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Crítica: Antártida (lançamento)

A Estação Brasileira Comandante Ferraz, na Antártida, está recebendo dois novos integrantes na equipe de pesquisadores e militares, Vicente e Inês...

Sumário

Essa última, a mais jovem cientista do grupo, chega para coletar dados sobre as mudanças climáticas e está entusiasmada com a oportunidade na carreira. Mas a vibração não é compartilhada pelo restante do grupo. E um crime vai romper a aparente dinâmica amistosa entre eles.

Quem comanda a equipe é o Capitão Barros (Antonio Calloni); e a subcomandante, Elisabeth, vivida por Andrea Beltrão. Os participantes estudam o clima e suas consequências para a vida na terra, no ar e no mar. Abaixo de 25 graus, eles estão isolados do mundo e de qualquer referência familiar. A bordo encontramos investigadores, militares e equipes de manutenção que seguem uma rotina previsível e hierarquicamente posicionada. Inês (Marina Ruy Barbosa) chega alterando as peças sem saber que faz parte de um jogo perverso. Veja o trailer:

Está fazendo uma ventania forte do lado de fora. São 11 da noite e a neve cai continuamente sem oferecer perdão. É inverno na região e a temperatura pode descer para -40. A escuridão antecipada costuma castigar os ânimos gerando uma intensa melancolia. Especialmente depois de uma noite de bebedeira.

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– Quem está aí? – grita uma Inês muito fraca ao vomitar .

Ela cai e desmaia. Enquanto delira na cama do hospital da estação,  Elisabeth e Marina (Leandra Leal), atordoadas, tentam acordá-la. A jovem se assusta e, imediatamente, relembra. Tinha alguém em cima dela tentando sufocá-la. A cientista foi estuprada inconsciente. Quem fez isso com ela? Elisabeth tenta fazer a denúncia à administração externa e é impedida por Barros, que se insere em uma possível participação no crime.

Em “Antártida” compreendemos como funciona a lealdade entre os homens. A defesa e o silêncio são as únicas reações permitidas, o que garante imputação e coloca no mesmo cesto de roupas sujas aqueles cujas ações são publicamente condenáveis e os que se autoconsideram bons. Inês passa pela condenação prévia que milhares de mulheres são submetidas – a culpa de alguém que provoca o ato, como se fosse coautora da própria violência. Porém, ela não está na frente de um juíz, mas sim no centro de um grupo com apenas 3 mulheres; sendo exposta e revitimizada. Uma cena incômoda e inominável. No dia da sua chegada, um arrepiante acerto da equipe de produção: na festa dada pelos tripulantes, alguns dançam, outros só olham. Olhares lascivos voltados para ela. A câmera registra cada homem no ambiente. O cheiro de carne está sendo notado pelos leões… Fora das câmeras, não conheço uma mulher que não perceba a presença dos leões antes deles notarem o cheiro.

Antonio Calloni interpreta um homem que descobre uma doença cerebral e se coloca como um possível autor do abuso sexual devido à confusão mental e esquecimento decorrentes do problema. Violentar uma pessoa é um ato consciente que tem como motivação a dominação e controle, independe de sobriedade, diagnóstico ou patologia. Mas ele pode ser produzido por qualquer um. Barros representa o homem que todos já conhecemos – acima de qualquer suspeita, com uma reputação e título. E ele sabe que pode ser um suspeito, por isso se coloca na cena. Acusações são levantadas contra os integrantes masculinos e o descontrole emocional se instala na base científica. Homens mantêm uma postura defensiva uns com os outros diante de qualquer micro e visível agressões também por saberem que eles podem ser esse qualquer um. Em contraste, o silêncio é por se acharem incomparáveis aos publicamente recrimináveis. A subcomandante é a carrasca e atira para todos os lados para achar o culpado. Um comprometimento que vem da resistência interna resultante de um evento quase mortal na sua vida.

Alguns acontecimentos rápidos demais tiram a força que poderia ter o roteiro. Atropelam o processo de “luto” e acolhimento da vítima, e inserem vagamente um segundo tipo de violência contra as mulheres, a doméstica. Situações que precisam de tempo para mostrar como as vítimas, envolvidos e “espectadores” das agressões se comportam e assimilam o ocorrido. Condutas que contribuem para números cada vez mais altos de violência contra a mulher. Para uma trama com premissa de suspense psicológico, seus personagens mereciam mais tempo de tela para apontarmos nosso próprio culpado ou culpados. Com um ótimo elenco incluindo Gero Camilo e Lázaro Ramos, o filme estreia dia 17 de setembro nos cinemas.

nota: 6/10

Créditos: Paris Filmes

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Flávia Piauí
Sobre o autor Flávia Piauí

A imaginação e a esperança me mantêm viva. E através de uma tela eu aprendi a sonhar. Mas nem tudo cabe em uma imagem. Às vezes faltam palavras, falta uma legenda. Instagram: fasuez

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