Toda história tem dois lados

Na última quinta-feira, estreou no Teatro Renault a nova montagem do espetáculo Wicked. Diferente da versão de 2003 da Broadway, esta produção não é uma réplica exata. Mas será que é boa? Vamos descobrir.


Primeiro Ato

O primeiro ato segue, em grande parte, o primeiro filme de 2024, com algumas adaptações para o teatro, tanto no cenário quanto nas falas e até mesmo nas músicas.

“No One Mourns the Wicked”, a abertura do espetáculo, apresenta uma queda notável de intensidade. Talvez por ser a estreia VIP para convidados, o ensemble estivesse nervoso, mas faltou a raiva e o ódio direcionados à Bruxa Má. A performance, embora afinada, carecia de força e tônus – um problema que se repetiu em diversos momentos do primeiro ato, tornando-o mais fraco no geral.

Por outro lado, Fabi Bang brilha vocalmente como Glinda. Influenciada pelo filme, sua interpretação sofreu pequenas alterações nas notas, inclusive na abertura, mas sua performance vocal continua impecável. No entanto, na atuação, parece estar no piloto automático. Ela tem carisma e as piadas funcionam, mas falta o brilho e o frescor de antes. Sua Glinda parece mecânica, sem trazer algo novo ou impactante. Ainda assim, em pequenas expressões e entonações, ela consegue transmitir parte da complexidade da personagem, mesmo falhando na comédia.

Já Myra Ruiz, como Elphaba, entrega uma atuação impecável – talvez sua melhor versão até agora. Ela consegue capturar a inocência, o lado sonhador e a preocupação com sua irmã Nessarose, além de sua necessidade de autoproteção. Em *”The Wizard and I”, Myra é a estrela absoluta, dominando a cena com intensidade e precisão.

Mesmo com algumas dificuldades individuais, Myra e Fabi têm uma química incrível em cena. “What Is This Feeling?”, apesar de uma execução caótica pelo coro – que parece superlotado –, ainda brilha graças às duas atrizes. Elas se complementam como se estivessem em uma dança perfeitamente sincronizada, o que fica ainda mais evidente na cena da Ozdust. Embora menos emocionante do que no filme, a cena ainda é visualmente linda.

Falando em Ozdust, Hypólito como Fiyero traz o charme necessário ao personagem. Ele incorpora bem o estilo bad boy caliente, mas sua música não se destaca tanto, prejudicada também por uma estética de cena confusa – que mais parece um granulado fora de contexto. Ainda assim, sua química com Myra e Fabi é forte.

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O cenário de “One Short Day” causa sentimentos mistos. Melhorou em relação à versão da montagem de 2023, recuperando parte do brilho original, mas ainda poderia ter mais verde esmeralda, especialmente fora dos figurinos.

O restante do elenco no primeiro ato está bem estabelecido. *Thadeu Torres, como Boq, é carismático e combina com o papel, entregando uma atuação adorável ao lado de *Luísa Bresser.

Sem dúvidas, um dos maiores destaques é *Karin Hils como Madame Morrible. Ela é pegajosa, maliciosa e repleta de segundas intenções, transmitindo a sensação de que pode devorar qualquer um a qualquer momento. Seu discurso em *”Defying Gravity” foi aterrorizante – talvez por eu estar muito próxima dela na cena –, mas, independentemente da posição, Karin entrega uma performance surpreendente.

E falando em “Defying Gravity”, é a melhor cena do primeiro ato. Encantadora e emocionante, a produção aprimorou o voo da versão original da Broadway, e, mesmo sem grandes mudanças em relação à montagem de 2023, continua impactante. Myra Ruiz, aliás, parece se superar a cada versão.


Segundo Ato

O segundo ato, que corresponde ao segundo filme previsto para novembro, traz uma mudança perceptível no desempenho do ensemble.

“Thank Goodness” é uma obra-prima. A cenografia, com cartazes e um ambiente mais denso, finalmente transmite a raiva dos Munchkins pela Bruxa Má do Oeste. Mais uma vez, Karin Hils se destaca, demonstrando todo o seu talento na manipulação de cena.

Mas o grande brilho da cena pertence a Fabi Bang. Aqui, ela mostra todo o peso das escolhas de Glinda. A dor da ausência de Elphaba e o esforço para esconder esse sentimento transparecem em seus olhares, gestos e movimentos. Se no primeiro ato sua atuação parecia automática, no segundo, Fabi entrega uma das melhores performances da peça.

Já *Myra Ruiz, que brilhou no primeiro ato, resplandece ainda mais aqui. Seu desespero e raiva são palpáveis, e sua cena com *Luísa Bresser é uma aula de atuação. Uma cena que poderia passar despercebida se transforma em um momento intenso, carregado de ressentimento e tristeza – especialmente quando Thadeu Torres entra em cena.

No outro lado do triângulo amoroso, Fiyero protagoniza alguns dos momentos mais intensos e picantes do segundo ato, além de tomar algumas decisões questionáveis. Suas cenas no milharal e no castelo do Mágico são pontos altos.

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Falando no Mágico, Baccic tem a performance mais fraca do elenco. Ele não compromete as cenas, mas também não as eleva. Suas músicas já não são as melhores e, em sua interpretação, ele apenas cumpre o papel sem grandes destaques.

A cena do milharal, sem dúvidas, é uma das mais impactantes do segundo ato. As emoções atingem o ápice ali, principalmente após todos os eventos anteriores. O “Catfight” é um excelente exemplo de como equilibrar comédia e drama.

Se há uma cena que define o segundo ato, é “No Good Deed”. Esse é o momento Bibi Ferreira Winner de Myra Ruiz. A dor, a raiva e a frustração da personagem são tão intensas que o público sente tudo junto com ela. Quando Elphaba finalmente se assume como a Bruxa Má, o momento é poderoso e justificável.

O segundo ato também apresenta as melhores músicas do espetáculo: “As Long As You’re Mine”, “Thank Goodness”, “No Good Deed” e “For Good”, sendo esta última um dueto emocionante capaz de comover até os corações mais duros.

Infelizmente, o segundo ato é curto demais. Com apenas uma hora, tudo acontece de maneira apressada, prejudicando o desenvolvimento de algumas cenas. Mesmo sendo superior ao primeiro ato, a montagem sofre com esses problemas estruturais.


Conclusão

No geral, a montagem de 2025 supera a de 2023 em diversos aspectos. Algumas piadas desnecessárias foram cortadas, as referências atuais foram utilizadas com moderação, e a produção tentou trazer novidades – algumas bem-sucedidas, outras nem tanto. Entretanto, algumas escolhas poderiam ter sido eliminadas, como os novos voos, que não agregam muito.

Se você veio do cinema e quer se aprofundar mais na história de Wicked, esta peça é uma ótima opção. Ela sabe como emocionar nos momentos certos e entrega boas atuações, especialmente no segundo ato.

*Nota: 6

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