Representante da Alemanha na disputa pelo Oscar, Everytime integra a programação da 50ª Mostra de São Paulo. Com elementos de fantasia, o drama aborda o luto e a memória após uma morte trágica, estabelecendo certa delicadeza e distanciamento emocional.
Na trama, segue uma mãe, sua filha e um adolescente culpados por uma morte trágica enquanto viajam juntos para Tenerife, enfrentando a dor, a culpa e o perdão em um feriado em família que nunca aconteceu.
Everytime, fica na cabeça martelando como o que foi visto. O filme nos coloca diante da intimidade de uma família devastada pela perda, como essa memória do ente permanece presente na mente e nos celulares, onde eternizados esses sentimentos, e como ficamos reféns deles.
Os primeiros dez ou quinze minutos desse longa são inquietantes. A percepção de que algo muito ruim vai acontecer, a maneira como a direção usa esse presságio para desenvolver esse personagem que vai morrer, é angustiante. Acompanhamos breves fragmentos da rotina familiar; já a conexão com a família vai acabar a qualquer momento.

O luto da mãe (Birgit Minichmayr) é marcado por uma frieza. Mesmo diante da tragédia, ela parece mais preocupada com o trabalho e as ligações telefônicas do que em expressar sua dor. Aos poucos, porém, a atuação se encaminha ao medo, à culpa e ao arrependimento, sentimentos que a atriz transmite principalmente pelo olhar em cenas contemplativas.
O destaque fica para a irmã mais nova (Lotte Shirin Keiling). Essa menina entrega algo bem impressionante para a atuação infantil; ela sente falta do familiar e é quem mais tem dificuldade de aceitar o fim desse ciclo. No final do filme, em que se encaminha para momentos mais metafóricos, ela traz a sensação da memória e desorientação sobre acontecimentos, prendendo-nos em sua atuação nesse momento.
Everytime coloca isso em discussão fria e contemplativa, a memória, como essa família, entrega-se aos sentimentos aos poucos, com a vida que segue. O drama faz-nos questionar se algum momento que vimos existe ou existiu de fato, onde o longa se mantém com sua marca forte: a memória. Algo vai sempre existir ou mudar com o tempo.
