Pimenta Nerd

A sua dose certa de Nerdice

Crítica: The Children’s Hour

Um melodrama historicamente importante que encontra força nas atuações, mas também revela as limitações de sua época...

Sumário

Sinopse

The Children’s Hour acompanha Karen Wright e Martha Dobie, duas professoras que administram juntas uma escola para meninas. A vida das duas muda completamente quando uma aluna espalha uma mentira sobre a relação entre elas, fazendo com que sejam acusadas de manter um relacionamento amoroso. A partir disso, a escola perde seus alunos, as famílias se afastam e a acusação passa a afetar não apenas a vida profissional das duas, mas também seus relacionamentos e sua própria percepção sobre aquilo que está acontecendo.

Atenção: esta crítica contém spoilers de The Children’s Hour.

Publicidade

Um melodrama sustentado pelas atuações

Sempre vi The Children’s Hour em listas de filmes LGBT mais importantes da história, então entrei no filme com muitas expectativas. Encontrei um excelente melodrama, mas também cheio de problemáticas narrativas e representatividade.

O maior destaque são Audrey Hepburn e Shirley MacLaine. Gosto muito de como as duas constroem personagens tão diferentes: Karen parece mais próxima da figura tradicional de uma professora, enquanto Martha carrega durante quase todo o filme um semblante introspectivo, como se mantivesse seus sentimentos constantemente reprimidos, entalados na garganta. E quando finalmente consegue colocar esses sentimentos para fora, a atuação de Shirley MacLaine me deixou impactado, mas o que torna a cena tão dolorosa vai além da atuação, difícil não pensar em tudo o que Martha carregou durante o filme: a misoginia, a repressão e a ideia de que talvez nunca pudesse construir a vida que desejava. A Karen até tenta alcançá-la, mas Martha já não consegue receber sequer aquele afeto. Era como se toda a sua angústia e medo de tanto tempo finalmente tivessem chegado àquele momento.

A atuação de Audrey Hepburn como Karen também merece destaque, principalmente pela maneira como ela acompanha a perda gradual de esperança da personagem. Karen começa segura de que a verdade prevalecerá, mas vai se tornando cada vez mais abatida conforme percebe que não consegue controlar a situação. Audrey consegue transmitir essas mudanças de forma expressiva utilizando o olhar e a linguagem corporal.

A força da direção de William Wyler

A direção de William Wyler é outro ponto forte. A mise-en-scène é absurda, principalmente nos enquadramentos e na maneira como os elementos permanecem perceptíveis dentro do quadro. Gosto de como o filme não depende constantemente do desfoque para separar os personagens do ambiente. Odeio quando muito filmes atuais têm dificuldade em enquadrar mais de dois personagens.

Ao mesmo tempo, senti falta de alguns momentos em que o espaço pudesse respirar mais. O filme é constantemente preenchido por diálogos, conflitos e emoções e, por preferência pessoal, eu queria que a escola e seus espaços fossem explorados de maneira mais contemplativa. É apenas uma questão de gosto, em alguns momentos, gostaria que o filme confiasse ainda mais no silêncio e no ambiente para transmitirem o isolamento das personagens.

Um roteiro que perde força em alguns momentos

Meu principal problema está no roteiro. Alguns recursos funcionam na primeira vez, como esconder a mentira da criança e deixar que descubramos a informação pela reação da avó, mas, quando a mesma coisa se repete, perde um pouco da força. Também senti alguns saltos temporais muito bruscos, principalmente quando acontecimentos importantes são resumidos através de diálogos, como toda a cena do tribunal, que acontece off-screen, ditos posteriormente em diálogos expositivos. James Garner também não me convenceu tanto quanto as protagonistas, especialmente em um dos momentos que deveria ser o ápice emocional de seu personagem. Enquanto Hepburn e MacLaine conseguem transmitir muito do sofrimento das personagens através das próprias expressões e do comportamento, senti que Garner não alcançou a mesma intensidade.

Uma representação marcada por sua própria época

O que me chama atenção também, é sua contradição. The Children’s Hour tenta denuncia como o ódio consegue destruir vida de uma pessoa inocente, mas ele ainda carrega algumas das limitações do que ele pretende combater.

Martha passa boa parte da história reprimindo aquilo que sente e, quando finalmente consegue colocar para fora, sua história termina em suicídio. É curioso também que o filme nunca utiliza a palavra “lésbica”; em seu lugar aparecem palavras como “unnatural” e “disgusting”, etc. É como se a sexualidade precisasse ser escondida atrás de um julgamento ainda mais pesado. E isso me faz pensar se esse filme realmente está combatendo o preconceito, ou reproduzindo aquilo que parece condenar.

Talvez o filme esteja interessado principalmente no poder destrutivo de uma mentira e não na violência causada pela lesbofobia. Porém, na cena de coming out, em que Martha finalmente expressa seus sentimentos, ela não apenas sofre o julgamento dos outros, mas passa a repetir esse julgamento contra si, mostrando como o julgamento da sociedade preconceituosa foi internalizado. Isso, para a época, é interessante, pois denuncia o quanto os comentários maldosos têm seu efeito e como a homofobia pode contribuir ao suicídio.

Dito isso, entretanto, o filme utiliza um tropo narrativo chamado “bury your gays”, em que personagens LGBTs têm suas histórias marcadas pela morte ou pelo isolamento. É justamente aí que a obra se torna contraditória para mim, ao mesmo tempo em que parece denuncia a violência sofrida pela homofobia e , ela ainda participa de um tropo na qual a descoberta ou expressão desse desejo está ligada à fatalidade.

Um filme importante, mas não intocável

The Children’s Hour continua sendo um excelente melodrama, principalmente pela força de Audrey Hepburn e Shirley MacLaine, pela direção de William Wyler e por uma trilha sonora magnífica. É um filme que conseguiu me comover e que reconheço como historicamente muito importante para a representação LGBT no cinema. Ao mesmo tempo, seus saltos narrativos, algumas escolhas do roteiro e as próprias contradições de sua representação mostram que importância histórica não significa estar acima de críticas. E observar mais de seis décadas depois, é também perceber o quanto a representação LGBT no cinema precisou e ainda precisa mudar.

3,5/5 🌶

Compartilhe em suas redes sociais

Gustavo.novaes
Sobre o autor Gustavo.novaes

Sou apaixonado por cinema, cultura pop e música, e gosto de explorar diferentes formas de arte e compartilhar minhas impressões sobre aquilo que assisto e descubro. Aqui, pretendo compartilhar críticas e textos de maneira simples, pessoal e sincera.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pimenta Nerd Recomenda