Se você é do time que respira cinebiografias, esta obra promete prender sua atenção do início ao fim, entregando cenas visualmente impactantes e psicologicamente chocantes.
Franz mergulha nas sombras e genialidade de uma das mentes mais enigmáticas do século XX: Franz Kafka. Da infância moldada pelo cenário de Praga aos seus últimos suspiros na Áustria pós-Primeira Guerra Mundial, a trama desenha o retrato íntimo de um homem partido.
Entre o peso sufocante de um pai autoritário e a burocracia desumanizante de um escritório de seguros, a narrativa caminha pela corda bamba de suas contradições. É no laço de cumplicidade com seu editor e confidente, Max Brod, e nos labirintos emocionais de seus romances com Felice Bauer e Milena Jesenská, que descobrimos a vulnerabilidade do mito. Franz nos revela a tragédia de um homem que ironicamente ansiava pela simplicidade de uma vida comum, mas cuja mente — um poço sem fundo de angústia e imaginação, o condenou a transformar seus tormentos em algumas das maiores obras-primas da literatura universal.

Ao invés de se curvar a uma estrutura cronológica linear a narrativa escolhe se distribuir por fragmentos, cruzando lembranças, fluxos de pensamento e fases marcantes. Cada ponto se mistura feito uma sopa de letrinhas e, com isso, cada cena deixa de ser um mero registro factual para se tornar o reflexo visual das próprias inquietações que, mais tarde, viriam a fundar a literatura do autor.
Sob a direção precisa de Agnieszka Holland, Franz rejeita odidatismo tradicional do gênero e se assume como uma experiência prioritariamente sensorial. Ao apagar as fronteiras entre realidade, memória e delírio imaginativo, a cineasta faz com que temas universais da obra kafkiana: como a culpa sufocante, o isolamento, a opressão burocrática e a inadequação familiar transbordem do roteiro e se materializem na própria encenação, na atmosfera e na fotografia do filme.
