O conceito de “banalidade do mal” foi cunhado pela filósofa judaico-alemã Hannah Arendt quando, em 1961, acompanhou, como enviada especial da revista americana The New Yorker, o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann, ocorrido em Jerusalém. Na ocasião, o militar alemão estava sendo julgado pelos crimes de guerra e contra a humanidade cometidos durante o segundo conflito mundial (1939-1945), entre os quais extermínio em massa, prevenção de nascimento, maus-tratos e assassinatos de civis, roubo e pilhagem, etc. Seu papel na engrenagem do Holocausto era, basicamente, gerenciar e arquitetar a logística do transporte de prisioneiros para os campos de concentração, atuar como administrador da morte, pois, para ele, a eliminação daqueles presos era uma medida para resolver o problema de logística e fluxo.
Arendt então observou que os horrores do Holocausto do povo judeu foram cometidos não por psicopatas perversos, tomados de ódio; mas por pessoas comuns, que aceitam as normas e sistemas em que vivem sem os questionar, e cumprem ordens superiores, atendendo à burocracia quase de modo automático.

Esta tese, embora nunca citada, é a linha-mestre de NAZA (REINO UNIDO, EUA, ISRAEL, 2026, roteiro e direção de Yuval Abraham e Rachael Szor — que também faz a direção de fotografia), documentário que, a partir de entrevistas com 24 oficiais da inteligência militar de Israel, investiga e denuncia a política de assassinatos em massa de civis, inclusive mulheres e crianças, sob ordens do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu, a partir do pretexto de perseguir e eliminar os líderes do grupo terrorista Hamas.
Filmado nos telhados de Tel Aviv em 2023, o documentário entrecorta imagens dos militares alteradas por IA, para não serem identificados, com imagens de arquivo da criação do Estado de Israel e de sua capital. A produção ainda flagra a rotina dos moradores dos edifícios residenciais próximos aos telhados das gravações. Essa mescla dos relatos com aquela espécie de voyeurismo do prosaico das noites das pessoas que ali moram constrói um todo narrativo de terror e indiferença.
A sucessão de falas dos oficiais revela a política de extermínio do povo de Gaza, admitida inclusive por um dos entrevistados como genocídio, adotado por Israel depois dos eventos de 7 de outubro de 2023, quando um grupamento do Hamas atacou o Festival Supernova, na chamada pelo grupo terrorista “Operação Dilúvio de Al-Aqsa”, que resultou em 1.200 mortes e 250 reféns.

As entrevistas trazem à tona tecnologias de matar, justificadas como retaliação pelo Estado de Israel, tais como Lavender, que monitora todo o sistema de comunicação da Faixa de Gaza, e permite que os militares, à distância, acessem os alvos, líderes do Hamas e da Jihad Islâmica; e o “Where’s Daddy”, que aciona os bombardeios para ataque aos prédios residenciais, sempre que os marcados para morrer vão visitar suas famílias, a partir do alerta de localização dos telefones celulares monitorados. A tática e a estratégia são as de matar todos que ali estão: o alvo, seus familiares e vizinhos. A estas vítimas inocentes é dado o código de NAZA, acrônimo para a expressão em hebraico “Nezek Agavi”, traduzido por “dano colateral”. Para tal estratégia, o número de NAZAs não importa. Podem ser 10, 20, quantos forem: mulheres, crianças, idosos, deficientes, bebês… Desde que o alvo seja abatido.
O choque pela indiferença dos oficiais entrevistados, ao citarem terem operado em um sem-número de mortes de palestinos na Faixa de Gaza apenas, como diz um oficial, “apertando um botão”, não é apenas do cineasta Abraham, que é israelense, e os entrevista, mas da audiência também. São falas que relatam dezenas de milhares de assassinatos conduzidos à distância, ou mesmo a atuação de atiradores de elite, escalados para matarem aqueles que não querem deixar a cidade, ou tomam um caminho que não foi traçado por Israel. Matam todos, assistem, por suas miras, a crianças caminhando por um amontoado de cadáveres, cães, na rua, devorando corpos despedaçados de pessoas mortas nos bombardeios ou atingidas pelos snipers; valas abertas, que não dão conta da quantidade de defuntos “enterrados” ali.

Impressiona o que dizem os militares: “Um bebê é um Naza”, “500 Nazas por 1 alvo”, “Eu não faço distinção em quem matar”, “Parecem formigas, vistos ao longe, tentando fugir”, “Eu me divirto com meu trabalho, eu acho engraçado”; e, por fim, um deles conclui: “Eu achava os nazistas maus, mas o que eu sou?”. “Eu me perguntava como os alemães matavam e depois iam para casa. Eu sou isso.”
Todas as falas são produzidas com calma, tranquilidade e distanciamento. Enquanto descrevem horrores, as mais prosaicas atividades noturnas dos moradores de Tel Aviv ilustram a indiferença e o distanciamento do mal, tornando-o banal.
Mais do que um filme, temos aqui um dossiê e uma denúncia de um dos maiores crimes contra a espécie humana, de uma das maiores atrocidades do século XXI. Um filme dificílimo de se assistir, que provoca ânsia de vômito, indigna, enoja e incomoda. Mas necessário, extremamente necessário.
Nota: 10
