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As Irmãs Fox (2026)

O diretor Wagner de Assis leva às telas a história das irmãs Fox, pioneiras do espiritualismo moderno....

Sumário

Cinema e religião têm um forte laço que se iniciou nos primórdios da Sétima Arte. Desde o primeiro filme sobre a Paixão de Cristo, o francês La Vie et la Passion de Jésus-Christ (França, 1898), produzido pelos irmãos Lumière e dirigido por Georges Hatot, passando pelos épicos de Cecil B. DeMille, como Os Dez Mandamentos (em duas versões: EUA, 1923 e EUA, 1956), O Rei dos Reis (EUA, 1927) e O Sinal da Cruz (EUA, 1932); cruzando os clássicos da “Era de Ouro” de Hollywood, como Quo Vadis (EUA, 1951) e Ben-Hur (EUA, 1959); até versões modernas da Paixão de Cristo ou produções com perspectiva cristã, como A Cabana (EUA, 2017) — este é um tipo de filme que, além de tradicional, tornou-se também um gênero cinematográfico. 

No Brasil de antigamente, era uma tradição de Semana Santa as famílias irem ao cinema para assistir a filmes sobre Jesus, como a versão do diretor Nicholas Ray para Rei dos Reis (EUA, 1961) e a minissérie/filme Jesus de Nazaré (Itália/Reino Unido, 1977), de Franco Zeffirelli; além do clássico Marcelino Pão e Vinho (Espanha, 1955). 

Nessa perspectiva de longa data, em que o cinema serve como lupa e janela para narrativas religiosas, o diretor e roteirista Wagner de Assis aparece como o nome principal do chamado “cinema espírita” no Brasil. Ele assina obras como Nosso Lar (2010), Nosso Lar 2: Os Mensageiros (2024), Kardec (2019) e Ninguém é de Ninguém (2023) — cujos roteiros têm gênese e influência direta da doutrina espírita kardecista. 

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As Irmãs Fox (The Fox Sirsters, Brasil/EUA, 2026) é a nova empreitada de Assis que chega aos cinemas de todo o Brasil. Falada em inglês e rodada nos EUA e no Brasil, a trama foca na vida das irmãs que viveram no estado de Nova York em meados do século XIX. A partir de fenômenos sobrenaturais e de supostas interações com espíritos, elas se tornaram precursoras do movimento espiritualista moderno nos EUA. O movimento, marcado por sessões de psicografia e “mesas girantes” — nas quais se acreditava haver comunicação com os mortos —, encontrou eco posterior na França com as ideias de Allan Kardec, ganhando dimensão mundial. 

Antes de seguir com este texto, é preciso sublinhar que a análise da obra foi pautada apenas pelo caráter da linguagem cinematográfica, sob os pontos de vista técnico, narrativo e das atuações do elenco. Em nenhum momento a avaliação cabe à doutrina espiritualista ou espírita que norteia a obra; é preciso separar a religião do filme.

Assim, do ponto de vista fílmico, há um amontoado de equívocos que tornam a experiência um fardo pesadíssimo de se atravessar. Em ritmo de tartaruga, o longa apresenta uma paleta de cores pálida e saturada, abusando de tons marrons e apagados. A fotografia peca ao exagerar na dicotomia entre luz e escuridão, utilizando velas em cena de uma maneira tão excessiva e óbvia que, quando um importante personagem morre e a câmera foca na chama da vela, torna-se evidente que ela se apagará. Apenas em algumas tomadas externas, quando planos abertos alcançam os campos norte-americanos cobertos de neve, o filme atinge alguma beleza.

As atuações e os efeitos visuais são capítulos à parte em erros. O elenco não se encontra em cena, e atua em modo novela mexicana – ou turca. O CGI, em sequências em que espíritos se revelam, poderia ser chamado de “defeitos especiais”. Tosco.

A trilha sonora em ritmo fúnebre não ajuda em nada, e puxa para baixo todo o filme, e quem se habilitar a assisti-lo.

O roteiro até tenta dar uma piscadela para o grande público fã do gênero horror: há um uso exagerado de móveis se arrastando, mesas tremendo sozinhas, além de louças e talheres sendo lançados pelo ar. Contudo, a narrativa logo abandona esse caminho e assume uma postura estritamente “séria” para demonstrar as reuniões de contato com o além.

As Irmãs Fox surge, então, como um filme de nicho feito para o próprio nicho. Talvez agrade a quem professa essa fé e deseja ver na tela grande aspectos históricos do espiritualismo. Ainda assim, mesmo para esse público, a produção poderia ter tomado um rumo mais feliz se focasse em entregar um entretenimento de qualidade. Infelizmente, não deu certo. 

Nota 4/10

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Marcio Souza
Sobre o autor Marcio Souza

Cinéfilo, antes de tudo! Fã de quadrinhos das antigas, amante das letras, psicólogo, bacharel em cinema e áudio visual, crítico de cinema, roteirista, ator, etc. Sou tantas coisas, mas nada me cabe, ou define.

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