O gênero documentário é um tipo de cinema olhado de soslaio pelo grande público e, mais ainda, tratando-se de um filme nacional, pois sofre a dupla pecha preconceituosa de ser uma “reportagem” e pertencer ao subgênero “brasileiro”.
Em verdade, este tipo de filme se constitui a partir de um objeto, personagem ou fenômeno sobre o qual o cineasta vai apontar seu olhar e sua câmera, construindo sua narrativa a partir da escolha de pontos de vista, ângulos de filmagem, enquadramentos, trilha sonora, etc. Assim, o diretor conduz não só o seu objeto filmado, mas também a audiência para as suas premissas e escolhas — prévias ou não — do roteiro. Por vezes, utiliza até um dispositivo para provocar o fenômeno registrado pelas lentes da câmera, o que não é o caso aqui.

Eduardo Coutinho é um dos grandes realizadores do gênero, deixando-nos sua obra composta por verdadeiras pérolas como “Cabra Marcado para Morrer” (1984), “Edifício Master” (2002) e “Jogo de Cena” (2007), entre outros.
“Não Existe Almoço Grátis” (2023), depois de uma premiada trajetória em festivais pelo Brasil — incluindo os prêmios de Melhor Filme pelo Júri Popular e Menção Honrosa no Festival de Brasília de 2023 —, chega finalmente às telas grandes em circuito comercial.
O longa faz parte da chamada “Trilogia da Memória”, idealizada pela produtora independente Decoloniza Filmes, que propõe ao grande público preservar a memória recente do país e contribuir para a conscientização política a partir de três documentários lançados em 2026: “Anatomia do Caos” (direção Dandara Ferreira) sobre a CPI da Covid; “Sonhar: A Fabulosa Máquina do Tempo” (direção Eliza Capai), uma reflexão sobre as projeções de futuro e a imaginação coletiva da juventude; e este “Não Existe Almoço Grátis”.

Primeiro longa dos diretores e roteiristas Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, o filme adentra os bastidores da cozinha do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que preparou a alimentação oferecida aos vários movimentos sociais que foram a Brasília para a posse do Presidente Lula, em 1º de janeiro de 2023.
O filme acompanha a vida de três mulheres negras, moradoras da maior favela do Brasil, Sol Nascente, em Brasília. Bizza, Jurailde e Socorro são cozinheiras do projeto “Cozinha Solidária” do MTST, que oferta comida de graça à população carente das grandes cidades do Brasil.

Em sua narrativa e montagem, entrecortando imagens da rotina das mulheres em casa, com a família, na comunidade e nos preparativos na cozinha do MTST na posse do Presidente Lula, o filme alinha a trajetória pessoal de cada uma delas à trajetória coletiva no movimento e na comunidade, apontando como se constituiu a tomada de consciência de classe e a busca por direitos como moradia, comida e dignidade.
Obra claramente com um viés político, consegue emocionar e impactar ao apontar caminhadas tão ímpares daquelas mulheres, que partiram da pobreza extrema e da falta de perspectivas e que encontraram, na luta coletiva, o respeito por si mesmas, a autoestima e a força para lutar por aquilo em que acreditam e almejam.
Importante recorte — e olhar — de um momento grandioso da história recente do país. E atualíssimo.
Nota: 8/10
