A linguagem cinematográfica é uma espécie de vocabulário de imagens, sons, planos, enquadramentos, iluminação, etc; que, usados à exaustão, em suas múltiplas e quase infinitas possibilidades, por mais que o cineasta em questão busque a originalidade — o autoral — potencialmente resvala no clichê.
Não que isso seja necessariamente um problema, porque é bem possível que tudo, em matéria de cinema — ou de outras artes — já tenha sido pensado, dito, escrito, desenhado, composto, filmado. Parece-me que estamos sempre reciclando ideias, em uma busca desesperada por uma nova “invenção da roda”.
Subverter, então, essa linguagem é uma tarefa hercúlea, uma utopia que parece inalcançável, ainda mais se falarmos em cinema clássico, com suas estruturas narrativas e imagéticas bem amarradas.

Ao Sabor das Cinzas (Brasil, 2026, direção de Taciano Valério) é um exercício estilístico que flerta com o clássico, mas quebra, ou tenta, convenções, trazendo elementos que, a princípio, sinalizam para a subversão e a ruptura, mas logo desabam no enfado próprio do clichê.
Tal qual uma estratégia do documentário que, em muitos casos, tem como base um dispositivo para construir ou impulsionar o roteiro, aqui são as conversas telefônicas os fundamentos da “inovação”. Ao trazer para o mesmo quadro os interlocutores das diversas ligações telefônicas (ao menos 10!) ao longo de sua 1h24 de duração, dando uma camada teatral ao filme, Valério cansa a audiência quando aquela desconstrução do clássico passa a ser utilizada repetidamente, perdendo, logo, o caráter disruptivo. Lá pelas tantas, quando se percebe que um personagem irá telefonar para outro, é impossível conter a exclamação interrogativa: “Ah não! De novo!?”.
O roteiro trata de uma tradicional família pernambucana, cujo patriarca, Seu Lauro (Everaldo Pontes), que dirigia um grande escritório de advocacia com o genro Lucas (Bruno Goya), morre. Suas filhas Laura (Maria Lima) e Bethânia (Verônica Cavalcanti) — acompanhada da filha Isadora (Isadora Gibson) —, têm que lidar com o sepultamento. Este evento irá revelar segredos obscuros da família.

Há aqui também o uso da metalinguagem, de um filme em montagem, retratando flashbacks, dentro do filme. O que não parece tão verossímil, pois toda a vida, inclusive os crimes praticados, de Seu Lauro e de Lucas, são reconstruídos em imagens captadas por eles mesmos. Como se tivessem a preocupação, ao longo dos anos, de produzirem provas contra si mesmos.
Com temas como tráfico e exploração sexual de mulheres, racismo, a falsa moral da tradicional família brasileira, e utilizando também elementos do cinema fantástico, e fortes referências de Dona Flor e Seus Dois Maridos (Brasil, 1976, direção de Bruno Barreto) e Ghost — Do Outro Lado da Vida (EUA, 1990, direção de Jerry Zucker), Ao Sabor das Cinzas, se optasse por uma proposta de cinema convencional, talvez conseguisse mais êxito.
Seus infindáveis e teatrais diálogos telefônicos, a pouca naturalidade do elenco em cena, a problemática captação de som, que inviabiliza entender grande parte do que dizem os atores, e um aparente preciosismo estilístico do diretor, em movimentações de câmeras e enquadramentos “inusitados”, comprometem um filme que tem o que dizer, embora seja um tanto maniqueísta e simplista.
No geral, não é uma experiência empolgante de se atravessar e fica-se com a impressão, ao fim, que aquilo poderia ter sido um bom filme.
Nota 4/10
