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Filme é uma antítese que vai além da diegese 

Cry Macho – O Caminho para a redenção é um filme de 2021 americano de neo-western e drama dirigido e produzido por Clint Eastwood, que também estrela o filme.[6] Baseado no romance homônimo de 1975 de N. Richard Nash, o roteiro foi escrito por Nash antes de sua morte em 2000 ao lado de Nick Schenk. E, se avaliarmos o filme em si, não é mesmo grande coisa, por mais potencial que tivesse. Mas, observando a intenção dele, foi totalmente proposital. E mesmo cinco anos após sua estreia, decidi assisti-lo e o que vi, acho que merece alguns dedinhos de prosa…

Cry Macho conta a história de uma ex-estrela do rodeio e criador de cavalos que, em 1978, arruma o emprego de um ex-chefe para levar o filho dele para casa e longe de sua mãe alcoólatra. Atravessando a zona rural do México em seu caminho de volta para o Texas, a dupla improvável enfrenta uma jornada inesperadamente desafiadora, durante a qual o cavaleiro cansado do mundo pode encontrar seu próprio senso de redenção ensinando ao menino o que significa ser um bom homem.  

Cry Macho dialoga com Gran Torino – outro filme de Clint – porém com um senso dramático menos acentuado. A problemática não é tão aguda, por mais que prometa ser. O risco existe, mas ele não se apresenta todas as vezes que poderia aparecer. O que pode ser quase decepcionante. Mas, considerando que o ator protagonista – que está na casa dos 90 anos – não tem o mesmo vigor físico de outrora, as resoluções ficam muito cabíveis. Aqui, o embate físico é substituído quase todas as vezes pela estratégia tática. Tanto devido à experiência de nosso protagonista, Miko, como pela esperteza das ruas de seu “aprendiz” Rafa (Eduardo Minett). 

A dinâmica entre os dois protagonistas é muito fluída e natural. Embora Clint incorpore uma interpretação menos ríspida, ele ainda é o cara durão por baixo do corpo mais envelhecido. E Rafa nos fornece um bom rapaz, embora sempre desconfiado de todos. (O que podia ser exemplificado com menos diálogos expositivos). 

O segundo ato, repentinamente, se alonga. O risco fica quase nas sombras e começamos a apreciar a rotina de Miko e Rafa em uma pequena e acolhedora cidade do interior norte do México. E a sisudez de Miko é substituída por uma natural apreciação do novo ambiente. Pode-se ver até mesmo o próprio Clint Eastwood apreciando atuar numa dinâmica mais leve, o que pode causar uma certa estranheza. Mas é aí que a proposta do filme se apresenta de fato. E a diegese conversa totalmente com a carreira do próprio Clint. 

Clint Eastwood sempre foi considerado o cara mais durão de Hollywood.O rei dos filmes Spaghetti Western, além de assíduo protagonista de filmes policiais e de guerra. Foi a referência de masculinidade do cinema por gerações, ao lado de John Wayne e Sean Connery. Pelo menos até os anos 80 que popularizaram a ação de músculos e explosões com Stallone e Schwarzenegger. 

Em Cry Macho ainda vemos um cowboy solitário de poucas palavras, sisudo e decidido. Um homem simples, prático e com sombras no passado, numa jornada muito relacionada à redenção. O que vimos, por exemplo, em Gran Torino e até mesmo em Logan, da Fox. (Hugh Jackman lembra muito Clint Eastwood e sempre quis ver o Clint da época de “Os Imperdoáveis” atuando como Old Logan). Miko de Cry Macho está muito concentrado em cumprir sua missão, mas também em aproveitar os bons momentos. E chega até mesmo a fazer piada com a própria história, ao chamar o galo de briga de Rafa de “Macho” e por zoar a si mesmo no clímax do filme.

Ele é um homem mais próximo do fim da vida e percebe – o que é exposto praticamente num desabafo do próprio Clint – que “ser macho” não significa nada se colocar isso acima de ser um homem bom e aproveitar o tempo com as pessoas que ama. Que a guarda fechada e os punhos servem para proteger a si e aos outros, mas um homem deve saber amar e ser amado pelas pessoas, enquanto ainda estão com ele.

Analisar o terceiro ato encurtado e simplista pode tornar Cry Macho um filme ruim ou preguiçoso. Mas, ao observarmos a carreira do seu diretor, produtor e protagonista, percebemos que esta é uma despedida muito emocional da maior referência do gênero. A produção é o fechar da tampa do baú de um homem que aprendeu a valorizar o que realmente importa. Cry Macho é a antítese da carreira de Clint Eastwood que decidiu passar uma mensagem que dialoga com tudo o que ele influenciou ao longo da vida. 

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