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Crítica: Insaciável (2026)

De "O Retrato de Dorian Gray" a "A Substância", o cinema sempre explorou as angústias da vaidade. Descubra como o longa australiano "Insaciável" atualiza esse debate para a era das pílulas e canetas milagrosas e das redes sociais....

Sumário

O Preço da Perfeição: Como o body horror traduz a angústia dos transtornos alimentares.

A busca pelo corpo perfeito, pela fonte da juventude e beleza absoluta são angústias que acompanham a humanidade desde sempre. A inquietude e a insatisfação com a própria imagem são fantasmas que nos assombram e nos desconcertam desde que nossos antepassados descobriram suas identidades e imagens nos reflexos das águas dos rios, lagos e poços. 

Assim, tal desconforto com o eu corporal também ecoou nos mitos, na literatura, nas artes em geral, particularmente no cinema. Em verdade, Narciso e seu encantamento pela sua beleza, revelada quando se olhou nas águas de um rio, levando-o a se afogar diante do deslumbramento com seu próprio eu, ao tentar agarrar a si mesmo, é um mito que vem da Grécia Antiga, e que deu origem ao termo narcisismo (extrema vaidade e amor-próprio).

O mal-estar com a autoimagem leva, então, tal qual um narcisismo às avessas, o indivíduo à insatisfação constante com sua condição de ser, com sua aparência. E o lança em uma busca desenfreada por essa beleza mítica, inalcançável, de um corpo perfeito. 

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Na literatura, obras como O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, retratam esta agonia na figura de um jovem que, ao vender a alma ao diabo, retém em seu retrato a velhice, o apodrecimento, as sujeiras e os pecados; enquanto seu corpo se mantém jovem e belo para sempre. 

No cinema, vastos são os exemplos que ecoam este tema, afora adaptações diretas do livro de Oscar Wilde, como o filme de 1945, dirigido por Albert Lewin (Oscar de Melhor Fotografia). “A Morte Lhe Cai Bem” (1992), “Garota Nota 10” (2002) e “A Substância” (2024) são filmes que ecoam esta quimera estética. 

“Insaciável” (Saccharine, 2026, Austrália), direção e roteiro de Natalie Erika James (de “Relíquia”, 2020), é mais uma obra do subgênero “body horror” que ecoa a obsessão por um modelo de beleza que se impõe na mídia e em redes sociais, onde a magreza é tratada como ideal do corpo feminino. Uma imposição estética que resulta em transtornos alimentares, seja anorexia ou bulimia. O que leva muitos à magreza extrema, ou à compulsão alimentar. 

Em épocas de dietas mágicas, canetas hiperemagrecedoras e pílulas milagrosas, “Insaciável” vem bem a calhar. 

Do ponto de vista cinematográfico, não traz grandes novidades, ali estão velhos clichês do terror: móveis que se arrastam sozinhos, ranger de portas que se abrem, sons de passos no assoalho, fotografia escura, enquadramentos disformes, acentuando a confusão mental (e corporal) que vai se instalando na protagonista Hana (Midori Francis). A atriz, por sinal, dá conta do recado, acentuando, de início, a timidez e a insegurança da personagem, insatisfeita por estar acima do peso. Na medida em que a personagem se transforma, Midori passa esse empoderamento; assim como nas sequências em que o medo a invade. 

Apesar de não representar nenhuma revolução no cinema, e de uma narrativa já tão contada de tantos modos similares, “Insaciável” tem muito a oferecer: além de suspense e medo, é uma reflexão a mais sobre a ditadura da beleza ideal, da busca de um corpo perfeito, que, propagada à exaustão, ainda mais em tempos de redes sociais, leva muitos ao sofrimento e à angústia por não estarem satisfeitos com sua própria imagem. 

Nota: 7 

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Marcio Souza
Sobre o autor Marcio Souza

Cinéfilo, antes de tudo! Fã de quadrinhos das antigas, amante das letras, psicólogo, bacharel em cinema e áudio visual, crítico de cinema, roteirista, ator, etc. Sou tantas coisas, mas nada me cabe, ou define.

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