.
O longa aposta em uma narrativa bastante lenta, mas nem sempre consegue transformar essa escolha em tensão ou aprofundamento. Existem momentos em que a história parece se arrastar, especialmente porque o roteiro não consegue manter o mesmo nível de envolvimento durante toda a sua duração.
A busca por Apsara deveria funcionar como um elemento constante de tensão, mas a construção narrativa nem sempre consegue transmitir a urgência que a situação exige. Em determinados trechos, a experiência acaba se tornando cansativa, fazendo com que o espectador perca um pouco do interesse.
Por outro lado, quando o filme realmente encontra seu caminho, ele impressiona. O design de produção e a construção daquele universo são alguns dos melhores aspectos da obra. A maneira como os espaços, os costumes e a relação da comunidade com a natureza são apresentados demonstra um cuidado enorme.
Existe uma identidade visual muito forte, e a produção consegue criar um ambiente que permanece na memória mesmo depois que a história termina.

Um final que recompensa a jornada
Se o ritmo pode ser um obstáculo durante parte da experiência, a conclusão consegue recuperar boa parte da força do longa.
Elefantes na Névoa entrega um dos finais mais satisfatórios do ano, especialmente porque consegue reunir as discussões apresentadas ao longo da narrativa e dar um peso maior à trajetória de Pirati.
É uma conclusão que faz valer a pena acompanhar aquela jornada, mesmo com os problemas de ritmo encontrados anteriormente. O filme termina deixando uma impressão bastante forte, principalmente pela maneira como trabalha seus personagens e as contradições de uma comunidade que, ao mesmo tempo que oferece acolhimento, também impõe limites.
Vale a pena assistir a Elefantes na Névoa?
Elefantes na Névoa é um dos filmes mais fortes e impactantes do ano. Mesmo apresentando problemas de ritmo e algumas atuações que não funcionam tão bem, a produção consegue construir um universo extremamente rico e apresentar uma reflexão importante sobre pertencimento, acolhimento e as relações que estabelecemos com as pessoas ao nosso redor.
Prupsha Thing Lama entrega uma atuação memorável, enquanto o design de produção e a construção da cultura nepalesa tornam a experiência visualmente muito interessante. É um filme que pode exigir paciência do espectador, mas que recompensa essa dedicação com uma conclusão poderosa e uma das melhores construções de mundo do ano.
No fim, fica uma pergunta que ultrapassa a história de Pirati: até onde vai o acolhimento de uma comunidade quando alguém decide não viver de acordo com aquilo que esperam dela?
E talvez seja justamente nessa pergunta que esteja a maior força de Elefantes na Névoa.
