Obra demonstra valor na simplicidade caprichada
Eu realmente não me lembro de já ter assistido a um filme russo. Mas, se mais produções forem tão fiéis à própria proposta, pretendo assistir outros. O ocidente está totalmente acostumado às métricas de storytelling e qualidade de produções técnicas padronizadas por Hollywood. Mas, seja por novelas turcas, doramas ou filmes japoneses, os live-actions do outro lado do mundo estão cada vez mais caindo no gosto popular e da crítica.
O número de produções americanas sobe enquanto a qualidade decai. Um exemplo disso – e o total oposto do filme alvo desta crítica – é o live-action de Pinóquio que tivemos em 2022. Um filme que tenta trazer o prazer da animação clássica de Walt Disney que amamos desde o seu lançamento em 1940. Mas só o que conseguiu foi ser uma produção requentada e genérica.
Isso vai totalmente no caminho oposto em Pinóquio de 2026, dirigido por Igor Voloshin e escrito pelo time formado por Aksinya Borisova, Alina Tyazhlova e André Zolatev. Geralmente filmes com muito roteiristas tendem a ter certas discrepâncias no tom ou ritmo, mas não é o caso aqui, pois a produção é totalmente coesa.
A história aqui você já conhece: um carpinteiro pede a uma fada que lhe dê um filho. Seu pedido é realizado, mas o garoto é feito de madeira. Mas, êpa! As semelhanças param por aí. Esqueça grilo falante, – que aqui é substituído por um carismático trio de baratas – baleia engolindo pessoas e nariz que cresce ao mentir.
Mas, apesar de tomar caminhos diferentes do que conhecemos, a obra consegue, através de sua identidade própria, agradar e muito. Na história, as baratas mencionadas roubam da fada dos desejos – que aqui é uma excêntrica senhora que mora em um submarino – uma chave que, ao abrir uma porta, pode conceder desejos. E assim Gepeto consegue o seu filho que é esculpido por ele mesmo após um pequeno tronco de árvore ganhar vida.
Como na história original, Pinóquio sofre uma certa camada de preconceito devido a sua condição, mas aqui ele foge de seu pai após uma discussão e vai parar em um circo itinerante. O circo é liderado por um rígido proprietário que agride seus acolhedores funcionários.
O filme tem uma estética excêntrica e quase gótica, o que lembra muito filmes de Tim Burton, só que menos sombrio. E por isso confesso ter esperado um filme infantil mas com problematicas maiores e mais complexas. Mas quando elas não ocorrem, ou são resolvidas de forma simples, percebe-se que a culpa não é do filme em si, mas de nossas expectativas. Pinóquio é um filme infantil simples, sem vontade de tocar em assuntos mais profundos, diferentemente dos filmes da Pixar, por exemplo. Mas o capricho técnico nos cenários ou os belos efeitos denotam um apreço envolvente para algo simples, mas verdadeiro. Por exemplo: uma simples história contada por personagens, é apresentada com um impressionante teatro de bonecos. Era mesmo necessário? Não. Mas por que não ter esmero por algo, por mais que seja simples?
A interação em CGI de Pinóquio com o cenário é fluída e até mesmo os reflexos externos em sua composição são impressionantes. O personagem é carismático e bondoso e nos ganha desde antes de ser literalmente lapidado. Como no conto original, a abordagem é acerca de sua ingenuidade e evolução em crescer bom, em um mundo que pode ser ruim. Como perder a inocência sem perder a pureza.
A maioria dos personagens ao redor do protagonista brilham mesmo que suas participações não sejam tão grandes. A impressão que se tem neste tópico e em todos os outros, é que o que testemunhamos é um filme simples com grande potencial para ser uma série. Afinal, o universo é convidativo.
Esqueça os filmes infantis hiperestimulativos que se concentram apenas em trazer dopamina barata às crianças. Pinóquio é um live-action de cores pouco saturadas e quase soturnas, que apesar das problemáticas sendo apresentadas e resolvidas rapidamente, o ritmo é suave.
Poderia facilmente ser uma peça de teatro, dada à grande teatralidade – muito adequada – dos atores, a presença de músicas e a valorização da arte tanto na diegese como na produção em si. Pinóquio é um filme perfeito para crianças já que tem um ritmo adequado, personagens carismáticos, lição de moral e, apesar de seguir os atos clássicos da estrutura narrativa, se preocupa muito mais nas experiências mostradas do que no entorno narrativo.
