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Critica: Rosebush Pruning (2026)

Festival do Rio Texto: Lucas Valença Karim Aïnouz leva o absurdo ao limite Existem famílias disfuncionais e existem famílias que parecem ter sido criadas especificamente para provar que o ser humano consegue chegar a níveis inimagináveis de toxicidade. Rosebush Pruning,...

Sumário

Festival do Rio

Texto: Lucas Valença

Karim Aïnouz leva o absurdo ao limite

Existem famílias disfuncionais e existem famílias que parecem ter sido criadas especificamente para provar que o ser humano consegue chegar a níveis inimagináveis de toxicidade. Rosebush Pruning, novo filme dirigido pelo brasileiro Karim Aïnouz, pertence definitivamente à segunda categoria.

Ambientado em uma mansão sob o sol da Catalunha, o filme acompanha irmãos americanos que vivem isolados em meio à fortuna herdada pela família. Cercados por dinheiro, luxo e privilégios, eles aparentemente teriam tudo para levar uma vida tranquila. O problema é que, quando ninguém precisa se preocupar com problemas reais, parece que sobra bastante tempo para criar problemas uns com os outros.

Com roteiro de Efthimis Filippou, colaborador frequente de Yorgos Lanthimos, o longa constrói uma história cada vez mais absurda sobre uma família que não consegue conviver sem transformar absolutamente tudo em uma disputa.

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E Karim Aïnouz parece se divertir muito com isso.

Uma família que se devora

Todos querem atenção

A primeira coisa que chama atenção em Rosebush Pruning é o quanto seus personagens são tóxicos.

Eles são dependentes uns dos outros, movidos por ego, ressentimentos e pela necessidade constante de provar alguma coisa. Ninguém parece realmente satisfeito com a própria vida, mesmo tendo dinheiro suficiente para resolver praticamente qualquer problema material.

O resultado é uma família que transforma pequenas situações em grandes conflitos e que está constantemente tentando superar uns aos outros.

O mais interessante é que o roteiro não tenta escolher um verdadeiro vilão. Aqui, praticamente todo mundo tem culpa.

Quando algum personagem parece minimamente equilibrado, sensato ou capaz de colocar um pouco de ordem naquela casa, o roteiro rapidamente encontra uma maneira de desmentir essa impressão.

É como se o filme dissesse ao espectador: não confie em ninguém.

O pior inimigo de si mesma

Essa dinâmica faz com que a família se torne uma espécie de representação exagerada de uma burguesia que vive completamente desconectada da realidade.

Os problemas apresentados são, muitas vezes, extremamente fúteis. Mas, para aquelas pessoas, eles parecem ser questões de vida ou morte.

E é justamente aí que nasce boa parte do humor do filme.

Rosebush Pruning não precisa transformar seus personagens em pessoas agradáveis para que o público se divirta acompanhando suas desgraças. Pelo contrário: quanto mais eles se destroem, mais interessante a história fica.

O absurdo como ferramenta de humor

Três vezes mais ácido que Saltburn

A comparação com Saltburn é praticamente inevitável.

Os dois filmes mergulham em ambientes de riqueza, privilégios, relações tóxicas e comportamentos cada vez mais extremos. Mas, para mim, Rosebush Pruning leva essa acidez a um nível ainda maior.

Se Saltburn já tinha prazer em observar pessoas ricas tomando decisões questionáveis, aqui existe uma vontade ainda mais evidente de levar tudo ao limite.

O filme começa relativamente contido, mas rapidamente vai aumentando sua intensidade. A cada nova situação, parece que os personagens encontraram uma maneira ainda pior de lidar com seus próprios problemas.

E quando você pensa que finalmente chegou ao limite, o roteiro encontra outra forma de ultrapassá-lo.

Um escândalo atrás do outro

O filme não economiza em situações constrangedoras.

Existe escândalo sexual, existe disputa familiar, existe humor ácido e existe uma quantidade considerável de momentos em que você simplesmente não sabe se deve rir ou ficar desconfortável.

E essa dúvida é justamente uma das melhores características da produção.

Karim Aïnouz entende que o absurdo funciona melhor quando existe uma certa naturalidade na maneira como os personagens lidam com ele. As situações podem ser completamente absurdas, mas os personagens continuam seguindo suas vidas como se aquilo fosse apenas mais um problema doméstico.

Isso aumenta ainda mais o constrangimento.

Karim Aïnouz abraça o caos

Uma direção que entende o tom

Karim Aïnouz parece estar completamente à vontade dentro desse universo.

Conhecido por trabalhos como Madame Satã, Praia do Futuro e A Vida Invisível, o cineasta brasileiro mostra aqui uma faceta bastante diferente de sua filmografia, abraçando uma narrativa mais provocadora, ácida e absurda.

E o mais interessante é que ele não tenta controlar demais esse caos.

A direção permite que a história caminhe por lugares cada vez mais estranhos, mantendo uma tensão constante do início ao fim.

Existe sempre a sensação de que alguma coisa ainda pior está prestes a acontecer.

É justamente essa expectativa que mantém o espectador envolvido.

O improviso aumenta o desconforto

Outro elemento que funciona muito bem são as cenas que parecem ter nascido de improviso.

Existe uma espontaneidade em determinados momentos que faz com que as situações pareçam ainda mais desconfortáveis e absurdas. Não é necessariamente uma sensação de que os atores estão improvisando de maneira evidente, mas de que o filme permite que seus personagens tenham comportamentos imprevisíveis.

Isso combina perfeitamente com a proposta.

Afinal, estamos acompanhando pessoas completamente descontroladas emocionalmente, então faz sentido que a própria narrativa pareça estar constantemente prestes a perder o controle.

Um elenco cheio de nomes conhecidos

O elenco também é um dos grandes atrativos de Rosebush Pruning.

A produção reúne Callum Turner, Riley Keough, Elle Fanning, Lukas Gage e Jamie Bell, formando um grupo de personagens que precisa sustentar boa parte do filme justamente através de suas relações.

Como todos estão presos nessa dinâmica familiar, a química entre os atores se torna fundamental para que o caos funcione.

E funciona.

O filme depende muito da capacidade do elenco de interpretar personagens que podem ser simultaneamente engraçados, irritantes, patéticos e completamente imprevisíveis.

Não existe exatamente alguém para torcer. O prazer está em descobrir até onde cada um deles será capaz de ir.

Uma sátira sobre os problemas mais fúteis do mundo

Quando dinheiro não resolve absolutamente nada

Talvez uma das melhores coisas de Rosebush Pruning seja justamente sua capacidade de transformar privilégios em motivo de piada.

Essas pessoas possuem dinheiro, segurança e liberdade para fazer praticamente qualquer coisa. Ainda assim, conseguem transformar suas próprias vidas em um completo desastre.

É uma sátira bastante direta à burguesia e à elite econômica, mostrando indivíduos que possuem todos os recursos possíveis, mas continuam sendo incapazes de resolver seus próprios conflitos.

O filme parece perguntar: o que acontece quando você tem tudo, menos maturidade emocional?

A resposta é uma família que passa boa parte do tempo se destruindo.

A recepção dividida em Berlim

A recepção de Rosebush Pruning em Berlim foi dividida.

Parte da crítica considerou que a sátira aos super-ricos é um terreno que o cinema contemporâneo já explorou bastante. E é verdade que, nos últimos anos, vimos diversas produções interessadas em observar personagens ricos e privilegiados sendo colocados em situações extremas.

Mas acredito que o diferencial aqui está justamente na maneira como Karim Aïnouz conduz esse material.

O filme não está necessariamente tentando reinventar a sátira sobre a elite. Ele parece muito mais interessado em descobrir até onde consegue levar seus personagens.

E, durante a exibição no Festival de Cinema do Rio, a reação do público brasileiro pareceu mostrar que existe espaço para esse tipo de absurdo.

As risadas e os sons de espanto durante determinadas viradas demonstraram que, pelo menos naquela sessão, o público comprou completamente a proposta.

Uma família impossível de abandonar

Rosebush Pruning é um daqueles filmes em que você sabe que as pessoas na tela estão tomando decisões terríveis, mas continua querendo descobrir qual será a próxima.

A tensão não vem necessariamente de uma grande ameaça externa. Ela nasce dos próprios personagens.

Eles são seus maiores inimigos.

Cada conversa pode virar uma discussão. Cada disputa pode chegar a um extremo inesperado. Cada tentativa de controle pode resultar em ainda mais caos.

E é justamente isso que faz o filme funcionar tão bem como comédia ácida.

Conclusão

Rosebush Pruning é uma experiência deliciosamente desconfortável.

Karim Aïnouz pega uma família rica, isolada e completamente disfuncional e transforma suas disputas de ego em uma espécie de espetáculo do absurdo. Com roteiro de Efthimis Filippou, o longa mantém uma tensão constante e encontra humor justamente na incapacidade desses personagens de simplesmente viverem suas vidas.

A comparação com Saltburn é inevitável, mas aqui existe uma acidez ainda maior e uma disposição ainda mais clara para levar as situações aos extremos.

Pode ser verdade que a sátira aos super-ricos já tenha sido explorada diversas vezes pelo cinema recente. Mas Rosebush Pruning encontra sua própria diversão nesse terreno ao entender que não precisa de personagens agradáveis ou de uma história convencional para prender nossa atenção.

Basta colocar uma família tóxica em uma mansão, dar dinheiro suficiente para que nenhum deles precise enfrentar problemas reais e esperar o caos acontecer.

E o caos acontece.

Com muito humor ácido, escândalos, situações constrangedoras e uma direção que abraça completamente o absurdo, Rosebush Pruning é um filme que provavelmente vai dividir opiniões, mas dificilmente deixará alguém indiferente.

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Marina Bueno
Sobre o autor Marina Bueno

Apaixonada por cultura pop, teatro e musicais. Fã de Wicked, da Supergirl e de histórias inspiradoras, encontrei nos palcos e nas telas minha maior fonte de entretenimento. Corinthiana de coração, valorizo a emoção das grandes apresentações, seja em um espetáculo musical ou em uma partida de futebol.

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