Um dos filmes que mais me chamaram a atenção na 50.ª Mostra de São Paulo foi “Privadas de Suas Vidas”, uma homenagem ao terror trash dos anos 1980, com pitadas de drama interessante e personagens carismáticos. A produção tem tudo para marcar o cinema nacional com sua irreverência e humor, com sua coragem de fazer filme de gênero no país.
Na trama, quando uma estranha maldição transforma privadas em criaturas assassinas, Malu, já à beira do colapso por um trauma antigo e por ume filhe rebelde, é sugada para um pesadelo surreal em que maternidade, luto e terror existencial não se resolvem com uma descarga.
De longe, um dos melhores filmes que vi esse ano: “Privadas de Suas Vidas”, ou simplesmente filme das privadas assassinas. Drama absurde sobre família, sim, família, não com Dominic Toretto em Velozes e Furiosos, mas sobre perda de conexão com ela; com essa situação escatológica pode uni-las.
Acompanhar a jornada de “bosta”, desculpem pelo trocadilho, Malu (Martha Nowill) em atuação maravilhosa. Fico muito impressionado com ela; tem controle das cenas, até mesmo as mais absurdas. Ela está séria, encarando tudo com descrença, o que é cômico.
Depois que Malu sem querer lança uma maldição sobre o prédio, os “tronos” começam a se transformar em entidades assassinas. A dupla de diretores e roteiristas Gurcius Gewdner e Gustavo Vinagre conduz esse caos com bastante domínio, explorando os absurdos da premissa sem perder o ritmo da proposta, trazendo um terror trash que se destaca por sua abordagem corajosa e pouco convencional no cinema nacional.
O prédio tem excelente ambientação; em certos momentos, dá para acreditar que pode realmente existir, tudo simpático e carismático. A sensação de que esse prédio é vivo mesmo, cada apartamento tem a sua personalidade; os condôminos estão presentes nos filmes, não são caricaturas de algumas pessoas que encontramos cada dia na rua.

A fotografia desse filme é impecável. A emulação da película Super 8 e 16mm presente nesse filme que homenageia filmes b da década de 80 e 90, junto à estética de uso de paletas de cores quentes, transforma-a em experiência imersiva, mesmo se passado nos dias de hoje. A produção parece parar no tempo para resgatar o espírito dos filmes B daquela época.
Otávio Müller interpreta o porteiro e faz-tudo do prédio, um dos poucos personagens que realmente acredita que há algo errado com as privadas. O único que realmente acredita que tem algo de errado com as privadas é ele. A maneira com que ele fala os diálogos, o acontecimento para os outros personagens e eles reagindo é impagável.
O edifício reúne figuras de todos os tipos: uma jovem bruxa que prevê o futuro por meio do número 2, uma influenciadora grávida e seu marido tóxico, além de uma vizinha fofoqueira. Mesmo quando aparecem por pouco tempo, esses personagens deixam sua marca e ajudam a construir o clima excêntrico da produção.
A relação entre Malu e Gênesis é um dos aspectos que mais me chamam a atenção. Ele está passando por processo de transição de gênero, com isso debatido no filme, constrói relação real no filme, já que Malu não entende esse momento da vida de seu filho. Além disso, outras situações acontecem na vida dela e, de alguma forma, se conectam no filme com o problema intestinal dela, já que, além de trabalhar relações, o longa é uma grande metáfora sobre prisão de ventre?
As mortes são extremamente criativas; só de imaginar que uma privada pode matar alguém é inacreditável. Parabéns à equipe que fez os efeitos práticos; gosto de ver algo assim sendo feito no Brasil.
Privadas de Suas Vidas merece chegar aos cinemas! (ainda não tem data definida). Com humor politicamente incorreto, mortes criativas, um elenco carismático e um drama familiar que se esconde por trás de uma premissa absurda, o filme oferece uma experiência em um filme B no cinema brasileiro. É justamente essa mistura de escatologia, terror trash e conflitos emocionais que faz destacar.
