Pimenta Nerd

A sua dose certa de Nerdice

```html ```

Cartório das Almas (2026)

Ficção científica com ares retrô, reflete sobre a morte e o sentido da vida...

Sumário

A morte, em suas várias representações ou maneiras de ser expressada em construções imagéticas — seja em violência gráfica em forma de homicídios, execuções, acidentes, suicídio, doenças terminais, ou, filosoficamente, ao se fazer presente na ausência de pessoas queridas ou na perspectiva de nosso desaparecimento físico deste planeta —, é um tema recorrente no cinema.

Há filmes de serial killers quase indestrutíveis, como Jason da franquia Sexta-Feira 13 (EUA, 1980, direção de Sean S. Cunningham), ou Michael Myers de Halloween (EUA, 1978, direção de John Carpenter), ou heróis que matam aos borbotões, como John Wick (EUA, 2014, direção de Chad Stahelski) em seus filmes e derivados, além de uma infindável lista de obras sobre assassinatos e mortes! E como não lembrar de Premonição (EUA, 2000, direção de James Wong), o primeiro e os subsequentes? Há também obras que refletem sobre o sentido da vida, tais como 21 Gramas (EUA, 2003, direção de Alejandro González Iñárritu), O Sétimo Selo (Suécia, 1957, direção de Ingmar Bergman), Antes de Partir (EUA, 2007, direção de Rob Reiner), Amor (França/Áustria/Alemanha, 2012, direção de Michael Haneke), Morangos Silvestres (Suécia, 1957, direção de Ingmar Bergman), etc. E ainda sobre o luto, como O Quarto do Filho (Itália, 2001, direção de Nanni Moretti), Manchester à Beira-Mar (EUA, 2016, direção de Kenneth Lonergan), Anticristo (Dinamarca/Alemanha/França, 2009, direção de Lars von Trier)… Tantos e quantos são os exemplos que a lista é praticamente infinita.

Cartório das Almas (Brasil, 2026, direção de Léo Belo), um misto drama e de ficção científica, é mais um nessa relação que versa sobre a morte, a ânsia pela imortalidade e o propósito de viver.

Publicidade

De ritmo lento, com longos silêncios e planos abertos da região do Cerrado do Distrito Federal, e construções arquitetônicas de Oscar Niemeyer no Plano Piloto da capital do país, remetendo à solidão e à desolação; de fotografia opaca, quase monocromática, em que sua paleta de cores é basicamente composta de branco, cinza, marrom e azul quase descoloridos; com atuação minimalista do elenco e estética retrô-futurista, o filme é uma obra poética, sensível e delicada.

O roteiro, ao tratar de um futuro incerto onde a morte e o envelhecimento foram superados — em que a imortalidade foi finalmente alcançada em troca do apagamento da memória e de se estar presente apenas no aqui e agora, sem passado —, leva-nos a uma reflexão constante acerca do real valor que baliza a vida. Vale a pena existir, infinitamente, sem conexões, sem afeto, sem lembranças e laços? A morte, nesta diegese, é uma opção dada àqueles que estão cansados de uma existência sem a perspectiva da extinção, mas também sem sentido, sem sentimentos.


Seja através dos planos fotográficos e enquadramentos de rara beleza e sensibilidade; da metáfora dos pássaros (as graúnas) e de lagartas em transmutação em borboletas, e água e riachos em cena; do design de som, ou da fala de alguns personagens, que aqui e ali expressam sentenças como “As pessoas estão vivendo mais tempo, só que elas não sentem mais”; ou, dito por meio de uma criança, “Assim como se nasce, se morre”, Cartório das Almas nos oferece à contemplação o vazio da vida que perdeu a razão de ser e nos leva a meditar o quão valiosas são nossas relações de afeto, a memória de nossos entes queridos, perguntando-nos o que é efetivamente existir e o que é a imortalidade. Não seriam as repercussões e recordações que deixamos enquanto estamos vivos, e aquelas dos que já partiram que ecoam em nós enquanto aqui estamos, a eternidade? Um belíssimo filme!

Nota 8/10

Compartilhe em suas redes sociais

Marcio Souza
Sobre o autor Marcio Souza

Cinéfilo, antes de tudo! Fã de quadrinhos das antigas, amante das letras, psicólogo, bacharel em cinema e áudio visual, crítico de cinema, roteirista, ator, etc. Sou tantas coisas, mas nada me cabe, ou define.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pimenta Nerd Recomenda