A comédia alucinante de Spielberg
Entre os primeiros trabalhos de Steven Spielberg existe um filme que muitas vezes acaba ficando esquecido quando comparado a gigantes como Tubarão, E.T. ou Indiana Jones. Louca Escapada (The Sugarland Express), lançado em 1974, é apenas o segundo longa-metragem do diretor e talvez um dos exemplos mais curiosos de sua carreira inicial. Misturando comédia, drama e road trip, o filme acompanha uma jornada completamente caótica, onde situações absurdas surgem a cada minuto. Mas será que o filme continua funcionando tantos anos depois? Vamos descobrir.
Sinopse: Uma mulher tenta reunir novamente sua família e ajuda o marido a escapar da prisão para que juntos possam recuperar o filho, adotado por outra família. A fuga acaba provocando uma perseguição policial gigantesca pelas estradas do Texas.
Quando você começa a explorar a filmografia de Steven Spielberg existe um certo choque inicial ao perceber que, antes de se tornar o mestre dos blockbusters, ele era um diretor interessado em histórias muito menores e mais humanas. Louca Escapada parece justamente um experimento onde Spielberg brinca com gêneros e estilos diferentes, algo que mais tarde ele refinaria em trabalhos maiores.
Mesmo que ainda seja possível notar características que futuramente se tornariam marcas registradas do diretor como personagens deslocados, relações familiares problemáticas e o constante sentimento de aventura aqui tudo aparece de maneira muito mais crua e descompromissada.
A dupla formada por Goldie Hawn e William Atherton funciona muito bem. Goldie Hawn interpreta Lou Jean praticamente como um furacão: uma mulher impulsiva, exagerada e extremamente determinada a recuperar seu filho. Ela domina a tela em praticamente todas as cenas em que aparece. Já William Atherton funciona como um contraste interessante, sendo alguém que claramente parece estar sendo arrastado para aquela situação maluca.
E ainda existe Harrison Zanuck, o policial sequestrado pelos protagonistas durante a fuga, que acaba entrando naquela situação completamente contra sua vontade. É justamente entre esse trio que surgem alguns dos momentos mais divertidos do filme.

O humor funciona principalmente através da situação. Spielberg não tenta construir piadas tradicionais; ele cria momentos absurdos e deixa que os personagens reajam a eles. Muitas vezes você não ri exatamente porque algo foi engraçado, mas pela estranheza do momento ou pelo completo caos acontecendo diante da câmera.
Existe também muito humor físico presente. As reações exageradas, perseguições e o comportamento imprevisível dos personagens tornam a narrativa quase uma caricatura em certos momentos. Em alguns casos você ri genuinamente; em outros, acaba rindo de nervoso pelo absurdo da situação.
Na direção, Spielberg já demonstra um domínio impressionante para alguém que ainda estava no começo da carreira. A câmera está sempre em movimento, acompanhando carros, personagens e a movimentação das estradas do Texas. Mesmo sendo um filme relativamente pequeno, ele consegue criar escala e sensação de grandiosidade.
Além disso, o roteiro escrito por Spielberg, Hal Barwood e Matthew Robbins possui alguns cortes bruscos e inesperados que criam surpresa constante. Em alguns momentos o filme simplesmente muda de cenário ou situação sem avisar, quase como se estivesse acompanhando o caos mental dos próprios personagens.

Porém, mesmo com diversos acertos, o filme possui problemas claros. Seu maior defeito talvez seja o ritmo. A narrativa se estende mais do que deveria e algumas cenas parecem durar além do necessário. Certos momentos passam a sensação de repetição, como se a história estivesse apenas tentando preencher tempo até chegar ao próximo grande acontecimento.
O que poderia ser uma road trip extremamente divertida acaba perdendo força em alguns trechos. Há momentos em que o filme desacelera demais e transforma uma aventura maluca em algo um pouco cansativo.
No fim, Louca Escapada é um filme curioso dentro da carreira de Spielberg. Talvez não seja uma de suas obras mais memoráveis, mas é fascinante observar um diretor ainda descobrindo sua identidade e experimentando ideias que seriam refinadas anos depois. Entre acertos e tropeços, o longa continua sendo uma peça interessante para entender a evolução de um dos maiores cineastas da história.

