Vidas Entrelaçadas nos leva a Paris Fashion Week pelas lentes de 3 mulheres. A semana de moda mais famosa do mundo confere em minutos, a quem consegue uma cadeira na primeira fileira ou na passarela, a visibilidade que muitos procuram a vida toda. Mas “Coutures”, título original em francês, se concentra nos impasses de quem faz a indústria funcionar – especialmente mulheres – com papéis essenciais, mas não conhecidos do público; assim como suas contratantes – marcas com décadas de legado e prestígio.
Angelina Jolie aparece em tela como Maxine Walker, uma cineasta de filmes de terror independentes que foi contratada para criar o Fashion Film de uma marca. A personagem é indiferente ao frenesi pela moda, não por desconsiderar o trabalho de quem ali está presente, mas é alguém que podemos compreender – aceitou a proposta para ganhar dinheiro e produzir seu próximo filme, tem um divórcio em andamento, e ruídos na relação entre mãe e uma filha adolescente, além de um romance confuso com seu diretor de fotografia.Veja o trailer:
O filme intercala entre Maxine, Angèline e Ada; essa última, uma modelo descoberta no Sudão do Sul, que vai a Paris abrir o desfile da mesma marca do curta-metragem da diretora. Ela, que nunca sonhou ou quis ser modelo, larga a formação em Farmácia escondida do pai e vai enfrentar a competitiva e racista vida como imigrante e modelo. Ada, interpretada pela modelo Anyier Anei, atravessa fronteiras muito jovem e a descoberta do mundo se inicia de forma pouco receptiva. Mas conhece uma parte do mundo que existe – ainda bem – que é mais agradável e sutil. Angèline (Ella Humpf) é uma maquiadora freelancer de ensaios fotográficos e desfiles, e dá suporte a Ada ao vê-la deslocada, já que não teve aulas de movimentos e expressões faciais para a câmera; nem sabe o que fazer com o corpo, pra onde olhar ou o que fazer com as mãos. A maquiadora é uma aspirante à escritora. Em sua escrita fala de pessoas que conheceu na indústria, o que presenciou nos bastidores e sua percepção sobre isso. Principalmente nos momentos finais, é ela quem narra os acontecimentos, como se fosse uma de suas histórias. Porém, ela não tem sucesso em comercializar seus relatos a um editor.

O roteiro tem uma excelente premissa, mas a expectativa é em vão. Maxine descobre ao chegar na cidade que seus exames anteriores detectaram um câncer de mama e terá que fazer quimioterapia. Imediatamente focamos em Angelina Jolie e sua experiência com a mastectomia que fez para prevenir a doença. Quando o médico comunica à diretora que terá que parar a vida por um tempo e contar à filha sobre a doença, podemos imaginar uma Angelina relutando a fazê-lo na vida real; e até sentimos a tensão que é ter essa intimidade exposta. Sentimento aflorado enquanto ela realiza exames com seios descobertos e um corpo fragilizado.
A palavra coutures [costuras] referencia haute couture, ou alta costura, o estilo de produção de vestuário de marcas luxuosas. Inclusive, o atelier que vemos a personagem chegando é da Chanel, a maison também forneceu a maquiagem utilizada na produção. Mas as narrativas do elenco feminino parecem soltas, não estão entrelaçadas, nem “costuradas”. Se assemelham, porque são mulheres trabalhando pelo reconhecimento em uma indústria (visual e da moda) dominada por homens.São mulheres que aos 20, 30 e 40 estão fazendo o que é preciso ser feito e tentando entender como fazer o que querem. Também há uma ligação entre como os corpos de mulheres são sempre marcados e monitorados, seja por alfinetes, fitas métricas e feridas em nome da beleza e estética; e as cenas inquietantes de Maxine recebendo marcas onde as mamas devem ser removidas. Há ainda uma quarta mulher em ação, Christine, a costureira do vestido de entrada do desfile; que protege suas ambições e lida com as pressões de um trabalho invisível. Resistência e talento que podem ser fortalecidos quando há apoio mútuo. São esses os pontos que eu mais gostaria que fossem aprofundados na execução do filme. A diretora Alice Winocour perde o fio que dá sentido ao protagonismo dessas mulheres em suas próprias vidas.
Está em cartaz nos cinemas trazido pela Synapse Distribution.
