A amizade entre um garoto e um tubarão
Entre os filmes exibidos durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Aprendendo a Respirar Debaixo d’Água talvez seja um dos filmes mais bonitos e emocionantes da temporada. Com uma história sobre amizade, luto e saúde mental, a produção encontra na relação entre uma criança e seu improvável companheiro uma maneira delicada de falar sobre sentimentos que nem sempre conseguimos expressar em palavras.
Sinopse
Leo tem oito anos e é um garoto curioso e esperto. Seu melhor amigo é um tubarão enorme metade escultura, metade mito que uma noite atravessou o telhado de sua casa, quando seu pai, Peter, deu forma ao que não conseguia dizer em voz alta.
O mundo de Leo é cheio de perguntas: por que os adultos agem de um jeito tão estranho? Para onde foi sua mãe, cinco anos atrás? E será que seu pai um dia vai parar de ser tão desligado ou, ao menos, lembrar de fazer as compras?
Entre grandes projetos artísticos malucos e longos silêncios, Peter mal conversa com o filho, então Leo se refugia em devaneios e conta seus segredos ao tubarão, que talvez esteja ouvindo, sem poder responder. Até que Anya invade suas vidas: uma au pair cheia de energia, com perguntas capazes de romper o silêncio e respostas mais sinceras do que qualquer uma que Leo já tenha ouvido antes.

O luto visto pelos olhos de uma criança
Uma das características mais interessantes de Aprendendo a Respirar Debaixo d’Água é a maneira como o filme aborda o luto a partir da perspectiva de uma criança. Interpretado por Ezra Carlile, Leo é um garoto que tenta compreender um mundo no qual os adultos parecem ter dificuldade para lidar com os próprios sentimentos.
A ausência da mãe, que desapareceu de sua vida cinco anos antes, é uma questão que permanece presente, mesmo quando ninguém parece disposto a conversar abertamente sobre ela. Seu pai, Peter, interpretado por Rory Kinnear, também enfrenta suas próprias dificuldades emocionais e acaba se fechando em um universo particular, deixando o filho sem as respostas de que precisa.
É nesse cenário que o tubarão se torna muito mais do que uma escultura extraordinária. Ele representa um espaço seguro para Leo, alguém a quem pode contar seus segredos sem medo de ser julgado. Mesmo sem receber respostas, o garoto encontra naquela presença imaginária uma forma de organizar seus pensamentos e lidar com aquilo que ainda não consegue compreender.
O filme mostra como a saúde mental e o entendimento das próprias emoções são assuntos que precisam ser abordados desde cedo. Crianças também sentem tristeza, confusão e saudade, mas nem sempre sabem como explicar o que estão vivendo. Por isso, a maneira como os adultos acolhem esses sentimentos pode fazer toda a diferença.
A produção consegue trabalhar essas questões com sensibilidade, sem tratar a infância como um período em que tudo precisa ser alegre ou simples. Leo é curioso, esperto e cheio de imaginação, mas também é uma criança que precisa de atenção, carinho e respostas sinceras.
Rebekah Fortune e o equilíbrio entre emoção e humor
Dirigido por Rebekah Fortune e escrito por Richard Brabin, Aprendendo a Respirar Debaixo d’Água procura construir uma experiência emocionalmente envolvente, combinando o drama familiar com situações mais leves e fantasiosas.
A direção demonstra carinho por seus personagens e aposta no sentimentalismo para aproximar o público da história. A amizade entre Leo e o tubarão, em especial, ajuda a construir um universo no qual a imaginação funciona como uma maneira de enfrentar sentimentos difíceis.
Entretanto, existe uma diferença entre aquilo que a direção parece querer transmitir e a maneira como o roteiro desenvolve algumas dessas ideias. Enquanto Rebekah Fortune investe no lado sentimental e na relação afetiva entre os personagens, Richard Brabin tenta manter uma abordagem descontraída, sem se levar tão a sério. Em determinados momentos, essa escolha acaba prejudicando a consistência emocional da narrativa.
O filme apresenta questões importantes, mas nem sempre consegue encontrar o equilíbrio ideal entre o humor, a fantasia e o drama. Algumas passagens poderiam receber um tratamento mais cuidadoso para que o impacto emocional fosse ainda maior.
Ainda assim, a direção encontra força naquilo que a história tem de mais simples: a necessidade humana de ser ouvido e a importância de encontrar alguém capaz de oferecer carinho quando tudo parece confuso.
Maria Bakalova e Ezra Carlile são o coração do filme
Se existe um grande destaque em Aprendendo a Respirar Debaixo d’Água, ele está na relação entre Anya, interpretada por Maria Bakalova, e Leo, vivido por Ezra Carlile.
A chegada da au pair transforma a dinâmica daquela casa. Diferentemente de Peter, que parece preso às próprias dificuldades, Anya demonstra disposição para conversar, fazer perguntas e se aproximar do garoto. Ela não chega com todas as respostas, mas oferece algo de que Leo precisa desesperadamente: atenção.
Maria Bakalova entrega uma atuação muito natural, construindo uma personagem cuja afetividade aparece tanto nas palavras quanto nos pequenos gestos. Existe um carinho genuíno na maneira como Anya olha para Leo, escuta suas perguntas e procura compreender o que ele está sentindo.
Essa conexão é o grande ponto alto da produção. A amizade entre os dois se desenvolve gradualmente, por meio do cuidado, da confiança e da capacidade de enxergar o outro para além das dificuldades que enfrenta.
Ezra Carlile também merece destaque. Sua interpretação ajuda a dar vida à curiosidade e à vulnerabilidade de Leo, tornando compreensível a maneira como o garoto tenta encontrar respostas para questões que nem mesmo os adultos ao seu redor conseguem resolver.
Juntos, os dois atores constroem uma relação que sustenta boa parte da emoção do filme. É por meio dessa amizade que a narrativa encontra seus momentos mais bonitos, mostrando como uma pessoa disposta a ouvir pode fazer diferença na vida de alguém.
Um filme com espírito de Sessão da Tarde
Aprendendo a Respirar Debaixo d’Água lembra outra produção que conquistou espaço no streaming: Criaturas Extraordinariamente Brilhantes. Embora sejam histórias diferentes, existe uma semelhança na maneira carinhosa como esses filmes procuram envolver o público e transformar relações improváveis em experiências emocionantes.
É aquele tipo de produção que parece ter sido feita para uma tarde tranquila, quando tudo o que precisamos é de uma história capaz de nos fazer esquecer um pouco dos problemas cotidianos. O filme tem um espírito de Sessão da Tarde, com personagens que conquistam nossa atenção aos poucos e uma mensagem que aposta na empatia e na importância dos vínculos afetivos.
Essa característica também ajuda a explicar por que a produção funciona tão bem quando se concentra na amizade entre Anya e Leo. Não é necessário que todas as situações sejam extraordinárias ou que cada conflito receba uma solução complexa. Às vezes, basta acompanhar duas pessoas aprendendo a confiar uma na outra.
É justamente nessa simplicidade que o longa encontra seu encanto. Mesmo quando o roteiro perde um pouco o rumo, a relação entre os personagens mantém a história emocionalmente envolvente.
Aprendendo a respirar, um sentimento de cada vez
No fim, Aprendendo a Respirar Debaixo d’Água é um filme que conquista desde as primeiras cenas e vai ganhando espaço no coração do público à medida que acompanhamos seus personagens. Apesar dos problemas de roteiro e de alguns desequilíbrios entre o drama e a comédia, a produção encontra força na amizade, no carinho e na importância de aprender a lidar com os próprios sentimentos.
A atuação de Maria Bakalova e a sensibilidade de Ezra Carlile são fundamentais para essa experiência, criando uma conexão que torna a história muito mais do que uma simples aventura sobre um garoto e um tubarão.
É uma produção que aquece o coração e nos lembra de que a vida também pode ser boa por meio das pequenas coisas: uma conversa sincera, alguém disposto a escutar ou uma amizade que surge quando menos esperamos.
Aprendendo a Respirar Debaixo d’Água é aquele filme para assistir em uma tarde tranquila, sair com um sorriso no rosto e lembrar que ninguém precisa entender tudo sozinho. Às vezes, tudo de que precisamos é de um pouco de carinho, paciência e alguém que nos ajude a respirar quando o mundo parece complicado demais.
