Existem filmes que erram por falta de ideia. Desejo em Manhattan erra pelo motivo oposto: tem ideia demais e paciência de menos.
O longa nos joga dentro da paranoia de Clay de forma abrupta, sem nos dar tempo de conhecê-lo. Quem é esse homem? O que ele perdeu? O que ele teme? Nada disso é construído — a angústia é apresentada como fato consumado, arquitetada pelo terapeuta, e o espectador é obrigado a aceitá-la de saída. O resultado é que o primeiro ato praticamente não existe: somos empurrados direto para o segundo, onde o conflito já está em curso. Encurtar a apresentação é uma escolha legítima, mas aqui ela não foi executada com cuidado, e o que sobra é confusão.
Sem essa base, as decisões de Clay soam arbitrárias. Ele se deixa tocar e conduzir por uma mulher que nunca viu na vida, aceita ir até a casa dela sem hesitação, e nada no filme sustenta esse comportamento. Sabemos que ele atravessa uma fase de estresse e desorientação — mas isso fica no campo do subjetivo, nunca vira cena, nunca vira consequência.
Os diálogos agravam o problema. Lula despeja informações estranhamente precisas sobre a vida de Clay e ele não surta, não questiona, não recua. Conversa como quem cumpre roteiro, não como quem está diante de algo impossível de explicar. E aqui mora a falha estrutural do projeto: esse registro simbólico, quase irreal, funciona num teatro alegórico de um ato — mas esticado para hora e meia de thriller psicológico, sem que o filme construa a realidade concreta em volta, ele apenas soa artificial. Adaptar não é transportar. É traduzir. E a tradução não aconteceu.
Porque quando o filme finalmente respira, ele é excelente. A cena do metrô, em que Clay se opõe a Lula e dispara que ela pode até conhecê-lo, mas não sabe absolutamente nada sobre ele nem sobre o que é ser um homem negro, é o melhor momento do longa — um monólogo afiado sobre brancos que se apropriam da cultura negra e se acham autorizados a decifrá-la. Ali existe fúria, existe verdade, existe cinema. É a prova de que a discussão sobre identidade, desejo e violência que o filme carrega tinha, sim, potencial absurdo.
O problema é que esse potencial chega embrulhado numa narrativa desnorteada, e a mensagem nunca é entregue por inteiro. Sobra a sensação de um filme que sabia exatamente o que queria dizer — e não descobriu como.
Veredito: merecia um roteiro à altura da própria ideia.
