Ao contar uma história inédita em Raccoon City, Zach Cregger encontra na experiência dos games o caminho para uma das adaptações mais certeiras da franquia.
O segredo para uma boa adaptação parece ter sido descoberto este ano! Depois de uma sequência de acertos com os longas Masters of the Universe, Backrooms e Mortal Kombat, Cregger coloca Resident Evil em um novo pedestal. Para fazer uma das melhores adaptações da franquia, talvez o segredo seja justamente não adaptar nenhum Resident Evil.
Em seu mais novo trunfo, Zach Cregger, diretor de Barbarian (2022) e Weapons (2025), mostra que nem sempre uma boa adaptação precisa ser, necessariamente, uma adaptação. Em Resident Evil, acompanhamos o entregador Bryan (Austin Abrams). Numa noite de neve, ele aceita o trabalho de transportar uma encomenda urgente até o Hospital Geral de Raccoon City. O que ele não imagina é o quão catastrófica aquela noite está prestes a se tornar.
Um NPC como protagonista
Quando um diretor encontra seu “queridinho”, a situação sempre tende ao oito ou oitenta. Depois de Weapons, Austin Abrams retoma sua parceria com Cregger, agora na pele de Bryan.
Resident Evil é uma franquia extensa e repleta de protagonistas já consagrados. Não surpreende, portanto, que parte dos fãs tenha recebido com relutância a chegada de um personagem inédito.
Ainda assim, Abrams acerta em cheio ao dar vida a um personagem repleto das mais diversas nuances. Seu humor impecável, suas expressões e a própria construção de Bryan fazem dele um protagonista inexplicavelmente cativante.
Cregger, por sua vez, utiliza de forma muito inteligente todo o material que os jogos já nos ofereceram. É assim que somos colocados no encalço de um personagem que é, essencialmente, um literal NPC.
Uma Raccoon City que respira
Além do ótimo trabalho de Abrams, que carrega todo o ritmo do longa, Bryan também guia a forma como o filme transita entre seus cenários. De maneira bem convincente, diga-se de passagem.
Nesse sentido, Cregger trabalha esses espaços como uma parte importante da narrativa. A forma como os apresenta está imensamente atrelada à experiência dos jogos. Muitos desses momentos remetem imediatamente a cenas das quais os fãs podem acabar se recordando com muito mais vigor.
Com isso, a progressão dos acontecimentos ajuda a vender completamente a ideia de que aquela Raccoon City é tão personagem e protagonista quanto Bryan. Isso fica especialmente evidente nas mudanças de cenário a partir da metade do filme. Mais uma vez, a obra mostra não se tratar da adaptação de um jogo de Resident Evil, mas sim de seu universo.
Ao mesmo tempo, a iniciativa por trás de tornar Raccoon City tão marcante caminha ao lado do fato de que Cregger simplesmente amassa na fotografia e na ambientação. E essa Raccoon City é um show visual. Perdida em meio a florestas de pinheiros e campos cobertos de neve, ela ganha vida pelo vapor deixando as saídas de ar, pelas cores, ou até mesmo pela falta delas. É um cuidado visual capaz de preencher qualquer lacuna que pudesse existir no cuidado com os personagens, mesmo que ela sequer esteja ali.
Muito além de uma adaptação
Diante disso, dificilmente teríamos um resultado ruim. Cregger preenche uma lacuna que sequer sabíamos que possuíamos ao entregar uma adaptação do que é Resident Evil. Uma amarra entre a experiência cinematográfica e a dos games, divertida e repleta de sustos construídos com timing e pontualidade impecáveis.
Não é surpresa que sejamos capazes de transitar durante o longa por experiências que os fãs podem reconhecer como pedaços das narrativas dos games. Ao mesmo tempo, outros eventos oferecem vislumbres das tramas que mais tarde acompanharíamos dentro dos jogos. O resultado consagra uma narrativa multiplataforma para aquele universo.
No fim, é justamente ao abandonar a necessidade de recontar uma história já conhecida que Cregger encontra a melhor forma de adaptar Resident Evil. Bryan nunca protagonizou um dos jogos. Sua jornada nunca precisou existir dentro deles. Ainda assim, poucas vezes o cinema pareceu compreender tão bem o que significa estar naquele universo.
É uma história nova, protagonizada por um literal NPC, atravessando o começo das histórias que já conhecemos. Cregger não precisou adaptar nenhum Resident Evil em específico para entregar algo que, do início ao fim, não poderia ser outra coisa senão Resident Evil.
NOTA 10/10
