A dor do luto
Depois de quase dois anos sem lançar um novo álbum, Jão retorna com Memórias Póstumas, um projeto que promete ser uma grande caixa aberta sobre sua vida, seus sentimentos e suas experiências pessoais. O próprio título já cria uma grande expectativa, principalmente por fazer referência ao clássico Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, uma obra que trabalha temas como memória, morte e reflexão sobre a própria existência.
Mas será que o álbum consegue entregar tudo aquilo que promete?
Um título forte, mas uma proposta diferente
A escolha do nome Memórias Póstumas é interessante e, ao mesmo tempo, desafiadora. Ao fazer referência ao livro de Machado de Assis, Jão cria uma expectativa de que o álbum será uma grande reflexão sobre o luto, sobre perdas e sobre olhar para o passado.
Porém, quando você começa a ouvir o álbum, percebe que essa não é exatamente a abordagem principal.
Ao entrar em Memórias Póstumas, a expectativa era sair completamente destruído emocionalmente, principalmente depois dos teasers divulgados pelo cantor, que já apresentavam uma carga emocional muito forte. Mas, ao dar play, fica claro que o luto está muito mais presente nas entrelinhas do que como o grande foco da obra.
O álbum acaba sendo muito mais sobre aquilo que Jão sempre explorou em sua carreira: um garoto triste tentando entender o amor, os relacionamentos e as próprias inseguranças.
O conforto dentro da fórmula de Jão
Essa característica aparece praticamente em todas as músicas do álbum. Existe uma certa repetição tanto nas melodias quanto na forma como as letras são construídas.
Jão possui uma identidade muito clara, mas em Memórias Póstumas parece que ele se apoia demais em elementos que já funcionaram anteriormente. Muitas músicas seguem uma estrutura parecida, com sentimentos apresentados de maneira muito direta, sem deixar tanto espaço para interpretação.
Em alguns momentos, falta aquela camada extra que faria o álbum se destacar dentro da própria discografia do cantor.
A faixa Catedral, que abre o projeto, já demonstra isso. É uma música com uma grande carga emocional, mas que apresenta de maneira muito explícita aquilo que quer dizer, sem explorar tanto as nuances e contradições desses sentimentos.
Quando Jão se permite experimentar
Apesar disso, o álbum possui grandes momentos.
Um dos maiores destaques é Aurora, uma faixa em que Jão finalmente parece brincar mais com sua sonoridade. A mistura de ritmos que lembra samba e funk traz uma nova energia para o álbum e ajuda a elevar a composição.
Essa mudança mostra um lado diferente do cantor, principalmente porque a música consegue unir uma instrumentalidade mais brasileira com a identidade pop que sempre acompanhou sua carreira.
Outro ponto interessante é a própria escrita de Jão. Mesmo quando o álbum segue uma linha mais previsível, existem momentos em que suas letras conseguem atingir o público dependendo da fase da vida de quem está ouvindo.
A força do cantor sempre esteve justamente nessa capacidade de transformar sentimentos pessoais em algo que muitas pessoas conseguem enxergar em suas próprias histórias.
“João” e uma nova perspectiva sobre o cantor
Sem dúvidas, um dos maiores destaques do álbum é João, a única música que não foi composta pelo próprio Jão, mas sim por Pedro Tofoni, namorado do cantor.
A faixa chama atenção justamente por apresentar uma perspectiva diferente sobre o artista. Pela primeira vez, temos a sensação de observar Jão através dos olhos de outra pessoa.
A música possui uma melancolia muito forte, quase como se estivéssemos ouvindo uma história íntima demais, algo que não deveria estar sendo revelado por ser tão pessoal e doloroso.
Além disso, novamente existe uma mudança na melodia e no estilo, mostrando como o álbum poderia ter se beneficiado de mais momentos em que Jão saísse da sua zona de conforto.
O luto finalmente aparece
O álbum se encerra com a faixa Memórias Póstumas, momento em que o luto finalmente assume o protagonismo depois de 14 músicas.
Curiosamente, essa talvez seja uma das maiores frustrações do projeto. A música possui uma grande expectativa pelo próprio conceito do álbum, mas parece que Jão nunca consegue chegar completamente ao ponto que a composição promete.
Existe uma quantidade enorme de sentimentos que poderiam ser explorados, mas que acabam ficando apenas sugeridos.
Mesmo assim, é uma faixa que funciona emocionalmente. Mesmo com suas limitações, ela consegue tocar justamente porque transmite essa sensação de alguém tentando lidar com algo que ainda não conseguiu completamente entender.

Um álbum interessante, mas irregular
No fim, Memórias Póstumas não consegue superar trabalhos como Super, Lobos ou Pirata. O álbum fica em um nível próximo de Anti-Herói, mas um pouco abaixo.
É um projeto que possui músicas muito boas, momentos emocionantes e uma visão interessante de Jão sobre o luto, mas também apresenta faixas que poderiam ter sido mais desenvolvidas e uma sensação de repetição que impede o álbum de alcançar seu potencial máximo.
Mesmo assim, Memórias Póstumas é uma experiência curiosa dentro da carreira do cantor. Talvez não seja seu trabalho mais marcante, mas mostra um artista tentando olhar para suas próprias dores e transformar sentimentos difíceis em música.
Um álbum sobre memória, amor e perda, mesmo que o luto esteja muito mais escondido do que o título promete.
