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Crítica: Como se Divorciar Durante a Guerra (2026)

Como se divorciar durante a Guerra

Quando a omissão é assustadora Entre os destaques da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está Como se Divorciar Durante a Guerra, um filme que coloca um divórcio no centro de uma das maiores crises políticas e humanitárias...

Sumário

Quando a omissão é assustadora

Entre os destaques da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está Como se Divorciar Durante a Guerra, um filme que coloca um divórcio no centro de uma das maiores crises políticas e humanitárias da Europa contemporânea: a guerra da Ucrânia. Com muito sarcasmo e humor ácido, a produção transforma uma situação cotidiana em um retrato das contradições humanas, mostrando como, mesmo quando o mundo está desmoronando, algumas pessoas insistem em preservar a própria normalidade.

Em tempos nos quais parece que o mundo está virando de cabeça para baixo, o filme funciona como um respiro mas com o ar ainda preso. É uma obra que encontra um equilíbrio interessante entre o humor e a tensão, sem deixar de lado o desconforto de acompanhar personagens que tentam continuar vivendo enquanto uma guerra acontece logo ali, do outro lado da fronteira.

Sinopse

Vilnius, 2022. Marija é uma executiva de sucesso que escolhe o pior momento possível para abrir o jogo com o marido, Vytas, sobre o divórcio: exatamente na véspera da invasão russa à Ucrânia. Agora, o casal precisa lidar com a separação em meio a uma crise de refugiados e às suas próprias crises de meia-idade.

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Diretor de cinema frustrado, Vytas volta a morar com os pais russófilos, cujas visões de mundo entram em conflito com as suas. Com o tempo, no entanto, ele encontra uma chance de reinvenção através de performances artísticas contra a guerra. Para Marija, o choque entre seus desejos e sua moralidade a deixa frustrada e solitária em sua nova vida. Nem mesmo a tentativa de ajudar os refugiados, ao hospedar uma família ucraniana em seu luxuoso apartamento, traz algum alívio. Talvez, no fim das contas, a vida ao lado do monótono, mas estável, Vytas não fosse tão ruim assim.

Um divórcio em meio ao caos da guerra

O grande mérito de Como se Divorciar Durante a Guerra está na maneira como o diretor consegue colocar o espectador dentro de uma situação aparentemente banal: um casal que precisa se separar enquanto uma guerra começa a transformar a realidade ao seu redor.

O filme não acompanha diretamente o conflito pelos olhos dos soldados ou daqueles que estão na linha de frente. Em vez disso, escolhe observar pessoas que, apesar de viverem perto de uma crise histórica, continuam presas às próprias frustrações, aos problemas familiares e às pequenas disputas do cotidiano.

É justamente nessa escolha que a narrativa encontra sua força. Enquanto milhares de pessoas são obrigadas a abandonar suas casas, outras ainda estão preocupadas com seus relacionamentos, suas carreiras e a maneira como suas vidas deveriam funcionar. Essa diferença de perspectivas não serve apenas para criar humor: ela também revela como é fácil continuar vivendo dentro da própria bolha, mesmo quando existem acontecimentos que deveriam nos obrigar a olhar para além dela.

O resultado é um filme que provoca uma sensação curiosa. Por um lado, existe o alívio cômico de acompanhar as situações absurdas em que os personagens se metem. Por outro, há um desconforto constante ao perceber como suas preocupações pessoais parecem pequenas diante do que está acontecendo.

E é aí que o longa acerta. Ele não precisa transformar cada cena em um discurso sobre a guerra para mostrar como um conflito dessa dimensão afeta a sociedade. Basta observar o contraste entre a realidade histórica e a maneira como seus personagens escolhem reagir a ela.

O sarcasmo como ferramenta para expor a hipocrisia

O humor é uma das principais ferramentas de Como se Divorciar Durante a Guerra. O filme usa o sarcasmo para evidenciar as hipocrisias de seus personagens e, ao mesmo tempo, encontrar alguma humanidade em meio às contradições.

O mais interessante é que a produção não tenta transformar seus protagonistas em pessoas exemplares. Muitas vezes, eles são egoístas, contraditórios e difíceis de defender. Ainda assim, o roteiro consegue construir situações que nos permitem compreender suas atitudes, mesmo quando não concordamos com elas.

É um equilíbrio delicado: conseguir despertar alguma empatia por pessoas que também são capazes de tomar decisões questionáveis. O filme entende que a humanidade não se divide simplesmente entre pessoas boas e ruins. Muitas vezes, somos confrontados com indivíduos que demonstram preocupação com determinadas causas enquanto ignoram outras, que defendem valores importantes, mas nem sempre conseguem colocá-los em prática na própria vida.

Essa contradição fica especialmente evidente na maneira como os personagens tentam lidar com a guerra. Existe uma diferença entre aquilo que dizem acreditar, aquilo que fazem publicamente e a forma como realmente se comportam quando a crise começa a afetar suas vidas.

O sarcasmo expõe essas diferenças sem precisar oferecer respostas fáceis. Em vez de apresentar personagens moralmente superiores, o filme constrói um universo no qual todos têm suas próprias falhas e justificativas. E talvez seja justamente isso que torna a experiência tão interessante: reconhecer que a hipocrisia não é uma característica exclusiva de um grupo específico, mas algo que pode aparecer em diferentes pessoas e circunstâncias.

Marija e Vytas: um casamento desgastado pela rotina

Marius Repšys interpreta Vytas, um cineasta lituano cuja carreira está em suspenso desde que decidiu se tornar pai em tempo integral de sua filha, Dovile, interpretada por Amelija Adomaityte, agora uma jovem adolescente.

Já Žygimantė Elena Jakštaitė interpreta Marija, esposa de Vytas, mãe de Dovile e principal provedora da família.

A dinâmica entre os dois é um dos elementos mais interessantes do longa. O casamento parece ter sido desgastado pelo tempo, pela divisão das responsabilidades e pelo acúmulo de frustrações que nunca foram devidamente resolvidas. Marija carrega uma revolta crescente dentro de si, mas nem sempre consegue encontrar uma maneira de expressá-la. Vytas, por sua vez, precisa lidar com a suspensão de sua carreira e com a dificuldade de encontrar um novo lugar para si.

O filme consegue mostrar como essas tensões não surgem de uma hora para outra. Elas são construídas ao longo dos anos, em pequenas situações, ressentimentos e expectativas que deixam de ser atendidas. Quando Marija decide pedir o divórcio, a separação se torna o ponto de partida para que ambos confrontem aquilo que suas vidas se tornaram.

A chegada da guerra, porém, torna tudo ainda mais complicado. O casal precisa lidar com uma crise histórica enquanto tenta resolver uma crise pessoal, e as duas situações acabam se misturando de maneiras inesperadas.

É interessante observar como a narrativa não trata o divórcio como um conflito isolado do restante do mundo. A vida íntima dos personagens continua existindo, mas passa a ser atravessada por acontecimentos que eles não conseguem controlar.

A ambiguidade de uma sociedade em crise

Outro grande acerto está na maneira como o diretor equilibra os diferentes tons da narrativa. Mesmo diante de uma situação tão grave, o filme não abandona o humor, mas também não transforma a guerra em um simples pano de fundo para as desventuras de um casal.

A produção encontra espaço para expor a hipocrisia das pessoas, as contradições políticas e a dificuldade de agir de acordo com os próprios princípios. Ao mesmo tempo, evita transformar todos os personagens em representantes de uma única ideia.

Ninguém é santo. Cada um possui uma personalidade própria, interesses particulares e maneiras diferentes de justificar suas decisões. Essa construção multifacetada torna o filme mais interessante porque impede que o conflito seja reduzido a uma disputa simples entre pessoas certas e erradas.

A situação de Vytas, especialmente, ganha novas camadas quando ele volta a morar com os pais russófilos, cujas visões de mundo entram em choque com as suas. O ambiente familiar passa a refletir divisões políticas que ultrapassam as relações pessoais, mostrando como a guerra e suas implicações também atravessam os lares.

Enquanto isso, Marija tenta encontrar algum sentido em sua nova vida e busca ajudar refugiados ucranianos ao hospedá-los em seu luxuoso apartamento. Ainda assim, nem mesmo essa iniciativa parece capaz de aliviar sua frustração e sua solidão.

É uma das contradições mais fortes do filme: a tentativa de fazer algo positivo não significa necessariamente que alguém consiga escapar das próprias insatisfações. O gesto de solidariedade existe, mas convive com conflitos pessoais que continuam sem solução.

Um retrato curioso do Leste Europeu

Como se Divorciar Durante a Guerra também se destaca por oferecer um olhar sobre a realidade do Leste Europeu, uma região cujas tensões políticas, históricas e sociais nem sempre recebem a mesma atenção no debate cotidiano da América do Sul.

A partir da experiência de uma família lituana, o longa aborda os efeitos da guerra na vida de pessoas que não estão necessariamente no centro dos combates, mas que vivem em uma região diretamente afetada por suas consequências.

Essa perspectiva torna o filme especialmente relevante. Em vez de tratar o conflito apenas como uma notícia distante, a narrativa mostra como ele interfere no comportamento, nas relações e nas decisões de pessoas comuns. A guerra está presente mesmo quando os personagens tentam ignorá-la, e essa presença acaba revelando muito sobre a sociedade em que vivem.

Entretanto, a produção poderia aprofundar algumas dessas questões. Por vezes, há ideias e arcos narrativos que parecem promissores, mas não recebem o desenvolvimento necessário. Alguns deles poderiam ser cortados para dar mais espaço aos aspectos centrais da história.

Também sentimos falta de outras perspectivas sobre o contexto apresentado. Ao permanecer tão próxima de seus protagonistas, a narrativa deixa de explorar com a mesma profundidade a experiência de outras pessoas afetadas pela crise. É uma escolha compreensível para uma história tão focada nas contradições de um casal, mas que também limita o alcance de algumas discussões.

Ainda assim, o filme consegue construir um retrato particular e instigante de uma sociedade que tenta preservar sua rotina enquanto convive com a instabilidade.

Conclusão: quando fingir normalidade se torna assustador

Como se Divorciar Durante a Guerra é uma das grandes surpresas da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e um dos filmes mais interessantes do ano. Com uma combinação muito bem equilibrada de humor, sarcasmo e tensão, a produção transforma uma separação conjugal em uma reflexão sobre a guerra, a hipocrisia e a dificuldade de enxergar além da própria realidade.

Apesar de algumas ideias pouco exploradas, arcos que poderiam ser cortados e da ausência de perspectivas mais amplas sobre as consequências do conflito, o longa encontra força na construção de seus personagens e na maneira como observa suas contradições.

Mais do que falar sobre um divórcio durante a guerra, o filme fala sobre a nossa capacidade de continuar vivendo como se nada estivesse acontecendo. Sobre como podemos defender determinados valores sem necessariamente colocá-los em prática e sobre como a busca pela normalidade pode se transformar em uma forma de omissão.

No fim, Como se Divorciar Durante a Guerra apresenta um dos retratos mais curiosos da crise europeia e dos efeitos da guerra sobre a sociedade. É uma obra que diverte, provoca desconforto e nos faz pensar sobre quantas vezes preferimos fechar os olhos para o que acontece ao nosso redor apenas para preservar a nossa famosa normalidade.

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Marina Bueno
Sobre o autor Marina Bueno

Apaixonada por cultura pop, teatro e musicais. Fã de Wicked, da Supergirl e de histórias inspiradoras, encontrei nos palcos e nas telas minha maior fonte de entretenimento. Corinthiana de coração, valorizo a emoção das grandes apresentações, seja em um espetáculo musical ou em uma partida de futebol.

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